Alpes Literários

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UM PASSEIO PELOS ALPES LITERÁRIOS

quinta-feira, 16 de julho de 2026

Robert Frost - O João-de-Barro

Mais que um poema sobre o joão-de-barro – aliás, um pássaro muito comum aqui pelo centro-oeste brasileiro –, este soneto de Frost é uma discreta elegia por tudo quanto se perde ao longo de uma existência que, inevitavelmente, submete-se a imparáveis mudanças: a força vital com o avanço da idade, as oportunidades baldadas, a fugacidade da beleza etc.

 

Refletir a sério, indagar sempre e existir conscientemente são formas válidas de se manter resiliente o espírito, nesse trânsito pelas sendas minguantes: somos o pássaro que, nalgum dia, haverá de se deparar com o declive no verão avançado, no outono ulterior – com a consequente perda de frescura e de flama –, quando então, contritos, entoaremos redobres ao domínio soberano da natureza, à realidade sem ilusórios arrimos.

 

J.A.R. – H.C.

 

Robert Frost

(1874-1963)

 

The Oven Bird

 

There is a singer everyone has heard,

Loud, a midsummer and a mid-wood bird,

Who makes the solid tree trunks sound again.

He says that leaves are old and that for flowers

Mid-summer is to spring as one to ten.

He says the early petal-fall is past

When pear and cherry bloom went down in showers

On sunny days a moment overcast;

And comes that other fall we name the fall.

He says the highway dust is over all.

The bird would cease and be as other birds

But that he knows in singing not to sing.

The question that he frames in all but words

Is what to make of a diminished thing.

 

In: “Mountain Interval” (1916)

 

Pintura da série “O joão-de-barro”

(Rubens Matuck: artista paulistano)

 

O João-de-Barro

 

Há um cantor que todos já ouviram

Cantar alto, ave de bosque e de verão

Que faz os sólidos troncos soarem novamente.

Ele diz que as folhas estão velhas e que para as flores

O meio do verão está para a primavera, como um para dez.

Ele diz que a queda da primeira pétala já passou

Quando as flores das peras e cerejas caíram como chuva

Em dias de sol por um momento escurecido;

E vem a queda de folhas que chamamos outono.

Ele dizendo que a poeira da estrada envolve a todos.

O pássaro acabaria e seria como os outros;

Se não soubesse cantando, não cantar.

A pergunta que ele articula sem palavras

É o que fazer do que lá vai sumindo.

 

Em: “Pausa na Montanha” (1916)

 

Referências:

 

Em Inglês

 

FROST, Robert. The oven bird. In: __________. Collected poems of Robert Frost. Garden City, NY: Halcyon House, 1942. p. 150.

 

Em Português

 

FROST, Robert. O joão-de-barro. Tradução de Marisa Murray. In: __________. Poemas escolhidos de Robert Frost. 1. ed. Rio de Janeiro, GB: Lidador, 1969. p. 40.

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