Alpes Literários

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UM PASSEIO PELOS ALPES LITERÁRIOS

quarta-feira, 15 de agosto de 2018

Robert Frost - O Conserto do Muro

A voz lírica, um dos vizinhos que tentam recompor um muro que separa duas propriedades rurais, entende que a divisória é uma inutilidade, não fosse ela mantida apenas por força da tradição, pois, em termos práticos, não há semoventes que possam passar, indevidamente, de um terreno a outro, senão apenas macieiras do lado daqui e pinheiros do lado de lá.

Contudo, o seu vizinho mantém-se firme na necessidade de o muro conservar-se íntegro, pois de há muito repercute em sua mente a máxima – “Boas cercas fazem bons vizinhos” –, assim como prevalece os instintos no comportamento dos animais.

Parece-me que nem tanto a terra nem tanto ao mar. Por que não ficar em cima do muro?! (rs). Afinal, as pessoas são diferentes em muitos aspectos: para um vizinho a quem o sentido de posse prevalece obstinadamente, é mais prudente que haja um muro; para um vizinho boa-praça, é um custo a menos!

J.A.R. – H.C.

Robert Frost
(1874-1963)

Mending Wall

Something there is that doesn’t love a wall,
That sends the frozen-ground-swell under it,
And spills the upper boulders in the sun;
And makes gaps even two can pass abreast.
The work of hunters is another thing:
I have come after them and made repair
Where they have left not one stone on a stone,
But they would have the rabbit out of hiding,
To please the yelping dogs. The gaps I mean,
No one has seen them made or heard them made,
But at spring mending-time we find them there.
I let my neighbour know beyond the hill;
And on a day we meet to walk the line
And set the wall between us once again.
We keep the wall between us as we go.
To each the boulders that have fallen to each.
And some are loaves and some so nearly balls
We have to use a spell to make them balance:
“Stay where you are until our backs are turned!”
We wear our fingers rough with handling them.
Oh, just another kind of out-door game,
One on a side. It comes to little more:
There where it is we do not need the wall:
He is all pine and I am apple orchard.
My apple trees will never get across
And eat the cones under his pines, I tell him.
He only says, “Good fences make good neighbours.”
Spring is the mischief in me, and I wonder
If I could put a notion in his head:
“Why do they make good neighbours? Isn’t it
Where there are cows? But here there are no cows.
Before I built a wall I’d ask to know
What I was walling in or walling out,
And to whom I was like to give offence.
Something there is that doesn’t love a wall,
That wants it down.” I could say “Elves” to him,
But it’s not elves exactly, and I’d rather
He said it for himself. I see him there
Bringing a stone grasped firmly by the top
In each hand, like an old-stone savage armed.
He moves in darkness as it seems to me,
Not of woods only and the shade of trees.
He will not go behind his father’s saying,
And he likes having thought of it so well
He says again, “Good fences make good neighbours.”

O Conserto do Muro
(Ken Fiery: pintor norte-americano)

O Conserto do Muro

Existe alguma coisa que detesta os muros,
Sob eles faz inchar a terra congelada,
Ao sol derrama as pedras superiores,
E rasga brechas em que dois passam de frente.
A obra dos caçadores é outra coisa:
Tenho seguido as suas pegadas, trabalhando
Onde não deixam pedra sobre pedra
Até espantarem o coelho de sua toca
Para o agrado dos cães sempre a latir. Tais brechas
A que me referi, ninguém viu serem feitas,
Nem ouviu serem feitas, mas na primavera
Eu as encontro lá, no tempo dos consertos.
Aviso meu vizinho lá detrás do monte,
E marcamos um dia para vistoriar
E levantar de novo o muro entre nós dois.
E vamos juntos, com o muro entre nós dois.
Cada um repõe o que rolou para seu lado.
Umas pedras são pães e outras parecem bolas,
E só por mágica as mantemos no lugar:
“Até que nos viremos, fiquem onde estão!”
Os dedos criam calos ao lidar com elas.
Com um de cada lado, isto não passa
De outro jogo ao ar livre. E nada mais talvez:
Desnecessário é o muro onde se encontra:
Além há um pinheiral e aqui há macieiras.
As macieiras, digo-lhe, não vão passar
E comer seus pinhões. Mas ele secamente
Responde: “Boas cercas fazem bons vizinhos”.
A primavera é a minha malvadeza, e penso
Ser capaz de enfiar-lhe ideias na cabeça:
“Mas por que fazem bons vizinhos? Não seria
Apenas onde há gado? E aqui não temos gado.
Antes de erguer um muro, sempre me pergunto
O que busco reter e o que busco deter
E a quem ofenderia, se não o fizesse.
Existe alguma coisa que detesta os muros,
E os quer ver arrasados!” Dir-lhe-ia que os “elfos”;
Mas não são elfos propriamente, e eu gostaria
Que ele mesmo o dissesse. E observo como traz
Firmemente uma pedra em cada mão, pelo alto,
Igual a um homem das cavernas bem armado.
Caminha pelas trevas, me parece,
Que não são as dos bosques ou das sombras de árvores,
E, sem nunca ir além do dito de seu pai,
Satisfeito de nele haver pensado tanto,
Repete: “Boas cercas fazem bons vizinhos”.

Referência:

FROST, Robert. Mending wall / O conserto do muro. Tradução de Paulo Vizioli. In: VIZIOLI, Paulo (Seleção e Tradução). Poetas norte-americanos. Edição comemorativa do bicentenário da independência dos Estados Unidos da América: 1776-1976. Antologia bilíngue. São Paulo, SP: Editora Lidador, 1974. Em inglês e em português: p. 57.

2 comentários:

  1. “Minha percepção é que o autor está refletindo sobre um conflito interno entre três dimensões de si mesmo:
    O falso eu, que constrói muros como forma de defesa.
    O Eu Verdadeiro, que sabe estabelecer limites saudáveis quando necessário.
    O Eu Superior, que ajuda a desapegar desses limites quando eles já não servem mais.
    As frases “Algo há que não ama um muro” e “trabalho dos caçadores” representam forças criativas do inconsciente, que constantemente derrubam as pedras dos muros — ou seja, questionam e desfazem fronteiras rígidas.
    O poema também reconhece que, em certas situações, “Boas cercas fazem bons vizinhos”: limites claros podem proteger e organizar as relações. Mas há momentos em que esses limites não são necessários, como na imagem “Ele é todo pinheiro e eu sou pomar de maçãs”, onde cada um já é naturalmente diferente e não precisa de separação.
    A frase mais importante talvez seja: “Antes de construir um muro eu perguntaria/ O que estou murando dentro ou murando fora.” Isso mostra a necessidade de consciência: entender o que se está protegendo ou excluindo antes de erguer barreiras.
    No final, “Ele se move na escuridão” simboliza o contrário — o inconsciente do falso eu, que constrói muros sem clareza ou reflexão.
    O poema repete apenas duas linhas: “Boas cercas fazem bons vizinhos” e “Algo há que não ama um muro.” Essa repetição reforça os dois lados da questão:
    Estabelecer limites saudáveis quando necessário.
    Abrir mão deles quando não fazem sentido.“

    C.W.

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    1. Prezado C. W.:
      Embora, à primeira vista, o poema pareça dizer respeito a um conflito interpessoal e filosófico entre dois homens com visões opostas, abrindo espaço para reflexões sobre os relacionamentos sociais e a tendência ao isolamento, apreendê-lo sob o ponto de vista intrapsíquico, fluindo dentro de uma mesma mente, não deixa de ser uma perspectiva plausível, a partir de uma leitura obviamente alegórica, segundo a qual o falante tende a confrontar a parte de si mesmo que é conservadora, levantando barreiras por inércia.
      Muito grato pelo comentário.
      Um abraço,
      João A. Rodrigues

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