A partir de um dito epigráfico
atribuído ao fotógrafo gaúcho João Zinclar (1956-2013), o poeta estabelece o
tom e a tese principal de seu poema: a verdadeira arte não se limita à mera
contemplação estética, sobretudo porque deve sempre ter a capacidade e a reponsabilidade
de intervir, agitar e transformar o meio em que veiculada.
A repetição anafórica
da expressão “Isso não é arte!” ao longo do poema, associada àqueles que se
escandalizam pela natureza combativa numa determinada forma de arte – “poesia,
pintura, música, dança, filme, foto ou cena” –, enfatiza a resistência de
certos setores a reconhecer como arte aquilo que é incômodo, útil ou notoriamente
subversivo.
O poeta, de fato, tenciona
dessacralizar a obra de arte, para ressantificá-la em sua dimensão
sócio-política, a mãos dadas com as necessidades, as dores e as esperanças da
maioria, reafirmando, desse modo, a primazia da experiência de vida e da luta
social sobre qualquer definição restritiva – e elitista – da estética.
Destaque-se a paronomásia
do título, um exemplo de intertextualidade crítica combinada com trocadilho
semântico: Vasques substitui a palavra “imita” por “irrita” na famosa e
provocativa elocução de Oscar Wilde (1854-1900), no ensaio “The Decay of Lying”
(“A Decadência da Mentira”), por meio da qual o irlandês buscava subverter a
ideia aristotélica de arte como mímesis da realidade – explicitamente, de “A
arte imita a vida” a “A vida imita a arte”.
J.A.R. – H.C.
Jeff Vasques
(n. 1977)
A vida irrita a arte
“Não sou artista, não
faço arte,
faço denúncia
social.”
(João Zinclar –
operário da fotografia)
“Isso não é arte!”
dirão
– entre esbaforidos e
consternados –
ao verem que teu
poema
(ou tua pintura, ou
tua música, tua dança,
filme, foto ou cena)
age.
Ao verem que teu
poema
luta
clama
consola
chora
grita
e
denuncia
Ao verem que teu
poema
surta
explode
insulta
urra
vomita
Ao verem que teu
poema
planeja
pensa
analisa
lembra
relembra
conspira
Ao verem que teu
poema
lambe
morde
chupa
beija
ri e
fode
…que teu poema
mira.
Enfim,
sempre dirão
– entre esbaforidos e
consternados –
“Isso não é arte!”
ao verem que teu
poema
tem urgência
e utilidade.
Ao ouvir tal
sentença,
poupa tua fala…
sorri com classe…
com toda tua Classe!
(sorri com a calma
com que respira
o metrô
lotado
à tarde…)
[Veja,
eles pensam assim
porque vivem
numa partezinha da
vida
– numa minúscula
classe –
onde não há sérios problemas,
grandes
medos, dores,
necessidades e,
portanto,
há tempo e “futuro”
de sobra
para se divertirem
com essas palavras em voga
“posteridade”
“eternidade” “arte”]
Quando te disserem
“Isso não é arte!”
sorria, apenas,
e diga:
“Tampouco isto é
vida.”
A vida imita a arte
(Fotografia: Lacey – fotógrafa
inglesa /
Pintura: Alexa Meade
– artista norte-americana)
Referência:
VASQUES, Jeff. A vida
irrita a arte. In: __________. És fardo ou farda. [Campinas, SP]: Edição
independente, 2017. p. 65-67.
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