Belos são estes versos de Ruiz, a darem conta de quão rara é a vida e o potencial que
temos em nossas existências para gerar mais vida, trazer mais luz ao mundo, ser
um manancial capaz de arregimentar ideias, inspiração, recursos, numa torrente
de inovação e de criatividade – as quais bem podem estar em lugares inesperados
ou recônditos, em cujas sombras ocultam-se, expectantes, inauditas formas de
beleza.
O fecho do poema é um
achado, com um toque de humildade associado, contraintuitivamente, a uma visão
mais ampla: a voz lírica não experimenta a sua raridade no plano meramente individual,
senão de modo compartilhado, como as muitas sementes lançadas pelo vento no
vazio, ao desconhecido, mas que carregam consigo o mesmo aludido potencial, ou
noutros termos, todas as promessas de florescimento no campo fértil do futuro.
J.A.R. – H.C.
(n. 1946)
hoje
hoje
sou uma das coisas
raras do planeta
capaz de dar à vida
tudo que ela tem de
luz
flor
que aberta
traria da água escura
o pólen, a fruta
dia
que tiraria
de dentro da noite
o lado oculto da lua
tão rara
e como eu
todas as sementes
que o vento arranca
de tudo
e atira no nada
(Rachel Ruysch:
pintora holandesa)
Referência:
SCHNERONK, Alice Ruiz.
hoje. In: __________. dois em um. 1. ed., 1. reimp. São Paulo, SP: Iluminuras,
out. 2009. p. 31.
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