Alpes Literários

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UM PASSEIO PELOS ALPES LITERÁRIOS

terça-feira, 21 de julho de 2026

Gérard de Nerval - Versos áureos

O poeta francês nos apresenta a sua visão romântico-mística acerca da unidade sagrada e consciente de toda a Criação: de fato, o soneto é uma defesa poética do pampsiquismo – a crença de que tudo no universo possui consciência, alma ou sensibilidade –, com paralela reprimenda ao antropocentrismo arrogante do ser humano.

 

Há muito de pitagorismo – como indica a epígrafe do poema – e de laivos herméticos ou de correntes esotéricas nestas linhas. Seja como for, têm elas o sabor oportuno de algo tão concatenado aos recentes reclamos pela integridade ecológica do planeta, convocando-nos a desertar de nossa soberbia, para reconhecer a chispa divina em tudo quanto há no plano tangível e intangível.

 

Viver com reverência ética por todo o universo, desde os animais até a pedra – símbolo máximo do inerte, mas, sob tal perspectiva, também dotada de espírito –, é o lema maior desta exortação para agirmos com respeito em relação aos recursos do nosso teto provisório, sem profaná-lo – ou como diz o próprio Nerval –, sem fazê-lo “servir a propósitos ímpios”.

 

J.A.R. – H.C.

 

Gérard de Nerval

(1808-1855)

 

Vers dorés

 

Eh quoi! tout est sensible.

Pythagore

 

Homme ! libre penseur! te crois-tu seul pensant

Dans ce monde où la vie éclate en toute chose?

Des forces que tu tiens ta liberté dispose,

Mais de tous tes conseils l’univers est absent.

 

Respecte dans la bête un esprit agissant:

Chaque fleur est une âme à la Nature éclose;

Un mystère d’amour dans le métal repose;

“Tout est sensible!” Et tout sur ton être est puissant.

 

Crains dans le mur aveugle, un regard qui t’épie:

A la matière même un verbe est attaché...

Ne la fais pas servir à quelque usage impie!

 

Souvent dans l’être obscur habite un Dieu caché;

Et, comme un oeil naissant couvert par ses paupières,

Un pur esprit s'accroît sous l’écorce des pierres!

 

Espíritos Afins

(Asher Durand: pintor norte-americano)

 

Versos áureos

 

Mas como! Tudo é sensível!

Pitágoras

 

Oh! homem pensador, julgas que é em ti somente

Que há a razão neste mundo onde em tudo arfa a vida?

Das forças que tu tens tua vontade é servida,

Mas dos conselhos teus o universo está ausente.

 

Respeita no animal um espírito agente:

Cada flor é uma alma à natureza erguida;

Um mistério de amor no metal tem guarida;

“Tudo é sensível!” Tudo em teu ser é potente.

 

Teme, no muro cego, um olho que te espia:

Pois mesmo na matéria um verbo está sepulto…

Não a faças servir a alguma função ímpia!

 

No ser obscuro às vezes mora um Deus oculto,

E, como olho a nascer por pálpebras coberto,

Nas pedras cresce um puro espírito desperto!

 

(16/3/1990)

 

Referência:

 

NERVAL, Gérard de. Vers dorés / Versos áureos. Tradução de Alexei Bueno. In: BUENO, Alexei (Org. & Trad.). Cinco séculos de poesia. Edição bilíngue. Rio de Janeiro, RJ: Record, 2013. Em francês: p. 90; em português: p. 91.

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