Alpes Literários

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UM PASSEIO PELOS ALPES LITERÁRIOS

quinta-feira, 6 de fevereiro de 2020

W. B. Yeats - E daí?

Por muito que se faça para melhorar o mundo, muito se tem ainda a fazer, tornando qualquer empresa humana algo sumariamente limitado na escala de décadas ou centúrias. E sendo esta uma experiência que é mera figuração de uma outra ideal, no plano da metafísica platônica, mais limitada ficaria a atribuição de um sentido absoluto aos nossos esforços em vida.

Seria a dúvida sobre se a vida conteria algum sentido ou propósito, levando o poeta a apor um “E daí?” a cada término de ação: a realização profissional, o cumprimento da missão familiar – de filho(a), irmão(ã), esposo(a) –, e, ao fim, o convergir para uma velhice onde as dúvidas podem se tornar ainda mais tormentosas.

J.A.R. – H.C.

W. B. Yeats
(1865-1939)

What Then?

His chosen comrades thought at school
He must grow a famous man;
He thought the same and lived by rule,
All his twenties crammed with toil;
‘What then?’ sang Plato’s ghost. ‘What then?’

Everything he wrote was read,
After certain years he won
Sufficient money for his need,
Friends that have been friends indeed;
‘What then?’ sang Plato’s ghost. ‘ What then?’

All his happier dreams came true -
A small old house, wife, daughter, son,
Grounds where plum and cabbage grew,
poets and Wits about him drew;
‘What then.?’ sang Plato’s ghost. ‘What then?’

The work is done,’ grown old he thought,
‘According to my boyish plan;
Let the fools rage, I swerved in naught,
Something to perfection brought’;
But louder sang that ghost, ‘What then?’

O que vem depois
(David F. Moussallem: pintor canadense)

E daí?

Na escola achava, cada amigo mais chegado,
que ele viria a ser um homem celebrado;
pensando o mesmo, ele viveu com esse humor,
fartando os seus vinte anos de labor;
“E daí?” “E daí?” – cantou o fantasma de Platão.

Tudo o que ele escreveu, tudo foi lido;
Depois de certos anos tinha já obtido
dinheiro suficiente para sua precisão,
e amigos que deveras foram seus amigos;
“E daí?” “E daí?” – cantou o fantasma de Platão.

Seus sonhos mais felizes realizaram-se:
uma velha casinha; esposa, filha; um filho ele houve,
e em seu quintal cresciam ameixeira e couve;
poetas e intelectuais juntavam-se-lhe à mão;
“E daí?” “E daí?” – cantou o fantasma de Platão.

“A obra está feita”, pensou ele, envelhecido,
“segundo o que em menino dei por decidido;
que os tolos raivem, eu não me desviei em nada,
alguma coisa eu trouxe à perfeição”;
‘‘E daí?” – cantou mais alto a sombra de Platão.

Nota do Tradutor:

O poema, escrito em 1936 para The Erasmian, foi chamado por Yeats “um melancólico poema biográfico”. John McNeill, seu professor na High School, dizia que, durante uma longa conversa, o estudante Yeats “lhe confidenciara todos os seus planos para o futuro quanto a escrever e recitar poesia – planos a que se agarrou com firmeza e realizou plenamente”.

A conclusão a se tirar do poema é que a capacidade humana é limitada diante da infinita possibilidade, como aponta Tuohy; ou então, digamos, que uma perfeição não exclui muitas outras. Ou ainda, como quer Ellmann, o refrão, platonicamente, duvida da realidade essencial do que foi feito.

Referência:

YEATS, W. B. What then? / E daí?. Tradução de Péricles Eugênio da Silva Ramos. In: __________. Poemas de W. B. Yeats. Tradução, introdução e notas de Péricles Eugênio da Silva Ramos. São Paulo, SP: Art Editora, 1987. Em inglês: p. 152; em português: p. 153.

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