Alpes Literários

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UM PASSEIO PELOS ALPES LITERÁRIOS

sexta-feira, 10 de julho de 2026

Alice Ruiz - hoje

Belos são estes versos de Ruiz, a darem conta de quão rara é a vida e o potencial que temos em nossas existências para gerar mais vida, trazer mais luz ao mundo, ser um manancial capaz de arregimentar ideias, inspiração, recursos, numa torrente de inovação e de criatividade – as quais bem podem estar em lugares inesperados ou recônditos, em cujas sombras ocultam-se, expectantes, inauditas formas de beleza.

 

O fecho do poema é um achado, com um toque de humildade associado, contraintuitivamente, a uma visão mais ampla: a voz lírica não experimenta a sua raridade no plano meramente individual, senão de modo compartilhado, como as muitas sementes lançadas pelo vento no vazio, ao desconhecido, mas que carregam consigo o mesmo aludido potencial, ou noutros termos, todas as promessas de florescimento no campo fértil do futuro.

 

J.A.R. – H.C.

 

 Alice Ruiz Schneronk

(n. 1946)

 

hoje

 

hoje

sou uma das coisas

raras do planeta

capaz de dar à vida

tudo que ela tem de luz

 

flor

que aberta

traria da água escura

o pólen, a fruta

 

dia

que tiraria

de dentro da noite

o lado oculto da lua

 

tão rara

e como eu

todas as sementes

que o vento arranca de tudo

e atira no nada

 

Natureza-morta com frutas e insetos

(Rachel Ruysch: pintora holandesa)

 

Referência:

 

SCHNERONK, Alice Ruiz. hoje. In: __________. dois em um. 1. ed., 1. reimp. São Paulo, SP: Iluminuras, out. 2009. p. 31.

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