Alpes Literários

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UM PASSEIO PELOS ALPES LITERÁRIOS

sábado, 4 de julho de 2026

Henry W. Longfellow - Morituri Salutamus (Excerto Final)

Nestas três últimas estrofes de “Morituri Salutamus”, Longfellow nos oferece um hino à resiliência do espírito humano e ao contínuo potencial que se tem no transcorrer da vida, inclusive em sua etapa final – a velhice –, aqui reexaminada não sob o ponto de vista de uma incapacidade forçada, vivenciada sob o peso da resignação, mas como uma fase ainda profícua, durante a qual se pode ir ao encontro da beleza, expressando criatividade e afinidade com valores mais elevados.

 

É um chamado para se ter atitude e dignidade diante do crepúsculo da existência, sem deixar de reconhecer os achaques e as perdas que os anos nos impingem: sabedoria, serenidade e reflexões mais ponderadas vão a par com as contribuições que se podem oferecer, em gratidão, por termos tido a oportunidade de testemunhar e de contribuir para o espetáculo da vida, até o último clarão.

 

J.A.R. – H.C.

 

Henry W. Longfellow

(1807-1882)

 

Morituri Salutamus: Poem for the Fiftieth

Anniversary of the Class of 1825

in Bowdoin College

 

Tempora labuntur, tacitisque senescimus annis,

Et fugiunt freno non remorante dies.

Ovid, Fastorum, Lib. VI.

 

(Final Excerpt)

 

But why, you ask me, should this tale be told

To men grown old, or who are growing old?

It is too late! Ah, nothing is too late

Till the tired heart shall cease to palpitate.

Cato learned Greek at eighty; Sophocles

Wrote his grand Oedipus, and Simonides

Bore off the prize of verse from his compeers,

When each had numbered more than fourscore years,

And Theophrastus, at fourscore and ten,

Had but begun his “Characters of Men”.

Chaucer, at Woodstock with the nightingales,

At sixty wrote the Canterbury Tales;

Goethe at Weimar, toiling to the last,

Completed Faust when eighty years were past.

These are indeed exceptions; but they show

How far the gulf-stream of our youth may flow

Into the arctic regions of our lives,

Where little else than life itself survives.

 

As the barometer foretells the storm

While still the skies are clear, the weather warm

So something in us, as old age draws near,

Betrays the pressure of the atmosphere.

The nimble mercury, ere we are aware,

Descends the elastic ladder of the air;

The telltale blood in artery and vein

Sinks from its higher levels in the brain;

Whatever poet, orator, or sage

May say of it, old age is still old age.

It is the waning, not the crescent moon;

The dusk of evening, not the blaze of noon;

It is not strength, but weakness; not desire,

But its surcease; not the fierce heat of fire,

The burning and consuming element,

But that of ashes and of embers spent,

In which some living sparks we still discern,

Enough to warm, but not enough to burn.

 

What then? Shall we sit idly down and say

The night hath come; it is no longer day?

The night hath not yet come; we are not quite

Cut off from labor by the failing light;

Something remains for us to do or dare;

Even the oldest tree some fruit may bear;

Not Oedipus Coloneus, or Greek Ode,

Or tales of pilgrims that one morning rode

Out of the gateway of the Tabard Inn,

But other something, would we but begin;

For age is opportunity no less

Than youth itself, though in another dress,

And as the evening twilight fades away

The sky is filled with stars, invisible by day.

 

A mesa redonda de Frederico II, em Sanssouci

(Adolph von Menzel: pintor alemão)

 

Morituri Salutamus (1): Poema para o quinquagésimo

aniversário da turma de 1825

no Bowdoin College

 

Tempora labuntur, tacitisque senescimus annis,

Et fugiunt freno non remorante dies.

Ovid, Fastorum, Lib. VI. (2)

 

(Excerto Final)

 

Mas por que, perguntam-me, contar esta história

A homens já velhos ou que estão a envelhecer?

É demasiado tarde! Ah, nada é demasiado tarde

Até que o coração cansado deixe de palpitar.

Catão aprendeu grego aos oitenta; Sófocles

Escreveu seu grandioso Édipo, e Simônides

Ganhou o prêmio de poesia de seus pares,

Quando cada um já tinha passado dos oitenta,

E Teofrasto, uma década além dos oitenta,

Mal havia começado seus “Caracteres Morais”.

Chaucer, em Woodstock entre os rouxinóis,

Aos sessenta, escreveu os Contos da Cantuária;

Goethe em Weimar, trabalhando até o fim,

Completou Fausto já transcorridos os oitenta.

Estas são, de fato, exceções; mas que revelam

Até que ponto a corrente do golfo da juventude

Pode fluir para as regiões árticas de nossas vidas,

Onde pouco mais que a própria vida sobrevive.

 

Como o barômetro, ao pressagiar tempestade

Sob um céu ainda límpido a tórrida temperatura,

Algo em nós, à medida que nos alcança a velhice,

Fortuitamente denuncia a pressão da atmosfera.

O lépido mercúrio, antes que nos apercebamos,

Resvala para baixo na escada elástica do ar;

O sangue que se faz notar nas artérias e veias

Desce dos seus níveis mais elevados no cérebro;

Digam o que digam o poeta, o orador ou o sábio

Sobre a velhice, ela, em seu fardo, inda é velhice.

Não é a lua crescente, senão a lua minguante;

É o arrebol vespertino, não o fulgor do zênite;

Não é o vigor, mas a languidez; não o desejo,

Mas o seu cessar; não o calor abrasador do fogo,

O elemento que a tudo incinera e consome,

Senão o que está nas cinzas e nas brasas gastas,

Nas quais ainda discernimos algumas faíscas vivas,

Suficientes para aquecer, mas não para queimar.

 

E então? Vamos ociosamente nos sentar e dizer

Que a noite chegou; que já não é mais dia?

A noite ainda não chegou; não estamos de todo

Afastados do trabalho pela luz que se esvai;

Ainda nos resta algo a empreender ou ousar;

Até a árvore mais velha pode dar algum fruto;

Não o “Édipo em Colono” ou a “Ode Grega”, (3)

Nem os contos de peregrinos que, certa manhã,

Saíram a cavalo pelo portão da Pousada Tabardo, (4)

Mas outra coisa, se ao menos começássemos;

Pois a idade é uma oportunidade, não menos

Que a própria juventude, embora noutra veste.

E à medida que o arrebol vespertino se esvanece

O céu se enche de estrelas, invisíveis à luz do dia.

 

Notas:

 

(1). Morituri Salutamus: “Os que vão morrer, vos saúdam”; trata-se de um dito que era proferido por gladiadores e condenados antes dos combates na arena romana, dirigindo-se ao imperador ou à plateia.

 

(2) “O tempo passa e envelhecemos silenciosamente com os anos; os dias voam sem que haja freio que os detenha”. Ovídio, Os Fastos, Livro VI.

 

(3). “Édipo em Colono”, uma das peças da trilogia tebana, a exemplo de “Édipo-Rei” – mencionada pelo poeta –, ambas de autoria do dramaturgo grego Sófocles; quanto à “Ode Grega”, presumo tratar-se da “Ode a uma Urna Grega”, do inglês John Keats.

 

(4). Os versos dizem respeito a uma passagem dos “Contos da Cantuária”, do inglês Geoffrey Chaucer: o Tabardo era uma hospedaria ou estalagem no distrito de Southwark, em Londres, famosa por acomodar pessoas que faziam a peregrinação ao santuário construído na capela central da Catedral da Cantuária.

 

Referência:

 

LONGFELLOW, Henry W. Morituri Salutamus (Final Excerpt). In: __________. The complete poetical works of Henry Wadsworth Longfellow. Cambridge Edition by Horace E. Scudder. Boston (MA); New York (NY): Houghton, Mifflin & Co., 1893. p. 313-314.

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