Alpes Literários

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UM PASSEIO PELOS ALPES LITERÁRIOS

terça-feira, 8 de maio de 2018

Anna Akhmátova - E nos livros, era sempre a última página ‎

Neste poema, redigido durante a evacuação de Tashként, a poetisa surge como leitora a reproduzir uma atmosfera confidencial de uma conversa direta, cujo assunto são suas preferências, declinando-lhes as razões, as quais, no caso, não se vinculam exatamente ao conteúdo ou ao resultado do enredo dos livros.

Isso porque, no momento presente, no qual se tem conhecimento da história, já há um considerável interregno em relação ao tempo em que se passaram as contingências a que os personagens estiveram submetidos, o que lhes atenua o excesso de emoções e os conflitos dos quais decorreram, já nos parecendo que “a eternidade veio a se tornar cinza” – expressão certamente capturada ao clássico de Mark Twain, “As Aventuras de Tom Sawyer”.

A poetisa completa o diálogo com o leitor revelando-lhe o segredo principal dos escritores: sem a audiência, o autor se tornaria “irremediavelmente sozinho”, o que o leva ao recurso último da astúcia ou do sarcasmo, para então ser rememorado ou bem pela urbanidade original ou bem pelo espírito zombeteiro.

Ao final, fatos que me são desconhecidos, permeados por algum efeito cômico, revelam muitas incertezas para o leitor desavisado, em relação ao “final espetacular” tomado como exemplo por Anna: permanecem incógnitos o lugar da Ásia Central onde eles se passaram, o nome do autor do perfil misterioso, o sexo da pessoa retratada e a natureza dos sons quase inaudíveis que aparecem, em especial, na véspera do ano-novo...

J.A.R. – H.C.

Anna Akhmátova
(1889-1966)

А в книгах я последнюю страницу

А в книгах я последнюю страницу
Всегда любила больше всех других,–
Когда уже совсем неинтересны
Герой и героиня, и прошло
Так много лет, что никого не жалко,
И, кажется, сам автор
Уже начало повести забыл,
И даже «вечность поседела»,
Как сказано в одной прекрасной книге,
Но вот сейчас, сейчас
Всё кончится, и автор снова будет
Бесповоротно одинок, а он
Еще старается быть остроумным
Или язвитпрости его Господь! –
Прилаживая пышную концовку,
Такую, например:
...И только в двух домах
В том городе (название неясно)
Остался профиль (кем-то обведенный
На белоснежной извести стены),
Не женский, не мужской, но полный тайны.
И, говорят, когда лучи луны
Зеленой, низкой, среднеазиатской
По этим стенам в полночь пробегают,
В особенности в новогодний вечер,
То слышится какой-то легкий звук,
Причем одни его считают плачем,
Другие разбирают в нем слова.
Но это чудо всем поднадоело,
Приезжих мало, местные привыкли,
И, говорят, в одном из тех домов
Уже ковром закрыт проклятый профиль.

25 ноября 1943
Ташкент

Natureza Morta com Livros, Carta e Tulipa
(Charles Emmanuel Biset: pintor belga)

E nos livros, era sempre a última página

E nos livros, era sempre a última página
a que eu preferia a todas as outras –
quando já não interessavam mais
nem o herói nem a heroína, e já se tinham passado
tantos anos, que ninguém mais sentia pena deles;
o próprio autor parece que já
se esquecera do resto de sua história,
e até mesmo “a Eternidade ficara grisalha”,
como já foi dito em um belo livro;
e é agora, é agora mesmo
que tudo está para se acabar, e o autor ficará de novo
irremediavelmente, embora ainda tente
ser astuto ou sarcástico – que Deus o perdoe! –
experimentando, para o seu livro, um final espetacular,
como este aqui, por exemplo:
...E em duas casas apenas
daquela cidade (o nome não está claro)
permaneceu o perfil (que alguém esboçou
na parede caiada de branco)
não de uma mulher, ou de um homem,
mas de algo mais cheio de mistério
e, dizem, quando os raios da lua –
essa lua baixa e esverdeada da Ásia Central –
escorre sobre os muros à meia-noite,
principalmente na véspera do ano-novo,
escuta-se um som quase inaudível
e, embora haja quem nele veja apenas um soluço,
outros afirmam discernir nele palavras;
mas este é um fenômeno que a todos deixa entediados
por igual;
os forasteiros são poucos; os habitantes da cidade já se
acostumaram
e afirmam que, em uma dessas casas,
uma tapeçaria já encobre o perfil amaldiçoado.

25/11/1943
Tashként

Referências:

Em Russo

AKHMÁTOVA, Anna. А в книгах я последнюю страницу. Disponível neste endereço. Acesso em: 31 mar. 2018.

Em Português

AKHMÁTOVA, Anna. E nos livros, era sempre a última página. Tradução de Lauro Machado Coelho. In: __________. Anna Akhmátova: seleção, tradução, apresentação e notas de Lauro Machado Coelho. Porto Alegre, RS: L&PM, 2014. p. 104-105. (L&PM Pocket; v. 751)

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