Alpes Literários

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UM PASSEIO PELOS ALPES LITERÁRIOS

segunda-feira, 21 de outubro de 2019

Vassar Miller - Para um Batizado

Miller recorre a inúmeras associações criadas pelo próprio imaginário humano, capazes de dar conta de um evento de plena significação para a continuidade da vida: não apenas nascer, num plano biológico, mas nascer para fazer diferença junto aos entes queridos, consagrando devotamente uma criança pelo nome.

Observam-se, desse modo, menções extraídas ao enredo bíblico sobre o ato de criação de Adão e Eva, da adoração dos pastores a Jesus, nascido em uma estrebaria, e do dogma de Deus único representado em uma Trindade. E a relembrar o feito de nomeação dos animais sobre a face da terra por parte do homem, aflora no poema uma soberana anáfora ao final de cada estrofe: o que denominamos também se revela como aquilo que amamos.

J.A.R. – H.C.

Vassar Miller
(1924-1998)

For a Christening

Like the first man to glance
Into a face and fathom
The word as welcome, dance
The common human rhythm;
Like ali fish or fawn that carne
At Adam’s cry, or dove –
So you are what we name,
And what we name we love.

Or like the stars recorded
By shepherds who had striven
With wonder and thus worded
The wildemess of heaven,
Shy creature growing tame,
Taken from womb s dense grove –
You now are what we name
When what we name we love.

One with ali precious things
Called from the dusk of death,
Rose-texture, whir of wings,
Garrisoned with our breath –
You wear its sheath of flame
Around, beneath, above
You, being what we name
For you are what we love.

One with the sacred powers
Man credles on his tongue
During time’s timeless hours
Whereon his heart is hung –
In the adoring frame
Made by our arms, you move;
For you are what we name,
And what we name we love.

In the Name of the Three in One,
More awesome still than ours,
From whence your mistery spun,
Wherein it yet endures,
Speaking, though holy shame
Would silence us, we prove
How what we love we name
How what we name we love!

O Batismo
(Julius L. Stewart: pintor norte-americano)

Para um Batizado

Como o primeiro homem a contemplar
Um rosto e procurar
a palavra como bem-vinda, dança
O ritmo humano comum;
Como todo peixe ou fauno que surgiram
Ao chamado de Adão, ou mergulharam –
Assim és tu aquilo que te denominamos,
E o que denominamos amamos.

Ou como as estrelas anunciadas
Por pastores que lutaram
Com a surpresa e emprestaram palavras
À desolação do céu,
Tímida criatura a domesticar-se,
Extraída da densa alameda do ventre –
És agora aquilo que te denominamos
Quando o que denominamos amamos.

Identificado com todas as coisas preciosas,
Convocadas da escuridão da morte,
Tessitura de rosa, adejar de asas,
Protegida por nosso hálito –
Usas a aura de chamas desse hálito
Ao redor de ti, por baixo de ti, por cima
De ti, sendo aquilo que te denominamos,
Pois que és o que amamos.

Identificado com os poderes sagrados
Que o homem embala em sua língua,
Durante as horas incontáveis do tempo,
Do qual pende seu coração –
Na moldura adorável
Feita com os nossos braços, moves-te;
Pois és aquilo que te denominamos,
E o que denominamos amamos.

Em nome dos Três em Um,
Mais terrível ainda que os nossos,
De onde teu mistério proveio,
E onde ainda perdura,
Falando, apesar de a santa vergonha
Dever calar-nos, provamos
Como quando amamos denominamos,
Como denominamos aquilo que amamos!

Referência:

MILLER, Vassar. For a christening / Para um batizado. Tradução de Marcos Santarrita. In: NEMEROV, Howard (Coord.). Poesia como criação. Tradução de Marcos Santarrita. Rio de Janeiro, GB: Edições GRD, 1968. Em inglês: p. 148-149; em português: p. 163.

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