Ao casal empobrecido,
de quem se espera a associação a poucas posses ou recursos financeiros, o poeta
colaciona contrastes anafóricos centrados na repetição da forma verbal “tinham”,
à jusante dos quais se declinam todas as “posses” dos amantes – lua em jardins,
anjos de pedra... –, sinais ostensivos da beleza que se vincula a um mundo de
riquezas espirituais.
A imagem do milagre
cotidiano “escorrendo pelos telhados” busca conectar o sagrado àquilo que é
humilde, talvez para dar conta da liberdade, da magia, da imaginação criadora e
dos propósitos dos que vivem na carência, milagres diários que teimam em assomar
desde a franja intangível da realidade, tornando-os os pródigos semeadores da
mais autêntica poesia.
J.A.R. – H.C.
Eugênio de Andrade
(1923-2005)
Os Amantes sem
Dinheiro
Tinham o rosto aberto
a quem passava.
Tinham lendas e mitos
e frio no coração.
Tinham jardins onde a
lua passeava
de mãos dadas com a
água
e um anjo de pedra
por irmão.
Tinham como toda a
gente
o milagre de cada dia
escorrendo pelos
telhados;
e olhos de oiro
onde ardiam
os sonhos mais
tresmalhados.
Tinham fome e sede
como os bichos,
e silêncio
à roda dos seus
passos.
Mas a cada gesto que
faziam
um pássaro nascia dos
seus dedos
e deslumbrado
penetrava nos espaços.
Em: “Os Amantes sem Dinheiro”
(1950)
Casal pobre num café
(Pablo Picasso:
pintor espanhol)
Referência:
ANDRADE, Eugênio de.
Os amantes sem dinheiro. In: __________. Forbidden words: selected
poetry of Eugénio de Andrade, translated by Alexis Levitin. A bilingual
edition: portuguese x english. New York, NY: New Directions, 2003. p. 12.
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