Através de uma Roma
em ruínas, Quevedo constrói uma elegia memorável sobre a fugacidade do tempo e
a decadência de quaisquer proeminências mundanas diante de sua inexorável passagem:
o peregrino – a exemplo de um turista de hoje – já não encontra em Roma a
glória e a magnificência da Roma antiga, daquele império que uma vez esteve no
topo do mundo.
Roma em escombros serve
como “memento mori” para nos recordar sobre a vaidade das ambições humanas e da
busca por lustres terrenos a todo custo: mais vale, segundo o poeta, ir em
busca da felicidade por meio de um processo de autoconhecimento e de
crescimento espiritual, cultivando uma ampla gama de virtudes, tendo em mira o
alcance de sabedoria interior.
J.A.R. – H.C.
Francisco de Quevedo
(1580-1645)
Retratado por
Velázquez
Buscas en Roma a Roma, ¡oh, peregrino!
Buscas en Roma a Roma, ¡oh, peregrino!
Y en Roma misma a Roma no la hallas;
cadáver son las que ostentó murallas
y tumba de sí propio el Aventino.
Yace donde reinaba el Palatino;
y limadas del tiempo las medallas,
más se mustran destrozo a las batallas
de las edades que blasón latino.
Sólo el Tibre quedó, cuya corriente,
si ciudad la regó, ya sepultura
la llora con funesto son doliente.
¡Oh Roma, en tu grandeza, en tu hermosura,
huyó lo que era firme, y solamente
lo fugitivo permanece y dura!
Ruínas de Roma
(Giovanni Paolo
Panini: pintor italiano)
Buscas em Roma a Roma, ó peregrino!
Buscas em Roma a
Roma, ó peregrino!
e em Roma dessa Roma
só vês falhas:
cadáver são as que
ostentou muralhas,
e de si próprio
túmulo o Aventino.
Jaz hoje onde reinava
o Palatino;
e, do tempo limadas,
as medalhas
mais se mostram destroços
das batalhas
das idades do que
brasão latino.
Só o Tibre restou,
cuja corrente,
se cidade a regou, já
sepultura
a chora com funesto
som dolente.
Roma, em tua grandeza
e formosura
fugiu o que era
firme; e tão-somente
o fugitivo permanece
e dura.
Ruínas Romanas
(Guido Borelli:
pintor italiano)
A Roma sepultada nas
próprias ruínas
Procuras Roma em
Roma, ó peregrino,
mas não há Roma em
Roma onde as muralhas
altivas
transformaram-se em mortalhas
e, em túmulo de si
mesmo, o Aventino.
Jaz, onde antes
reinara, o Palatino,
e, pelo tempo gastas,
as medalhas
parecem mais
destroços das batalhas
de outras idades que
brasão latino.
Só resta o Tibre ali,
cuja corrente
regara uma cidade e é
sepultura
o que funesta chora
em tom plangente.
Ó, Roma! Na grandeza
e formosura,
fugiu-te o que era
sólido e somente
o fugidio é o que
persiste e dura.
Referências:
QUEVEDO, Francisco. Buscas
en Roma a Roma, ¡oh, peregrino! / Buscas em Roma a Roma, ó peregrino! Tradução
de Fernando Mendes Vianna. In: VICENTE, Gil et alii. Poetas del siglo de oro
español / Poetas do século de ouro espanhol. Edição bilíngue: espanhol x
português. Seleção e tradução de Anderson Braga Horta; Fernando Mendes Vianna e
José Jeronymo Rivera; estudo introdutório de Manuel Morillo Caballero. Brasília,
DF: Thesaurus; Consejería de Educación y Ciencia de la Embajada de Espana,
2000. Em espanhol: p. 304; em português: p. 305. (Coleção “Orellana”; n. 12)
QUEVEDO, Francisco. A
Roma sepultada en sus ruinas / A Roma sepultada nas próprias ruínas. Tradução
de Nelson Ascher. In: ASCHER, Nelson (Organização e Tradução). Poesia
alheia: 121 poemas traduzidos. Rio de Janeiro, RJ: Imago, 1998. Em
espanhol: p. 50; em português: p. 51.
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