Tudo são imagens
neste poema de Lowell, imerso numa atmosfera sensorial entre onírica e mágica,
cujo cenário se passa num jardim pincelado com cores, aromas e luzes que
refletem a quietude do lugar, somente quebrada por movimentos mínimos
provocados pelas andanças de um gato: o agito de um galho e o revolver da água
em razão da queda de uma folha.
Na parte final do
poema, contudo, há uma inflexão que aponta para o reiterado tema da fugacidade
da vida, em contraste com a permanência do amor e da memória: a pergunta assente
nos derradeiros versos esclarece o desejo silencioso da falante, qual seja, o
de que possam eles perdurar tanto quanto os lírios alaranjados que impassíveis
observam a sucessão das gerações.
J.A.R. – H.C.
Amy Lowell
(1874-1925)
A black cat among roses,
Phlox, lilac-misted under a first-quarter moon,
The sweet smells of heliotrope and night-scented
stock.
The garden is very still,
It is dazed with moonlight,
Contented with perfume,
Dreaming the opium dreams of its folded poppies.
Firefly lights open and vanish
High as the tip buds of the golden glow
Low as the sweet alyssum flowers at my feet.
Moon-shimmer on leaves and trellises,
Moon-spikes shafting through the snow ball bush.
Only the little faces of the ladies’ delight are
alert and staring,
Only the cat, padding between the roses,
Shakes a branch and breaks the chequered pattern
As water is broken by the falling of a leaf.
Then you come,
And you are quiet like the garden,
And white like the alyssum flowers,
And beautiful as the silent sparks of the
fireflies.
Ah, Beloved, do you see those orange lilies?
They knew my mother,
But who belonging to me will they know
When I am gone.
Gato ao luar junto ao
portão do jardim
(Cathy Peterson: artista
norte-americana)
O Jardim ao Luar
Um gato negro entre
as rosas,
Phlox, envolto numa bruma
lilás sob a lua crescente,
Os doces aromas do
heliotrópio e do goivo noturno.
O jardim jaz em plena
quietude,
Embriagado pela luz
da lua,
Radiante com os
perfumes,
A sonhar os sonhos do
ópio de suas oclusas papoulas.
As luzes dos
pirilampos acendem-se e esvaem-se,
Altas quanto o cimo
dos botões da equinácea dourada,
Baixas ao nível das
doces flores do alisso a meus pés.
O brilho da lua sobre
folhagens e caramanchões,
Os raios da lua a
atravessarem o viburno.
Só as corolinhas dos
amores-perfeitos que espreitam alertas,
Só o gato, que se esgueira
entre as rosas a agitar um galho,
Rompendo a trama
regular e quadriculada das sombras,
Como o revolver da
água pela queda de uma folha.
Então chegas tu,
Tão serena quanto o
jardim,
Tão alva quanto as
flores do alisso,
E bela como os lampejos
silenciosos dos pirilampos.
Ah, Querida, vês
aqueles lírios alaranjados?
Conheceram a minha
mãe,
Mas a quem dos meus haverão
de conhecer,
quando eu aqui já não
estiver?
Referência:
LOWELL, Amy. The garden
by moonlight. In: YAKICH, Mark (Ed.). The poetry reader: an anthology. 1st
publ. New York, NY: Bloomsbury Publishing Inc., 2025. p. 70.
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