Alpes Literários

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UM PASSEIO PELOS ALPES LITERÁRIOS

domingo, 29 de maio de 2016

William Blake - A Abstração Humana

Neste poema, de “Songs of Experience” (“Canções da Experiência”), Blake argumenta que a razão humana e o pensamento abstrato podem acarretar prejuízos, porque as virtudes que exaltam pressupõem a existência de infortúnios: a comiseração pressupõe a pobreza, enquanto a piedade pressupõe o sofrimento. Segue ele então com um rol de falsas virtudes conexas ao pecado ou ao vício: a paz decorre do medo mútuo, o amor torna-se autocentrado, e a solicitude é o chamariz empregado pela crueldade.

Implícita no poema está uma crítica ao modo pelo qual as pessoas têm desenvolvido uma autêntica camisa de força mental, ou seja, sistemas de pensamento que levaram à construção de estruturas sociais opressivas.

J.A.R. – H.C.

William Blake
(1757-1827)
Pintura de Thomas Phillips

The Human Abstract

Pity would be no more
If we did not make somebody Poor;
And Mercy no more could be
If all were as happy as we.

And mutual fear brings peace,
Till the selfish loves increase:
Then Cruelty knits a snare,
And spreads his baits with care.

He sits down with holy fears,
And waters the ground with tears;
Then Humility takes its root
Underneath his foot.

Soon spreads the dismal shade
Of Mystery over his head;
And the Caterpillar and Fly
Feed on the Mystery.

And it bears the fruit of Deceit,
Ruddy and sweet to eat;
And the Raven his nest has made
In its thickest shade.

The Gods of the earth and sea
Sought thro’ Nature to find this Tree;
But their search was all in vain:
There grows one in the Human Brain.

Cidade dos Anjos
(Ruth Clotworthy: pintora neozelandesa)

A Abstração Humana

Não haveria Dó, com certeza,
Se não criássemos Pobreza,
Tampouco haveria Piedade,
Fosse comum a Felicidade.

O medo mútuo a paz conquista,
Até que cresça o amor egoísta:
A Crueldade tece ardis;
Zelosa, espalha um chamariz.

Ele se senta em medos santos
E rega o chão com seus prantos.
A Humildade então se enraíza
No mesmo solo em que ele pisa.

O Mistério se espalha em penumbra
Até que, a cabeça, lhe cubra:
E a mosca, bem como a Lagarta,
Do doce Mistério se farta.

E ela dá o fruto da Trapaça,
Rubro e doce em sua ameaça.
Seu ninho, o Corvo construiu
Sob seu ramo mais sombrio.

Os Deuses da terra e do mar
Tentaram a Árvore encontrar
Na Natureza, inutilmente,
Pois ela cresce em nossa Mente.

Referência:

BLAKE, William. The human abstract / A abstração humana. In: __________. Canções da inocência e canções da experiência. Tradução, textos introdutórios e comentários de Gilberto Sorbini e Weimar de Carvalho. Edição bilíngue comentada. São Paulo, SP: Disal, 2005. Em inglês: p. 123; em português: p. 122.

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