Alpes Literários

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UM PASSEIO PELOS ALPES LITERÁRIOS

sexta-feira, 11 de maio de 2018

Paul Celan - Prisão da Palavra

Não sei se estaria sendo um pouco – como diria? – inexato se dissesse que os poemas de Celan são apenas vagamente passíveis de interpretação pelo leitor, devido aos explícitos atributos herméticos, para os quais talvez apenas o próprio autor estivesse capacitado para desenvolver escólios à altura.

Contudo o meu nome é desacato (rs), e para um poema que compõe uma obra dedicada aos sem-voz e ao mutismo associado às perdas do passado e à memória dos mortos, faço ecoar algumas palavras que nada mais são do que uma afronta ao silêncio que finaliza o próprio poema.

Num discurso dialógico, cada falante acha-se de um lado das barras e não exatamente no mesmo nível comunicacional: há algo de humano inconversível em palavras, a evidenciar a impotência do idioma. Se existe uma convergência no olhar, pouco a pouco ela se desfaz ao pender-se a mirada rumo às “poças cinza-coração”, isso porque há maior nitidez no peso do silêncio produzido pelas lágrimas do que no peso da fala.

O poeta, obviamente, dedica-se a explorar o espaço não-verbal, os interstícios que impedem a plena expressão do espírito, atrás das grades naturalizadas, autoimpostas ou suscitas pelas convenções, mas de todo modo, de difícil transposição. Porém, se são grades de fato, permitem abertura, facultando o redimensionamento do peso das palavras, sem o que acabaremos por ruir em irremediável solipsismo.

J.A.R. – H.C.

Paul Celan
(1920-1970)

Sprachgitter

Augenrund zwischen den Stäben.

Flimmertier Lid
rudert nach oben,
gibt einen Blick frei.

Iris, Schwimmerin, traumlos und trüb:
der Himmel, herzgrau, muß nah sein.

Schräg, in der eisernen Tülle,
der blakende Span.
Am Lichtsinn
errätst du die Seele.

(Wär ich wie du. Wärst du wie ich.
Standen wir nicht
unter einem Passat?
Wir sind Fremde.)

Die Fliesen. Darauf,
dicht beieinander, die beiden
herzgrauen Lachen:
zwei
Mundvoll Schweigen.

São Paulo na prisão
(Rembrandt: pintor holandês)

Prisão da Palavra

Olho redondo entre as barras.

Pálpebra de animal cintilante
rema para cima,
libera um olhar.

Íris, nadadora, sem sonhos e triste:
o céu, cinza-coração, deve estar próximo.

Inclinada, no bico de ferro,
a limalha fumegante.
No sentido da luz
adivinhas a alma.

(Se eu fosse como tu. Se fosses como eu.
Não estaríamos
sob um mesmo alísio?
Somos estranhos.)

Os ladrilhos. Por cima,
uma junto à outra, as duas
poças cinza-coração:
dois
bocados de silêncio.

Referência:

CELAN, Paul. Sprachgitter / Prisão da palavra. Tradução de Claudia Cavalcanti. In: __________. Cristal. Seleção e tradução de Claudia Cavalcanti. Edição bilíngue. São Paulo, SP: Iluminuras, 2011. Em alemão: p. 70; em português: 71.

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