Milano nos afiança
que a poesia mais autêntica reside no que escapa às palavras, nesse “ar que se
respira” que os versos apenas tentam capturar, enquanto correm em direção ao
inefável: são “versos sem palavras”, em sua forma mais pura e fugidia, tão
elusivos e inapreensíveis, eis que germinados num caldo de cultura de um
espírito insone, como imagens, lembranças, representações do subconsciente ou
da própria imaginação.
Sob tal contexto, a
noite se converte num espaço psicológico e criativo, no qual a mente, entre introspectiva
e agitada, espera num suspense por um “relâmpago mental” nas “trevas do cérebro”,
capaz de lhe suscitar um facho de inspiração visionário, cheio de vislumbres enleantes,
os quais, à medida que se aproximam, infaustamente, se apagam ou se transformam
antes que venham a adquirir estrutura definitiva.
J.A.R. – H.C.
Dante Milano
(1899-1991)
Passagem do poema
O olhar no escuro,
Não dormir, esperar,
acordado na noite.
Um verso feito em
gesto rápido
Traça nas trevas do cérebro
o rabisco de um raio.
É um poema ou talvez
lá fora a tempestade?
As portas se abrem
sozinhas com violência.
Passam vultos que não
existem.
Meu corpo parado,
entanto corro livre
pelos descampados.
Estende-se a perder
de vista a dolorida praia.
O mar avança pela
areia com as patas
de seus cavalos.
O vento chicoteia o
fugitivo.
Não fujas da vida,
espírito!
Volta, covarde!
Apagadas visões
Não tirarão teu
brilho, realidade!
A poesia me leva a
perdidos caminhos
De onde volto mais
só, mais desesperançado.
De tudo resta apenas
a página rabiscada.
Deixo cair da mão o
verso que se parte.
Outro me foge escrito
sem palavras,
Buscando outros
sentidos...
O verso é feito do ar
que se respira.
Correi, correi, ó
versos sem palavras...
O sonhador
(Caspar David
Friedrich: pintor alemão)
Referência:
MILANO, Dante. Passagem do poema. In: __________. Poesia e prosa. Organização de Virgílio Costa. Civilização Brasileira; Núcleo Editorial da UERJ, 1979. p. 93. (Coleção “Vária”)
❁


Nenhum comentário:
Postar um comentário