Heine celebra os
predicados transformadores do amor e da arte, sob uma constante tensão entre o
desejo de bem expressar-se e os limites da linguagem: não encontra o poeta um
símile adequado para a sua amada, porque, a seu ver, teria ela o poder de
sobre-exceder quaisquer efígies concebíveis, forçando-o a deambular entre metáforas,
numa espécie de tormento criativo.
O emprego de imagens exóticas e referências
mitológicas – com destaque para elementos da realidade e da cultura indiana –
quase nos faz projetar, imaginosamente, algum episódio cinematográfico, quando,
na verdade, tudo não passa de representações suscitadas pelos efeitos da paixão
por sua idealizada musa, diante de quem Heine, vãmente, aspira por uma imagem que
lhe faça paridade, pela qual estaria disposto a abrir mão de seu cavalo – explícita intertextualidade com a fala de
Ricardo III, na peça homônima de Shakespeare, para quem o animal teria um valor
de momento equiparável ao de todo o reino do qual era soberano.
J.A.R. – H.C.
Heinrich Heine
(1797-1856)
Retrato de Moritz
Daniel Oppenheim
Der Ganges rauscht,
der große Ganges schwillt
Der Ganges rauscht,
der große Ganges schwillt,
Der Himalaya strahlt
im Abendscheine,
Und aus der Nacht der
Banianenhaine,
Die Elephantenheerde
stürzt und brüllt –
Ein Bild! Ein Bild!
Mein Pferd für’n gutes Bild!
Womit ich dich
vergleiche, Schöne, Feine,
Dich Unvergleichliche,
dich Gute, Reine,
Die mir das Herz mit
heitrer Lust erfüllt!
Vergebens siehst du
mich nach Bildern schweifen,
Und siehst mich mit
Gefühl und Reimen ringen, –
Und, ach! du lächelst
gar ob meiner Qual!
Doch lächle nur! Denn
wenn du lächelst, greifen
Gandarven nach der
Zither, und sie singen
Dort oben in dem
goldnen Sonnensaal.
(1824)
Aus: “Auf Flügeln des
Gesanges: Gedichte” (1822-1830)
A escadaria de
Manikarnika, em Varanasi (IN)
(William Daniell:
pintor inglês)
O Ganges brame, avança o grande Ganges (1)
O Ganges brame,
avança o grande Ganges;
Os Himalaias raiam no
crepúsculo;
Do bosque de banians
(2), tão denso, escuro,
Estrondam, num
tropel, os elefantes; –
Imagem! Uma imagem!
Meu cavalo
Por uma só imagem que
dê conta
De ti, ó
incomparável, que me afronta
O coração, no mais
doce regalo!
Me vês na vã procura
de uma imagem,
Emaranhado em rimas e
emoção, –
E ris, achando graça
do suplício!
Mas ri! Pois quando
ris, vejo o solstício,
E os Gandharvas (3) –
de cítara na mão –
Entoam ragas na áurea
carruagem.
(1824)
Em: “Nas Asas da Canção:
Poemas” (1822-1830)
Notas do Tradutor
(André Vallias):
(1). Terceiro soneto
de uma série de três, intitulada “Friederike”, escrita cm 1824 para Friederike
Robert (1795-1832), a quem Heine admirava tanto pela beleza quanto pela
inteligência, e com quem compartilhava, na época de Berlim, o gosto pela poesia
indiana; era casada com o poeta Ludwig Robert (irmão de Rahel Varnhagen von Ense);
os três sonetos foram publicados vinte anos mais tarde, na coletânea “Neue
Gedichte” (1844).
(2). Banian: Figueira-da-Índia.
(3). Gandharvas: no
hinduísmo, espíritos masculinos da natureza – alguns com partes animais
(normalmente pássaro ou cavalo), mensageiros dos deuses e músicos exímios; são
os esposos das Apsaras, espíritos femininos das nuvens e águas, exuberantes
dançarinas.
Referência:
HEINE, Heinrich. Der Ganges rauscht, der große Ganges schwillt / O Ganges brame, avança o grande Ganges. Tradução de André Vallias. In: __________. Heine, hein? – Poeta dos contrários. Introdução e traduções de André Vallias. São Paulo, SP: Perspectiva, 2011. Em alemão: p. 115; em português: p. 117. (Coleção “Signos”; n. 53)
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