A despeito do caráter lúdico do poema de Enzensberger, pode-se perceber
que o poeta parece reconhecer que a história muito se assemelha a um relato ficcional,
porque ela narra fatos ocorridos no passado, não atuais.
Explico-me melhor: uma história é sempre recontada por alguém, que apreende
a seu modo os materiais narrativos da realidade e, de modo incidental,
deliberado ou involuntário, omite, reinterpreta, faz recortes, remonta
episódios que, em sua origem, pouco ou nada têm de conexos.
Assim, verdades ou mentiras derivam do grau de aderência das palavras ao
objeto não linguístico da experiência. Quanto mais distanciadas estiverem as
palavras daquilo que pretendem descrever no mundo empírico, tanto mais autônoma
se torna a linguagem em relação a esse mundo. Esse é o pélago em que os poetas costumam
navegar, o mar do fingimento, como diria Pessoa...
J.A.R. – H.C.
Hans Magnus Enzensberger
(n. 1929)
Weitere Gründe dafür,
daß die Dichter lügen
Weil der Augenblick,
in dem das Wort glücklich
ausgesprochen wird,
niemals der glückliche Augenblick ist.
Weil der Verdurstende seinen Durst
nicht über die Lippen bringt.
Weil im Munde der Arbeiterklasse
das Wort Arbeiterklasse nicht vorkommt.
Weil, wer verzweifelt,
nicht Lust hat, zu sagen:
“Ich bin ein Verzweifelnder.”
Weil Orgasmus und Orgasmus
nicht miteinander vereinbar sind.
Weil der Sterbende, statt zu behaupten:
“Ich sterbe jetzt” nur ein mattes Geräusch
vernehmen läßt,
das wir nicht verstehen.
Weil es die Lebenden sind,
die den Toten in den Ohren liegen
mit ihren Schreckensnachrichten.
Weil die Wärter zu spät kommen,
oder zu früh.
Weil es also ein anderer ist,
immer ein anderer,
der da redet,
und weil der,
von dem da die Rede
ist,
schweigt.
O tema dos poetas
(John Callcott Horsley: pintor inglês)
Por que os poetas mentem:
motivos adicionais
Porque o momento
em que a palavra
feliz
é dita
nunca é o momento da
felicidade.
Porque o sedento não
traz
aos lábios sua sede.
Porque pela boca da
classe operária
não passa a expressão
classe operária.
Porque quem se
desespera
não tem vontade de
dizer:
“Estou desesperado.”
Porque orgasmo e
orgasmo
estão a mundos de
distância.
Porque o moribundo,
em vez de declarar
“estou morrendo”,
estertora apenas um
gemido baixo
e, para nós,
incompreensível.
Porque são os vivos
que enchem o ouvido
dos mortos
com suas notícias
atrozes.
Porque as palavras
sempre chegam
tarde demais ou cedo
demais.
Porque é um outro,
sempre um outro,
quem fala
e porque
aquele de quem se
fala
silencia.
Referência:
ENZENSBERGER, Hans Magnus. Weitere gründe dafür, daß die gichter
lügen / Por que os poetas mentem: motivos adicionais. Tradução de Nelson
Ascher. In: ASCHER, Nelson (Tradução e Organização). Poesia alheia: 124 poemas traduzidos. Rio de Janeiro, RJ: Imago, 1998. Em alemão:
p. 314; em português: p. 315. (Coleção “Lazuli”)
❁
Nenhum comentário:
Postar um comentário