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UM PASSEIO PELOS ALPES LITERÁRIOS

domingo, 5 de julho de 2026

Jeff Vasques - A vida irrita a arte

A partir de um dito epigráfico atribuído ao fotógrafo gaúcho João Zinclar (1956-2013), o poeta estabelece o tom e a tese principal de seu poema: a verdadeira arte não se limita à mera contemplação estética, sobretudo porque deve sempre ter a capacidade e a reponsabilidade de intervir, agitar e transformar o meio em que veiculada.

 

A repetição anafórica da expressão “Isso não é arte!” ao longo do poema, associada àqueles que se escandalizam pela natureza combativa numa determinada forma de arte – “poesia, pintura, música, dança, filme, foto ou cena” –, enfatiza a resistência de certos setores a reconhecer como arte aquilo que é incômodo, útil ou notoriamente subversivo.

 

O poeta, de fato, tenciona dessacralizar a obra de arte, para ressantificá-la em sua dimensão sócio-política, a mãos dadas com as necessidades, as dores e as esperanças da maioria, reafirmando, desse modo, a primazia da experiência de vida e da luta social sobre qualquer definição restritiva – e elitista – da estética.

 

Destaque-se a paronomásia do título, um exemplo de intertextualidade crítica combinada com trocadilho semântico: Vasques substitui a palavra “imita” por “irrita” na famosa e provocativa elocução de Oscar Wilde (1854-1900), no ensaio “The Decay of Lying” (“A Decadência da Mentira”), por meio da qual o irlandês buscava subverter a ideia aristotélica de arte como mímesis da realidade – explicitamente, de “A arte imita a vida” a “A vida imita a arte”.

 

J.A.R. – H.C.

 

Jeff Vasques

(n. 1977)

 

A vida irrita a arte

 

“Não sou artista, não faço arte,

faço denúncia social.”

(João Zinclar – operário da fotografia)

 

“Isso não é arte!”

 

dirão

– entre esbaforidos e consternados –

ao verem que teu poema

(ou tua pintura, ou tua música, tua dança,

filme, foto ou cena)

age.

 

Ao verem que teu poema

luta

clama

consola

chora

grita

e

denuncia

 

Ao verem que teu poema

surta

explode

insulta

urra

vomita

 

Ao verem que teu poema

planeja

pensa

analisa

lembra

relembra

conspira

 

Ao verem que teu poema

lambe

morde

chupa

beija

ri e

fode

 

…que teu poema

mira.

 

Enfim,

sempre dirão

– entre esbaforidos e consternados –

“Isso não é arte!”

ao verem que teu poema

tem urgência

e utilidade.

 

Ao ouvir tal sentença,

poupa tua fala…

sorri com classe…

 

com toda tua Classe!

 

(sorri com a calma

com que respira

o metrô

lotado

à tarde…)

 

[Veja,

eles pensam assim porque vivem

numa partezinha da vida

– numa minúscula classe –

onde não há sérios problemas, grandes

medos, dores, necessidades e,

portanto,

há tempo e “futuro” de sobra

para se divertirem com essas palavras em voga

“posteridade” “eternidade” “arte”]

 

Quando te disserem

“Isso não é arte!”

sorria, apenas,

e diga:

 

“Tampouco isto é vida.”

 

A vida imita a arte

(Fotografia: Lacey – fotógrafa inglesa /

Pintura: Alexa Meade – artista norte-americana)

 

Referência:

 

VASQUES, Jeff. A vida irrita a arte. In: __________. És fardo ou farda. [Campinas, SP]: Edição independente, 2017. p. 65-67.

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