Alpes Literários

Alpes Literários

Subtítulo

UM PASSEIO PELOS ALPES LITERÁRIOS

terça-feira, 14 de julho de 2026

Amy Lowell - O Jardim ao Luar

Tudo são imagens neste poema de Lowell, imerso numa atmosfera sensorial entre onírica e mágica, cujo cenário se passa num jardim pincelado com cores, aromas e luzes que refletem a quietude do lugar, somente quebrada por movimentos mínimos provocados pelas andanças de um gato: o agito de um galho e o revolver da água em razão da queda de uma folha.

 

Na parte final do poema, contudo, há uma inflexão que aponta para o reiterado tema da fugacidade da vida, em contraste com a permanência do amor e da memória: a pergunta assente nos derradeiros versos esclarece o desejo silencioso da falante, qual seja, o de que possam eles perdurar tanto quanto os lírios alaranjados que impassíveis observam a sucessão das gerações.

 

J.A.R. – H.C.

 

Amy Lowell

(1874-1925)

 

The Garden by Moonlight

 

A black cat among roses,

Phlox, lilac-misted under a first-quarter moon,

The sweet smells of heliotrope and night-scented stock.

The garden is very still,

It is dazed with moonlight,

Contented with perfume,

Dreaming the opium dreams of its folded poppies.

Firefly lights open and vanish

High as the tip buds of the golden glow

Low as the sweet alyssum flowers at my feet.

Moon-shimmer on leaves and trellises,

Moon-spikes shafting through the snow ball bush.

Only the little faces of the ladies’ delight are alert and staring,

Only the cat, padding between the roses,

Shakes a branch and breaks the chequered pattern

As water is broken by the falling of a leaf.

Then you come,

And you are quiet like the garden,

And white like the alyssum flowers,

And beautiful as the silent sparks of the fireflies.

Ah, Beloved, do you see those orange lilies?

They knew my mother,

But who belonging to me will they know

When I am gone.

 

Gato ao luar junto ao portão do jardim

(Cathy Peterson: artista norte-americana)

 

O Jardim ao Luar

 

Um gato negro entre as rosas,

Phlox, envolto numa bruma lilás sob a lua crescente,

Os doces aromas do heliotrópio e do goivo noturno.

O jardim jaz em plena quietude,

Embriagado pela luz da lua,

Radiante com os perfumes,

A sonhar os sonhos do ópio de suas oclusas papoulas.

As luzes dos pirilampos acendem-se e esvaem-se,

Altas quanto o cimo dos botões da equinácea dourada,

Baixas ao nível das doces flores do alisso a meus pés.

O brilho da lua sobre folhagens e caramanchões,

Os raios da lua a atravessarem o viburno.

Só as corolinhas dos amores-perfeitos que espreitam alertas,

Só o gato, que se esgueira entre as rosas a agitar um galho,

Rompendo a trama regular e quadriculada das sombras,

Como o revolver da água pela queda de uma folha.

Então chegas tu,

Tão serena quanto o jardim,

Tão alva quanto as flores do alisso,

E bela como os lampejos silenciosos dos pirilampos.

Ah, Querida, vês aqueles lírios alaranjados?

Conheceram a minha mãe,

Mas a quem dos meus haverão de conhecer,

quando eu aqui já não estiver?

 

Referência:

 

LOWELL, Amy. The garden by moonlight. In: YAKICH, Mark (Ed.). The poetry reader: an anthology. 1st publ. New York, NY: Bloomsbury Publishing Inc., 2025. p. 70.

Nenhum comentário:

Postar um comentário