Alpes Literários

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UM PASSEIO PELOS ALPES LITERÁRIOS

segunda-feira, 13 de julho de 2026

Ralph Waldo Emerson - A Beleza

Emerson nos apresenta um manifesto poético, com todo aquele matiz transcendentalista, a proclamar a superioridade absoluta da busca espiritual e estética sobre os valores materiais e mundanos, chegando a postulá-la como um ideal pelo qual valeria a pena morrer.

 

À procura da centelha divina – “graça” – no fluxo constante do universo, é certo que nos depararemos com a beleza – essa manifestação visível e audível do espírito criador na natureza e no cosmos –, tão dinâmica e efêmera que requer um esforço ativo e uma percepção agudizada para que possa ser oportunamente haurida.

 

Preso a ambições egoístas e a cobiças materiais, o homem, segundo o autor norte-americano, teria na beleza – essa linguagem universal subjacente ao ritmo e à harmonia de todas as coisas – uma força ética e redentora, um clarão desassombrado que vai de encontro à escuridão do sofrimento e da maldade, servindo-nos de guia para tornar a vida uma experiência sublime.

 

J.A.R. – H.C.

 

Ralph Waldo Emerson

(1803-1882)

 

Beauty

 

Was never form and never face

So sweet to Seyd as only grace

Which did not slumber like a stone,

But hovered gleaming and was gone.

Beauty chased he everywhere,

In flame, in storm, in clouds of air.

He smote the lake to feed his eye

With the beryl beam of the broken wave;

He flung in pebbles well to hear

The moment's music which they gave.

Oft pealed for him a lofty tone

From nodding pole and belting zone.

He heard a voice none else could hear

From centred and from errant sphere.

The quaking earth did quake in rhyme,

Seas ebbed and flowed in epic chime.

In dens of passion, and pits of woe,

He saw strong Eros struggling through,

To sun the dark and solve the curse,

And beam to the bounds of the universe.

While thus to love he gave his days

In loyal worship, scorning praise,

How spread their lures for him in vain

Thieving Ambition and paltering Gain!

He thought it happier to be dead,

To die for Beauty, than live for bread.

 

Hardkoolbome - Bosveld (1)

(Jacobus Hendrik Pierneef: pintor sul-africano)

 

A Beleza

 

Nem a forma, nem o olhar, nem o maior atrativo

Parecia suave a Seyd, como o é sempre (2)

Aquela graça vivaz, e não fria ou pétrea,

Que paira na cintila e se esvaece na luz.

Sem cessar ele perseguia o Belo, em todas as coisas,

Nas chamas, na tormenta ou nas róseas nuvens.

Golpeava o lago para sentir os olhos ofuscados

Pelos lampejos esmeraldas que coroavam as ondas,

Atirava-lhe seixos para acompanhar, um segundo,

Sua cadência límpida ao mergulhar nas águas.

Do polo ou, muita vez de longínquos horizontes,

De uma pura harmonia ouvia ele os sons,

E da estrela fixa ou das esferas errantes,

Lhe chegavam os ruídos, vozes que só para si vibravam.

Tremia o mundo em convulsões, e os mares.

Alteando-se e borbulhando, formavam-lhe concertos.

Nos antros do mal, na paixão, nas ruínas,

Descobria Eros, e suas divinas lutas

Para ensolarar a sombra e purificar o mundo,

E, vencedor, resplandecer até os confins do mundo.

E, assim, entregando ao amor a vida,

Era leal, e desdenhava louvores e astúcias,

Enquanto o Lucro furtivo, a Ambição que rouba,

Lhe repetiam debalde suas promessas enganosas!

Melhor fora, pensava com seu altivo espírito,

Que viver pelo pão, morrer pela Beleza.

 

Notas:

 

(1). Hardkoolbome - Bosveld: árvores de madeira resistente em região de savanas no norte da África do Sul.

 

(2). Seyd: presente em vários textos de Emerson, o figurante – talvez uma figura arquetípica associada aos preceitos da mística persa – sempre surge como um símbolo para aquele tipo-ideal de buscador da beleza, quer esteja ela presente na natureza, quer no homem.

 

Referências:

 

Em Inglês

 

EMERSON, Ralph Waldo. Beauty. In: __________. The complete works of Ralph Waldo Emerson. With a biographical introduction and notes by Edward Waldo Emerson and a general index illustrated with photogravures. Vol. IX: Poems. Boston, MA; New York, NY: Houghton, Mifflin and Company (The Riverside Press, Cambridge), 1904. p. 275-276.

 

Em Português

 

EMERSON, Ralph Waldo. A beleza. Tradução de C. M. Fonseca. In: __________. A conduta para a vida. Tradução de C. M. Fonseca. São Paulo, SP: Martin Claret, 2003. p. 173. (Coleção “A Obra-Prima de Cada Autor”; v. 120)

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