Alpes Literários

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UM PASSEIO PELOS ALPES LITERÁRIOS

quarta-feira, 8 de julho de 2026

Francisco de Quevedo - Buscas em Roma a Roma, ó peregrino!

Através de uma Roma em ruínas, Quevedo constrói uma elegia memorável sobre a fugacidade do tempo e a decadência de quaisquer proeminências mundanas diante de sua inexorável passagem: o peregrino – a exemplo de um turista de hoje – já não encontra em Roma a glória e a magnificência da Roma antiga, daquele império que uma vez esteve no topo do mundo.

 

Roma em escombros serve como “memento mori” para nos recordar sobre a vaidade das ambições humanas e da busca por lustres terrenos a todo custo: mais vale, segundo o poeta, ir em busca da felicidade por meio de um processo de autoconhecimento e de crescimento espiritual, cultivando uma ampla gama de virtudes, tendo em mira o alcance de sabedoria interior.

 

J.A.R. – H.C.

 

Francisco de Quevedo

(1580-1645)

Retratado por Velázquez

 

Buscas en Roma a Roma, ¡oh, peregrino!

 

Buscas en Roma a Roma, ¡oh, peregrino!

Y en Roma misma a Roma no la hallas;

cadáver son las que ostentó murallas

y tumba de sí propio el Aventino.

 

Yace donde reinaba el Palatino;

y limadas del tiempo las medallas,

más se mustran destrozo a las batallas

de las edades que blasón latino.

 

Sólo el Tibre quedó, cuya corriente,

si ciudad la regó, ya sepultura

la llora con funesto son doliente.

 

¡Oh Roma, en tu grandeza, en tu hermosura,

huyó lo que era firme, y solamente

lo fugitivo permanece y dura!

 

Ruínas de Roma

(Giovanni Paolo Panini: pintor italiano)

 

Buscas em Roma a Roma, ó peregrino!

 

Buscas em Roma a Roma, ó peregrino!

e em Roma dessa Roma só vês falhas:

cadáver são as que ostentou muralhas,

e de si próprio túmulo o Aventino.

 

Jaz hoje onde reinava o Palatino;

e, do tempo limadas, as medalhas

mais se mostram destroços das batalhas

das idades do que brasão latino.

 

Só o Tibre restou, cuja corrente,

se cidade a regou, já sepultura

a chora com funesto som dolente.

 

Roma, em tua grandeza e formosura

fugiu o que era firme; e tão-somente

o fugitivo permanece e dura.

 

Ruínas Romanas

(Guido Borelli: pintor italiano)

 

A Roma sepultada nas próprias ruínas

 

Procuras Roma em Roma, ó peregrino,

mas não há Roma em Roma onde as muralhas

altivas transformaram-se em mortalhas

e, em túmulo de si mesmo, o Aventino.

 

Jaz, onde antes reinara, o Palatino,

e, pelo tempo gastas, as medalhas

parecem mais destroços das batalhas

de outras idades que brasão latino.

 

Só resta o Tibre ali, cuja corrente

regara uma cidade e é sepultura

o que funesta chora em tom plangente.

 

Ó, Roma! Na grandeza e formosura,

fugiu-te o que era sólido e somente

o fugidio é o que persiste e dura.

 

Referências:

 

QUEVEDO, Francisco. Buscas en Roma a Roma, ¡oh, peregrino! / Buscas em Roma a Roma, ó peregrino! Tradução de Fernando Mendes Vianna. In: VICENTE, Gil et alii. Poetas del siglo de oro español / Poetas do século de ouro espanhol. Edição bilíngue: espanhol x português. Seleção e tradução de Anderson Braga Horta; Fernando Mendes Vianna e José Jeronymo Rivera; estudo introdutório de Manuel Morillo Caballero. Brasília, DF: Thesaurus; Consejería de Educación y Ciencia de la Embajada de Espana, 2000. Em espanhol: p. 304; em português: p. 305. (Coleção “Orellana”; n. 12)

 

QUEVEDO, Francisco. A Roma sepultada en sus ruinas / A Roma sepultada nas próprias ruínas. Tradução de Nelson Ascher. In: ASCHER, Nelson (Organização e Tradução). Poesia alheia: 121 poemas traduzidos. Rio de Janeiro, RJ: Imago, 1998. Em espanhol: p. 50; em português: p. 51.

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