Alpes Literários

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UM PASSEIO PELOS ALPES LITERÁRIOS

domingo, 2 de fevereiro de 2020

Carlos Drummond de Andrade - Idade Madura

A idade madura é a dos momentos de desilusão completa sobre aquilo que não fomos capazes de mudar no mundo. É, também, o instante em que se descobre “na pele certos sinais que aos vinte anos não [se] via”, isto é, a mais devastadora consciência de que, façamos o que façamos, a finitude da experiência humana é um condição para a qual não somos capazes de oferecer contorno.

Por isso quando deparamos com ela costumamos relembrar os momentos de infância, como se estivéssemos recorrendo à memória para nos conceber novamente jovens, com todo um plano de vida pela frente. Há, do mesmo modo, aqueles que se reconciliam, nessa idade, com os bens que angariaram, com o amor que deram e receberam, com tudo o que viram e experimentaram: esses são, a meu ver, os que podem se dizer felizes.

J.A.R. – H.C.

Carlos Drummond de Andrade
(1902-1987)

Idade Madura

As lições da infância
desaprendidas na idade madura.
Já não quero palavras,
nem delas careço.
Tenho todos os elementos
ao alcance do braço.
Todas as frutas
e consentimentos.
Nenhum desejo débil.
Nem mesmo sinto falta
do que me completa e é quase sempre melancólico.

Estou solto no mundo largo.
Lúcido cavalo
com substância de anjo
circula através de mim.
Sou varado pela noite, atravesso os lagos frios,
absorvo epopeia e carne,
bebo tudo,
desfaço tudo,
torno a criar, a esquecer-me:
Durmo agora, recomeço ontem.

De longe, vieram chamar-me.
Havia fogo na mata.
Nada pude fazer,
nem tinha vontade.
Toda a água que possuía
irrigava jardins particulares
de atletas retirados, freiras surdas, funcionários demitidos.
Nisso vieram os pássaros,
rubros, sufocados, sem canto,
e pousaram a esmo.
Todos se transformaram em pedra.
Já não sinto piedade.

Antes de mim outros poetas,
depois de mim outros e outros
estão cantando a morte e a prisão.
Moças fatigadas se entregam, soldados se matam
no centro da cidade vencida.
Resisto e penso
numa terra enfim despojada de plantas inúteis,
num país extraordinário, nu e terno,
qualquer coisa de melodioso,
não obstante mudo,
além dos desertos onde passam tropas, dos morros
onde alguém colocou bandeiras com enigmas,
e resolvo embriagar-me.

Já não dirão que estou resignado
e perdi os melhores dias.
Dentro de mim, bem no fundo,
Há reservas colossais de tempo,
futuro, pós-futuro, pretérito,
há domingos, regatas, procissões,
há mitos proletários, condutos subterrâneos,
janelas em febre, massas da água salgada, meditação e sarcasmo.

Ninguém me fará calar, gritarei sempre
que se abafe um prazer, apontarei os desanimados,
negociarei em voz baixa com os conspiradores,
transmitirei recados que não se ousa dar nem receber,
serei, no circo, o palhaço,
serei, médico, faca de pão, remédio, toalha,
serei bonde, barco, loja de calçados, igreja, enxovia,
serei as coisas mais ordinárias e humanas, e também as excepcionais:
tudo depende da hora
e de certa inclinação feérica,
viva em mim qual um inseto.

Idade madura em olhos, receitas e pés, ela me invade
com sua maré de ciências afinal superadas.
Posso desprezar ou querer os institutos, as lendas,
descobri na pele certos sinais que aos vinte anos não via.
Eles dizem o caminho,
embora também se acovardem
em face a tanta claridade roubada ao tempo.
Mas eu sigo, cada vez menos solitário,
em ruas extremamente dispersas,
transito no canto do homem ou da máquina que roda,
aborreço-me de tanta riqueza, jogo-a toda por um número de casa,
e ganho.

Em: “A Rosa do Povo” (1945)

Maturidade
(Trinh Tuan: artista vietnamita)

Referência:

ANDRADE, Carlos Drummond de. Idade madura. In: __________. A roda do povo / Claro enigma. Rio de Janeiro, RJ: BestBolso, 2010. (Seleção Saraiva vira-vira: 2 livros em 1; n. 1)

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