Alpes Literários

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UM PASSEIO PELOS ALPES LITERÁRIOS

segunda-feira, 6 de julho de 2026

Robinson Jeffers - Brilha, República Moribunda

Sendo norte-americano, penso que Jeffers, ao fazer alusão a uma “República Moribunda”, esteja se referindo, salvo engano, aos EUA, país que, nos dias que correm, já mostram claros sinais de decadência – sobretudo em razão das ações de seu governo, engolfado no exercício de um poder plutocrático e cleptocrático.

 

Se tal percepção já a tinha o poeta em meados da primeira metade do século passado, tanto mais a teria no presente momento: contra essa degeneração do poder, atolado no pântano obsceno da corrupção e da vulgaridade, Jeffers propõe a todos um distanciamento físico e moral do núcleo de arbítrio que se lhe associa, e mais extensivamente, a adoção de uma perspectiva cósmica sob cuja conjunção se relativiza a importância do homem e de seus efêmeros impérios, para, desse modo, manterem-se indenes aos jugos do “monstro da civilização” em derrocada.

 

De resto, o poeta se mostra cético em relação às linhas de conduta de certas ideologias humanistas ou religiosas, pois lhe parece que o excesso de amor à humanidade acaba por se abastardar num desvio idolátrico, tornando-se uma armadilha que cega e destrói até mesmo os mais nobres, razão pela qual sustenta a tese de que a verdadeira sabedoria e liberdade consistem em transcender tal antropocentrismo.

 

J.A.R. – H.C.

 

Robinson Jeffers

(1887-1962)

 

Shine, Perishing Republic

 

While this America settles in the mould of its vulgarity, heavily

thickening to empire,

And protest, only a bubble in the molten mass, pops and sighs

out, and the mass hardens,

 

I sadly smiling remember that the flower fades to make fruit,

the fruit rots to make earth.

Out of the mother; and through the spring exultances, ripeness

and decadence; and home to the mother.

 

You making haste haste on decay: not blameworthy; life is good,

be it stubbornly long or suddenly

A mortal splendor: meteors are not needed less than mountains:

shine, perishing republic.

 

But for my children, I would have them keep their distance

from the thickening center; corruption

Never has been compulsory, when the cities lie at the monster’s

feet there are left the mountains.

 

And boys, be in nothing so moderate as in love of man, a clever

servant, insufferable master.

There is the trap that catches noblest spirits, that caught – they say –

God, when he walked on earth.

 

In: “Tamar” (1917-1923)

 

Henrik Hudson chegando à

baía de Nova York: setembro de 1609

(Edward Moran: pintor anglo-americano)

 

Brilha, República Moribunda

 

Enquanto esta América se assenta no molde de sua vulgaridade,

espessando-se pesadamente em império,

E o protesto – apenas uma borbulha na massa em fusão – estoura

e se evola num suspiro, à medida que a massa se enrijece,

 

Eu sorrio tristemente ao recordar que a flor murcha para gerar

o fruto, e o fruto decompõe-se para fecundar a terra.

Da mãe se parte para palmilhar as exultações da primavera, a

maturação e a decadência, mas ao fim se regressa ao lar materno.

 

Tu, apressando-te na própria decadência: não és censurável;

a vida é boa, quer seja ela uma longeva obstinação, quer

Um esplendor súbito e mortal; meteoros não são menos necessários

que montanhas: brilha, república moribunda.

 

Mas aos meus filhos, recomendaria que guardem distância

desse centro que se espessa; a corrupção jamais

Foi compulsória: quando as cidades jazem aos pés do monstro,

restam-nos as montanhas.

 

E vós, jovens, não sejais em nada tão moderados quanto no amor

pelo homem, esse servo astuto e abominável senhor.

Eis a armadilha na qual caem os mais nobres espíritos, a mesma em que

– dizem-nos – Deus deixou-se capturar em sua passagem pela Terra.

 

Em: “Tamar” (1917-1923)

 

Referência:

 

JEFFERS, Robinson. Shine, perishing republic. In: __________. The selected poetry of Robinson Jeffers. Edited by Tim Hunt. Stanford, CA: Stanford University Press, 2001. p. 23.

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