Alpes Literários

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UM PASSEIO PELOS ALPES LITERÁRIOS

segunda-feira, 10 de fevereiro de 2020

Ángel González - Hoje

As coisas desandam na vida do poeta, correndo ao contrário do que se esperaria naturalmente: a existência de tudo quanto tem ‘anima’ flui da morte para a vida, desaguando no nada. E mesmo as imagens que evoca não são concordes com o que, corriqueiramente, nos deparamos: escorpiões que se comportam como pombas, e estas como aqueles.

Alimentar-se da fome é a mais contorcionista de todas as ideias carreadas ao poema, assim como odiar-se a quem mais se ama: é do desvario dos seus assentamentos que o poeta extrai a força do que remanesce na mente do leitor. O paraíso onírico tudo comporta, como bem o demonstram as pinturas surrealistas ou que tais.

J.A.R. – H.C.

Ángel González
(1925-2008)

Hoy

Hoy todo me conduce a su contrario:
el olor de la rosa me entierra en sus raíces,
el despertar me arroja a un sueño diferente,
existo, luego muero.

Todo sucede ahora en un orden estricto:
los alacranes comen en mis manos,
las palomas me muerden las entrañas,
los vientos más helados me encienden las mejillas.

Hoy es así mi vida.
Me alimento del hambre.
Odio a quien amo.

Cuando me duermo, un sol recién nacido
me mancha de amarillo los párpados por dentro.

Bajo su luz, cogidos de la mano,
tú y yo retrocedemos desandando los días
hasta que al fin logramos perdernos en la nada.

Vaso japonês com rosas e anêmonas
(Vincent van Goh: pintor holandês)

Hoje

Hoje tudo me conduz ao seu contrário:
o aroma da rosa me enterra em suas raízes,
o despertar me lança em um sonho diferente,
existo, logo morro.

Tudo agora ocorre em uma ordem estrita:
os escorpiões comem em minhas mãos,
as pombas me mordem as entranhas,
os ventos mais gelados me ardem as faces.

Hoje minha vida é assim.
Alimento-me da fome.
Sinto ódio a quem amo.

Quando adormeço, um sol recém-nascido
me mancha de amarelo as pálpebras por dentro.

Sob a sua luz, de mãos dadas,
tu e eu retrocedemos desandando os dias,
até que ao fim logramos nos perder no nada.

Referência:

GONZÁLEZ, Ángel. Hoy. In: ÁNGEL GONZÁLEZ. Poesía en el campus: revista oral de poesia, Universidad de Zaragoza (ES), curso 1992-93, n. 24, p. 27.

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