Alpes Literários

Alpes Literários

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UM PASSEIO PELOS ALPES LITERÁRIOS

quinta-feira, 25 de dezembro de 2014

Mario Quintana – Bilhete

Era para ser apenas mais uma mensagem de Natal a ser encaminhada para uma pessoa intimamente conhecida pelo escritor. Mas ganhou a forma de um poema, como os muitos que Quintana escreveu, para o prazer de seus cativos leitores. E um bonito poema de Natal, hábil em tornar assente uma indelével visão – como intenciona –, bem mais que uma ideia ou mensagem: a cena da Natividade e tudo aquilo que ela representa para os cristãos.

Hoje, dia de Natal em 2014, envio um grande abraço a todas as pessoas de bem, do mundo inteiro. Que o Eterno abrace a causa de tudo quanto, na dinâmica humana, expresse a ação virtuosa, o belo e o verdadeiro! In saeculum saeculorum!

J.A.R. – H.C.

Mario Quintana
(Desenho de Xico Stockinger)

Bilhete

Ora, como dizia o festejado
arqui-sofista Valerius:
“O Universo é uma nódoa
na perfeição do Não-Ser”...
Relembro isto ao tentar mandar-te
– ante a pureza intocada
desta página –
uma mensagem
de Natal. “Mas”
– diz-me a página, “essa mensagem
foi mandada há muito (pergunta
aos três Reis Magos
se não foi...)”
Ah! sim, eles tinham a Estrela!
Mas onde é que ela está?
A gente por aqui só encontrou depois
estrelas pirotécnicas
estrelas-do-mar
estrelas de generais.
Melhor não falar e
– em vez de escrever
qualquer palavra que macularia
uma pobre página, ainda nuinha
como a verdade –
será bom apenas desenhar
coisas
sem nenhum conceito
para atrapalhar...
Hoje,
dia de Natal,
eu desenharia pois
toscamente –
nesta página
a Virgem, o Menino, o burrico...
– imagina
o bem que isso nos faria aos dois...
Porque então,
eu não estaria
te mandando uma ideia
apenas...
Eu te mandaria uma Visão!

Natividade
(Jean-Baptiste Marie Pierre: 1714-1789)

Referência:

QUINTANA, Mario. Bilhete. In: __________. Poesia completa: em um volume. Organização, preparação do texto, prefácio e notas de Tania Franco Carvalhal. Rio de Janeiro: Nova Aguilar, 2006. p. 642-643. (Biblioteca Luso-Brasileira; Série Brasileira)

quarta-feira, 24 de dezembro de 2014

Luc Decaunes – Quatro Poemas da Véspera de Natal

Neste dia solene, véspera de Natal, nosso presente aos internautas vem sob a forma não de um poema, mas de quatro, de autoria do poeta francês Luc Decaunes, do modo como traduzidos ao português por Jamil Haddad.

Haddad deve tê-los extraído, conforme pude apurar na grande rede, da obra “L’air natal: suivi d'autres poèmes de captivité”, de 1944, observe-se, ano precedente ao término da 2GM.

Os poemas expressam identificações do próprio poeta com presumíveis visões de um recém-nascido, num manifesto recurso ao intimismo, às instâncias líricas, de forma a configurar uma epifania com alguma ressonância religiosa, explico-me melhor, capaz de dialogar com o tema da natividade, sob a metáfora do nascimento de um homem novo.

Natal é exatamente isso: renascer periodicamente para uma vida de novas e gratificantes experiências!

J.A.R. – H.C.

Poeta francês, contemporâneo. Prende-se à linha surrealista, com influências de André Breton e Paul Eluard. Dele diz Jean Rousselot: “Há nele um trovador místico, um delirante adorador da Beleza carnal, a um tempo divina e venenosa, e escreveu poemas de amor que permanecerão entre os mais belos de nossa literatura” (HADDAD, 1960, p. 105).

Luc Decaunes
(1913-2001)

Quatro Poemas da Véspera de Natal

Eis a hora
O poeta acorda, estende os braços sobre os bosques silenciosos dos rostos
Sobre o sono esquartejado
Oh noite

Noite maravilhosa e benéfica noite
Tuas pálpebras de diamante, tua fronte de amianto
A seda friorenta de tua face
O anel fechado de teus lábios
São as joias de que o poeta se orna
Para reconhecer-te a palavra

Na curva misteriosa dos ventos e das colinas
Afina-se o meu canto secreto
Como um harpista que roubasse
A forma de sua harpa ao romance que o espera
Eu sou o construidor de palavras
O sono não é meu bem
Mas a neve do tempo
Os astros solitários
Mas este peito de cortiça
Que se ergue em torno de meu torso trêmulo
Quando eu vigilo com tudo o que dorme

As formas

As papoulas da noite encantam o espaço.
Nem um rumor, a casa derrama-se
Mergulha na turfa de um tempo irreal

Uma rosa floresce neste minuto de sonho
Uma rosa dilacera o peito de gaze
Em que o amor dorme

Para ti a sabedoria, para mim a vigília lenta
E os pinhais de minha paixão
Eu darei o meu sangue e tudo o que me resta
Às trevas que brincam com a verdade
Às fecundas entranhas da surpresa
A este instante de vida negro como o carvão

Preside à minha escolha
Voz longínqua das paisagens
E tu, grande preguiça de olhos perfeitos
Seja o sacrifício que oferto ao silêncio
Penhor de minha esperança
Preço do que ela me ensina
Preside à minha escolha, como ao próprio amor,
Dá-me a força de esquecer que eu sou
O que é
E no palmo sagrado de teu grande rosto
Encerra uma verdade precisa e forte
Que possa dar-me a vida
Sem me matar

         Contracanto

Dormi entre os nós dos caniços
Ignorava o que fazia
A noite despertou-me como sonhando
Tive vergonha de mim, gritei
Trazia as mãos sobre este corpo imenso
Pus minha boca ao seio perfeito
Fiz-me pequeno como a forma nova

Que cresça em mim esta semente
Arrancada ao caminho rutilante do mundo
Que atiraste com negligencia
Sobre o dorso ligeiro da primeira nuvem
Sei coisas demais para saber
O valor da mensagem que entoas

Noite cúmplice, noite perfectível
Em que o Tempo se cumpre no espaço que mata
Em que tudo o que seduz
Se forma na sua perda

Resolução

Fala-se de mistério
E não se o vê
Fala-se de palavras
Que não escondem nada

A mão é nua
E só

No entanto um grande mito cumpriu-se
Dorme a vida sobre a sua outra face
Outro homem acorda no fundo de minhas entranhas.

Christmas Eve
(George Inness: 1825-1894)

Referência:

DECAUNES, Luc. Quatro poemas da véspera de Natal. In: HADDAD, Jamil Almansur (seleção, tradução e notas). Noite santa: antologia de poemas de Natal. São Paulo: Autores Reunidos, 1960. p. 107-109.

terça-feira, 23 de dezembro de 2014

Eugenio Montale – Um Natal Metropolitano

Tal como no caso do português Almeida Garrett, o poeta italiano Eugenio Montale teve uma experiência de Natal passado em Londres, capital da Inglaterra, que, ao final, resultou na escrita do poema a seguir.

Há muito de intimidade desnudada nas descrições de Montale, de certa musa que, com seus cabelos cacheados, surge em frente ao espelho, num cenário quase de “natureza-morta”, a retratar ou bem escolhas suas, ou bem o que restou dos estilhaços dos dias e das lembranças.

J.A.R. – H.C. 
Eugenio Montale
(1896-1981)

Di un natale metropolitano

Londra

Un vischio, fin dall’infanzia sospeso grappolo
di fede e di pruina suI tuo Iavandino
e sullo specchio ovale ch’ora adombrano
i tuoi ricci bergère fra santini e ritratti
di ragazzi infilati un po’ alIa svelta
nella cornice, una caraffa vuota,
bicchierini di cenere e di bucce,
Ie Iuci di Mayfair, poi a un crocicchio
Ie anime, Ie bottiglie che non seppero aprirsi,
non più guerra né pace, il tardo frullo
di un piccione incapace di seguirti
sui gradini automatici che ti slittano in giù...

Big Ben no Inverno
(John Haskins: pintor inglês)

Um Natal Metropolitano

Londres

Um visco, desde a infância pendurado buquê
de fidelidade e de pruína sobre o teu lavabo
e sobre o espelho oval agora sombreado
por teus cachos bergère entre santinhos e retratos
de meninos enfileirados apressadamente
na moldura, uma jarra vazia,
cálices de cinzas e de cascas,
as luzes de Mayfair, logo após um cruzamento
as almas, as garrafas que não conseguiram abrir,
não mais guerra nem paz, o lento bater de asas
de uma pomba incapaz de seguir-te
sobre a escada automática que te desloca para baixo...

Referência:

MONTALE, Eugenio. Di un natale metropolitano. (La bufera e altro / parte IV, ‘flashes’ e dediche). In: __________. Collected Poems: 1920-1954. Bilingual edition: italian x english. Translated and Annotated by Jonathan Galassi. New York (NY): Farrar, Straus and Giroux, 1998. p. 328.

segunda-feira, 22 de dezembro de 2014

Jorge de Sena – Natal de 1971

Da lavra do eclético artista da palavra lusitano, Jorge de Sena, trazemos um poema embebido no mais genuíno ceticismo, a relembrar um presumível Natal no qual o poeta não viu qualquer motivo para comemorar, talvez por razões de ordem política, possivelmente em Portugal e, mais extensivamente, ao redor do mundo.

J.A.R. – H.C.

Jorge de Sena
(1919-1978)

Natal de 1971

Natal de quê? De quem?
Daqueles que o não têm?
Dos que não são cristãos?
Ou de quem traz às costas
as cinzas de milhões?
Natal de paz agora
nesta terra de sangue?
Natal de liberdade
num mundo de oprimidos?
Natal de uma justiça
roubada sempre a todos?
Natal de ser-se igual
em ser-se concebido,
em de um ventre nascer-se,
em por de amor sofrer-se,
em de morte morrer-se,
e de ser-se esquecido?
Natal de caridade,
quando a fome ainda mata?
Natal de qual esperança
num mundo todo bombas?
Natal de honesta fé,
com gente que é traição,
vil ódio, mesquinhez,
e até Natal de amor?
Natal de quê? De quem?
Daqueles que o não têm,
ou dos que olhando ao longe
sonham de humana vida
um mundo que não há?
Ou dos que se torturam
e torturados são
na crença de que os homens
devem estender-se a mão?

(Novembro 71)


Referência:

SENA, Jorge de. Natal de 1971. In: __________. Versos e alguma prosa de Jorge de Sena. Prefácio e selecção de textos de Eugénio Lisboa. Lisboa (PT): Arcádia e Moraes, 1979. p. 109.

domingo, 21 de dezembro de 2014

Manuel Bandeira – Natal sem Sinos

Manuel Bandeira, tanto quantos outros adultos que têm boas lembranças da infância, como eu ou você, rememora os seus antigos natais, nos quais se escutavam os sinos dos campanários das igrejas de uma forma não exatamente como o fazem os nossos ouvidos de hoje, já maduros mas entediados, senão com o espírito do inusitado, da novidade, ou melhor, com o sentido da descoberta a que tanto as crianças se expõem.

Afinal, a lírica do poeta evidencia que não há silêncio no noturno pátio em que se encontra, mas o bimbalhar de sinos. Contudo, não os sinos de sua infância, porém outros sinos. Daí porque a eles se refere como “os sinos [de hoje] do meu Natal sem sinos [de ontem]”.

Além disso, aparentemente, Bandeira associa o ressoar dos sinos com o eco memorial do alvoroço das crianças: a passagem “Ah meninos sinos / De quando eu menino!” teria, sob tal enfoque, símile em “Ah meninos estrepitosos / Da minha época de criança”. E é aos meninos de hoje que o poeta se dirige, para que, com esse espírito estrepitoso, sejam capazes de evocar os sinos fixados em sua memória: “Bimbalhai meninos / Pelos sinos (sinos que não ouço)”.

J.A.R. – H.C.

Manuel Bandeira
(1886-1968)

Natal sem Sinos

No pátio a noite é sem silêncio.
E que é a noite sem o silêncio?
A noite é sem silêncio e no entanto onde os sinos
Do meu Natal sem sinos?

Ah meninos sinos
De quando eu menino!

Sinos da Boa Vista e de Santo Antônio.
Sinos do Poço, do Monteiro e da Igrejinha de Boa Viagem.

Outros sinos
Sinos
Quantos sinos

No noturno pátio
Sem silêncio, ó sinos
De quando eu menino,
Bimbalhai meninos,
Pelos sinos (sinos
Que não ouço), os sinos de
Santa Luzia.

(Rio de Janeiro, 1952)

Bells of San Xavier
(Lillian W. Smith: 1920)

Referência:

BANDEIRA, Manuel. Natal sem sinos. In: __________. Antologia poética. 6. ed. Rio de Janeiro: Sabiá, 1961. p. 164-165.

sábado, 20 de dezembro de 2014

Bastos Tigre - Natal Antigo

O poema em epígrafe trata mesmo de um Natal à moda antiga, com um leitão assado inteiro, sobre a mesa da ceia, cuja primazia de fatiá-lo aos familiares era atribuída, geralmente, ao patriarca (ou à matriarca).

Só que os tempos mudaram e, hoje, não há mais um leitãozinho à pururuca sobre a mesa, mas os disseminados perus de Natal.

Tal cena aparece belamente exposta, por exemplo, no filme “The Dead” (“Os Mortos”), de 1987, cujo roteiro o seu afamado diretor, John Houston, adaptou-o do não menos conhecido e homônimo conto, pertencente à obra “Dublinenses”, do irlandês James Joyce.

J.A.R. – H.C.

Bastos Tigre
(1882-1957)

Natal Antigo

Da vasta mesa patriarcal, em torno,
A família reúne-se. Fumega
O rotundo leitão assado ao forno,
Entre vinhos velhíssimos da adega.

Loiras batatas traçam-lhe o contorno,
Finas rodelas de limão carrega;
E, assim, com todo o culinário adorno,
Aguarda, inerte, a sorte iníqua e cega.

É noite de Natal! Festa! Alegria!
Em cada boca há um riso iluminado
Pelo amor que das almas irradia.

Mas ninguém nota o riso resignado
De amarga, pungentíssima ironia,
Dos meigos olhos do leitão assado…

Roast Pig
(Thomas G. Webster: 1862)

Referência:

TIGRE, Bastos. Natal antigo. In: __________. Poemas. Organização de Christina Bastos Tigre. [Rio de Janeiro]: Produção Independente, 2005. p. 112.

sexta-feira, 19 de dezembro de 2014

Luís Filipe de Castro Mendes - Natal... na província neva

Com título a parodiar famoso poema de Fernando Pessoa, seu conterrâneo, Luís Castro inova contudo na forma, ao inverter a ordem do soneto convencional – duas quadras e dois tercetos – para dois tercetos e duas quadras.

É como se quisesse provar que a forma não pode se sobrepor à essência: de fato, é o conteúdo do poema que há de se traduzir em poesia, para o deleite dos adoradores das letras.

E a matéria do poema de Mendes deixa transparecer um homem com carências ainda pendentes desde a infância, a fixar os olhos num cenário quase sem contrastes. Explicitemo-lo: neve branca, neve alva, nívea neve. Se adotarmos uma hipótese, com efeitos devastadores sobre a fidelidade da memória.

J.A.R. – H.C.

Luís Filipe de Castro Mendes
(n. 1950)

Natal... na província neva

Recordação de neve na cidade:
às vezes os meus dedos procuravam
um conforto de infância ameaçada.

Nos bolsos esgarçados o cotão,
os restos da ternura nunca dada:
sempre se me fez longe o coração.

E o consolo perfeito, sem idade,
das coisas que há por dentro da lembrança;
recordação de neve na cidade:
foi antes do terror, da esperança.

Seja sempre quem sou esta distância
que muda em mim as coisas conseguidas
em dedos que procuram da infância
cotão, ternura, restos de outras vidas.

(Extraído de ‘Outras canções’) 


Referência:

MENDES, Luís Filipe de Castro. Natal... na província neva. In: COSTA E SILVA, Alberto; BUENO, Alexei (Seleção e Introdução). Antologia da poesia portuguesa contemporânea: um panorama. Rio de Janeiro: Lacerda, 1999. p. 412-413.

quinta-feira, 18 de dezembro de 2014

Gabriela Mistral - Jesus

A poetisa chilena Lucila M. P. S. Godoy Alcayaga, mais conhecida pelo pseudônimo Gabriela Mistral, muito se expôs aos influxos religiosos, especialmente cristãos, e mais extensivamente à teosofia, como forma de açambarcar a experiência humana, quer pelo prisma da unidade entre todas as criaturas, com o intuito de expressar o Eterno Universal, quer pelo enfoque das reconhecidas virtudes teologais – a fé, a esperança e o amor.

Tal perspectiva se reflete em muitos de seus poemas, como “Jesus”, objeto desta postagem. Neles também se percebe o carinho especial pelas crianças. A coletividade de espíritos a configurar uma unidade divina que prescinde de palavras, já que irmanada pelo coração, da qual um divino infante permite-se participar, para brincar de ciranda com outras “crianças”, neste caso, de fato ou de direito.

J.A.R. – H.C. 
Gabriela Mistral
(1889-1957)

Chilena, é geralmente considerada a maior poetisa de língua espanhola. Prêmio Nobel em 1945. Define-a Pierre Darmangeat que a traduziu para o francês: “De modo algum atormentada pela sensualidade, sua lira harmoniosa – onde vibra também uma corda de inquietude e de amargura muito pessoais – encontra, num sentimento maternal alargado em direção da contemplação cósmica, o cumprimento da finalidade do amor” (HADDAD, 1960, p. 281).

Jesus

Haciendo la ronda
se nos fue la tarde.
El sol ha caído:
la montaña no arde.

Pero la ronda seguirá,
aunque en el cielo el sol no está.

Danzando, danzando,
la viviente fronda
no lo oyó venir
y entrar en la ronda.

Ha abierto el corro, sin rumor,
y al centro está hecho resplandor.

Callando va el canto,
callando de asombro.
Se oprimen las manos,
se oprimen temblando.

Y giramos a Su redor,
y sin romper el resplandor…

Ya es silencio el coro,
ya ninguno canta:
se oye el corazón
en vez de garganta.

¡Y mirando Su rostro arder,
nos va a hallar el amanecer!

Ronda Infantil
(Cândido Portinari: 1932)

Jesus

E fazendo a ronda
se nos foi a tarde.
O sol já morreu;
a montanha não arde.

Porém a ronda continuará.
Que importa se no céu o sol não está?

Dançando, dançando,
ninguém viu o segredo
de Jesus que chegava
para entrar no brinquedo.

Entrou na roda, sem rumor
E o centro está feito resplendor.

O canto calou-se,
calou-se de assombro.
Oprimem-se, as mãos,
Oprimem-se, tremendo.

E giramos em seu redor,
E sem romper o resplendor.

Já se calou o coro,
Agora ninguém canta.
Ouve-se o coração
em vez da garganta.

E vendo o seu rosto arder
nos vai encontrar o amanhecer.

Referências:

MISTRAL, Gabriela. Jesus. In: HADDAD, Jamil Almansur (seleção, tradução e notas). Noite santa: antologia de poemas de Natal. São Paulo: Autores Reunidos, 1960. p. 283.

MISTRAL, Gabriela. Jesus. In: __________. Gabriela Mistral para niños. Edición de Aurora Díaz Plaja. Ilustraciones de Arantxa Martínez. 1. ed. Madrid (ES): Ediciones de La Torre, 1994. p. 46-47. (Colección Alba y Mayo. Serie Poesía; n. 35)