Alpes Literários

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UM PASSEIO PELOS ALPES LITERÁRIOS

quarta-feira, 22 de julho de 2026

David Ignatow - Resgatai os Mortos

Centrado na dicotomia entre a vida prática – não amar – e a entrega radical – amar –, Ignatow detém-se em evidenciar o alto custo que a autêntica entrega emocional exige – experimentado, ironicamente, pelos “mortos” –, em contraste com a segurança superficial da mera existência em que vivem os “livres”, sem estarem presos aos garrotes e às dores do comprometimento total.

 

Importar esclarecer – e compreenda-se que há algo de especulativo em tais deduções – que os “mortos” são os que, amando, se “perderam” no bosque ou, ainda, aqueles que se transformaram em peixes no mar profundo: se “mortos” para o mundo, para o poeta, contudo, são os que, de fato, apreenderam a essência mesma da existência, ainda que ao custo da aniquilação do eu social.

 

O vocativo final parece ser um pedido de auxílio, emanado a partir do próprio abismo em que se encontram os que se dispuseram a amar com todas as forças, dirigido aos livres que estão a salvo nas margens, para que lhes ajudem a escapar da asfixia de tamanha paixão desmesurada.

 

J.A.R. – H.C.

 

David Ignatow

(1914-1997)

 

Rescue the Dead

 

Finally, to forgo love is to kiss a leaf,

is to let rain fall nakedly upon your head,

is to respect fire,

is to study man’s eyes and his gestures

as he talks,

is to set bread upon the table

and a knife discreetly by,

is to pass through crowds

like a crowd of oneself.

Not to love is to live.

 

To love is to be led away

into a forest where the secret grave

is dug, singing, praising darkness

under the trees.

 

To live is to sign your name,

is to ignore the dead,

is to carry a wallet

and shake hands.

 

To love is to be a fish.

My boat wallows in the sea.

You who are free,

rescue the dead.

 

A brigada da vida

(Winslow Homer: pintor norte-americano)

 

Resgatai os Mortos

 

Enfim, privar-se do amor é beijar uma folha,

é deixar a chuva cair nuamente sobre a vossa cabeça,

é respeitar o fogo,

é perscrutar os olhos do homem e seus gestos

enquanto fala,

é colocar pão sobre a mesa

e uma faca discretamente ao lado,

é passar por multidões

como uma multidão de si mesmo.

Não amar é viver.

 

Amar é deixar-se levar a um bosque

onde se escava em segredo a sepultura,

cantando, bendizendo a escuridão

sob as árvores.

 

Viver é assinar o vosso nome,

é ignorar os mortos,

é portar uma carteira

e apertar as mãos.

 

Amar é ser um peixe.

Meu barco debate-se no mar.

Vós que sois livres,

resgatai os mortos.

 

Referência:

 

IGNATOW, David. Rescue the dead. In: WASHBURN, Katharine; MAJOR, John S. (Eds.), FADIMAN, Clifton (Gen. Ed.). World poetry: an anthology of verse from antiquity to our time. New York, NY: Quality Paperback Book Club, 1998. p. 1215-1216.

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