Alpes Literários

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UM PASSEIO PELOS ALPES LITERÁRIOS

quarta-feira, 28 de março de 2018

Pablo Neruda - Castro Alves do Brasil ‎

Decerto Castro Alves não foi um “libertador” com a estatura de um Bolívar, San Martín ou José Martí, mas os seus poemas dedicam-se também a uma grande causa, mais exatamente, à causa abolicionista: é sobre ela que Neruda discorre neste seu poema.

Trata-se de um diálogo hipotético entre os dois poetas que, de fato, não foram contemporâneos, muito embora tenham sofrido as agruras de ver os seus respectivos povos coagidos pelas forças da opressão, a clamar por liberdade, ainda que tardia!

J.A.R. – H.C.

Pablo Neruda
(1904-1973)

Castro Alves del Brasil

Castro Alves del Brasil, tú para quién cantaste?
¿Para la flor cantaste? Para el agua
cuya hermosura dice palabras a las piedras?
¿Cantaste para los ojos, para el perfil cortado
de la que amaste entonces? Para la primavera?

Sí, pero aquellos pétalos no tenían rocío,
aquellas aguas negras no tenían palabras,
aquellos ojos eran los que vieron la muerte,
ardían los martirios aun detrás del amor,
la primavera estaba salpicada de sangre.

– Canté para los esclavos, ellos sobre los barcos
como el racimo oscuro del árbol de la ira
viajaron, y en el puerto se desangró el navío
dejándonos el peso de una sangre robada.

– Canté en aquellos días contra el infierno,
contra las afiladas lenguas de la codicia,
contra el oro empapado en el tormento,
contra la mano que empuñaba el látigo,
contra los directores de tinieblas.

– Cada rosa tenía un muerto en sus raíces.
La luz, la noche, el cielo se cubrían de llanto,
los ojos se apartaban de las manos heridas
y era mi voz la única que llenaba el silencio.

– Yo quise que del hombre nos salváramos,
yo creía que la ruta pasaba por el hombre,
y que de allí tenía que salir el destino.
Yo canté para aquellos que no tenían voz.
Mi voz golpeó las puertas hasta entonces cerradas
para que, combatiendo, la Libertad entrase.

Castro Alves del Brasil, hoy que tu libro puro
vuelve a nacer para la tierra libre,
déjame a mí, poeta de nuestra pobre América,
coronar tu cabeza con el laurel del pueblo.
Tu voz se unió a la eterna y alta voz de los hombres.
Cantaste bien. Cantaste como debe cantarse.

En: “Canto General – Los Libertadores”

Castro Alves
(1847-1871)

Castro Alves do Brasil

Castro Alves do Brasil, para quem cantaste?
Para a flor cantaste? Para a água
cuja beleza diz palavras às pedras?
Cantaste para os olhos, para o perfil cinzelado
da que então amaste? Para a primavera?

Sim, mas aquelas pétalas não tinham orvalho,
aquelas águas negras não tinham palavras,
aqueles olhos eram os que viram a morte,
ardiam ainda os martírios por trás do amor,
a primavera estava salpicada de sangue.

– Cantei para os escravos, eles sobre os navios
como o feixe escuro da árvore da ira
viajaram, e no porto descarregou-se o navio
deixando-nos o peso de um sangue roubado.

– Cantei naqueles dias contra o inferno,
contra as afiadas línguas da cobiça,
contra o ouro empapado no tormento,
contra a mão que empunhava o chicote,
contra os mandantes de trevas.

– Cada rosa tinha um morto em suas raízes.
A luz, a noite, o céu se cobriam de pranto,
os olhos se apartavam das mãos feridas
e era a minha voz a única que enchia o silêncio.

– Eu quis que do homem nos salvássemos,
confiava que a rota passava pelo homem,
e que dali tinha que sair o destino.
Cantei para aqueles que não tinham voz.
Minha voz bateu em portas até então fechadas
para que, combatendo, a Liberdade entrasse.

Castro Alves do Brasil, hoje que teu livro puro
volta a nascer para a terra livre,
deixa-me a mim, poeta da nossa pobre América,
coroar tua cabeça com o louro do povo.
Tua voz se uniu à eterna e alta voz dos homens.
Cantaste bem. Cantaste como se deve cantar.

Em: “Canto Geral – Os Libertadores”

Referência:

NERUDA, Pablo. Castro Alves del Brasil. In: __________. Antología poética. Edición de Rafael Alberti. 1. ed. La Plata, AR: Planeta, nov. 1996. p. 151-152. (Ediciones ‘Planeta Bolsillo’).

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