Alpes Literários

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UM PASSEIO PELOS ALPES LITERÁRIOS

sábado, 11 de julho de 2026

Heinrich Heine - O Ganges brame, avança o grande Ganges

Heine celebra os predicados transformadores do amor e da arte, sob uma constante tensão entre o desejo de bem expressar-se e os limites da linguagem: não encontra o poeta um símile adequado para a sua amada, porque, a seu ver, teria ela o poder de sobre-exceder quaisquer efígies concebíveis, forçando-o a deambular entre metáforas, numa espécie de tormento criativo.

 

O emprego de imagens exóticas e referências mitológicas – com destaque para elementos da realidade e da cultura indiana – quase nos faz projetar, imaginosamente, algum episódio cinematográfico, quando, na verdade, tudo não passa de representações suscitadas pelos efeitos da paixão por sua idealizada musa, diante de quem Heine, vãmente, aspira por uma imagem que lhe faça paridade, pela qual estaria disposto a abrir mão de seu cavalo  – explícita intertextualidade com a fala de Ricardo III, na peça homônima de Shakespeare, para quem o animal teria um valor de momento equiparável ao de todo o reino do qual era soberano.

 

J.A.R. – H.C.

 

Heinrich Heine

(1797-1856)

Retrato de Moritz Daniel Oppenheim

 

Der Ganges rauscht, der große Ganges schwillt

 

Der Ganges rauscht, der große Ganges schwillt,

Der Himalaya strahlt im Abendscheine,

Und aus der Nacht der Banianenhaine,

Die Elephantenheerde stürzt und brüllt –

 

Ein Bild! Ein Bild! Mein Pferd für’n gutes Bild!

Womit ich dich vergleiche, Schöne, Feine,

Dich Unvergleichliche, dich Gute, Reine,

Die mir das Herz mit heitrer Lust erfüllt!

 

Vergebens siehst du mich nach Bildern schweifen,

Und siehst mich mit Gefühl und Reimen ringen, –

Und, ach! du lächelst gar ob meiner Qual!

 

Doch lächle nur! Denn wenn du lächelst, greifen

Gandarven nach der Zither, und sie singen

Dort oben in dem goldnen Sonnensaal.

 

(1824)

 

Aus: “Auf Flügeln des Gesanges: Gedichte” (1822-1830)

 

A escadaria de Manikarnika, em Varanasi (IN)

(William Daniell: pintor inglês)

 

O Ganges brame, avança o grande Ganges (1)

 

O Ganges brame, avança o grande Ganges;

Os Himalaias raiam no crepúsculo;

Do bosque de banians (2), tão denso, escuro,

Estrondam, num tropel, os elefantes; –

 

Imagem! Uma imagem! Meu cavalo

Por uma só imagem que dê conta

De ti, ó incomparável, que me afronta

O coração, no mais doce regalo!

 

Me vês na vã procura de uma imagem,

Emaranhado em rimas e emoção, –

E ris, achando graça do suplício!

 

Mas ri! Pois quando ris, vejo o solstício,

E os Gandharvas (3) – de cítara na mão –

Entoam ragas na áurea carruagem.

 

(1824)

 

Em: “Nas Asas da Canção: Poemas” (1822-1830)

 

Notas do Tradutor (André Vallias):

 

(1). Terceiro soneto de uma série de três, intitulada “Friederike”, escrita cm 1824 para Friederike Robert (1795-1832), a quem Heine admirava tanto pela beleza quanto pela inteligência, e com quem compartilhava, na época de Berlim, o gosto pela poesia indiana; era casada com o poeta Ludwig Robert (irmão de Rahel Varnhagen von Ense); os três sonetos foram publicados vinte anos mais tarde, na coletânea “Neue Gedichte” (1844).

 

(2). Banian: Figueira-da-Índia.

 

(3). Gandharvas: no hinduísmo, espíritos masculinos da natureza – alguns com partes animais (normalmente pássaro ou cavalo), mensageiros dos deuses e músicos exímios; são os esposos das Apsaras, espíritos femininos das nuvens e águas, exuberantes dançarinas.

 

Referência:

 

HEINE, Heinrich. Der Ganges rauscht, der große Ganges schwillt / O Ganges brame, avança o grande Ganges. Tradução de André Vallias. In: __________. Heine, hein? – Poeta dos contrários. Introdução e traduções de André Vallias. São Paulo, SP: Perspectiva, 2011. Em alemão: p. 115; em português: p. 117. (Coleção “Signos”; n. 53)

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