Alpes Literários

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UM PASSEIO PELOS ALPES LITERÁRIOS

terça-feira, 7 de julho de 2026

Dante Milano - Passagem do poema

Milano nos afiança que a poesia mais autêntica reside no que escapa às palavras, nesse “ar que se respira” que os versos apenas tentam capturar, enquanto correm em direção ao inefável: são “versos sem palavras”, em sua forma mais pura e fugidia, tão elusivos e inapreensíveis, eis que germinados num caldo de cultura de um espírito insone, como imagens, lembranças, representações do subconsciente ou da própria imaginação.

 

Sob tal contexto, a noite se converte num espaço psicológico e criativo, no qual a mente, entre introspectiva e agitada, espera num suspense por um “relâmpago mental” nas “trevas do cérebro”, capaz de lhe suscitar um facho de inspiração visionário, cheio de vislumbres enleantes, os quais, à medida que se aproximam, infaustamente, se apagam ou se transformam antes que venham a adquirir estrutura definitiva.

 

J.A.R. – H.C.

 

Dante Milano

(1899-1991)

 

Passagem do poema

 

O olhar no escuro,

Não dormir, esperar, acordado na noite.

Um verso feito em gesto rápido

Traça nas trevas do cérebro o rabisco de um raio.

É um poema ou talvez lá fora a tempestade?

As portas se abrem sozinhas com violência.

Passam vultos que não existem.

 

Meu corpo parado, entanto corro livre

pelos descampados.

Estende-se a perder de vista a dolorida praia.

O mar avança pela areia com as patas

de seus cavalos.

O vento chicoteia o fugitivo.

 

Não fujas da vida, espírito!

Volta, covarde!

 

Apagadas visões

Não tirarão teu brilho, realidade!

 

A poesia me leva a perdidos caminhos

De onde volto mais só, mais desesperançado.

De tudo resta apenas a página rabiscada.

Deixo cair da mão o verso que se parte.

Outro me foge escrito sem palavras,

Buscando outros sentidos...

 

O verso é feito do ar que se respira.

 

Correi, correi, ó versos sem palavras...

 

O sonhador

(Caspar David Friedrich: pintor alemão)

 

Referência:

 

MILANO, Dante. Passagem do poema. In: __________. Poesia e prosa. Organização de Virgílio Costa. Civilização Brasileira; Núcleo Editorial da UERJ, 1979. p. 93. (Coleção “Vária”)

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