Nestas três últimas
estrofes de “Morituri Salutamus”, Longfellow nos oferece um hino à resiliência
do espírito humano e ao contínuo potencial que se tem no transcorrer da vida,
inclusive em sua etapa final – a velhice –, aqui reexaminada não sob o ponto de
vista de uma incapacidade forçada, vivenciada sob o peso da resignação, mas
como uma fase ainda profícua, durante a qual se pode ir ao encontro da beleza,
expressando criatividade e afinidade com valores mais elevados.
É um chamado para se
ter atitude e dignidade diante do crepúsculo da existência, sem deixar de
reconhecer os achaques e as perdas que os anos nos impingem: sabedoria,
serenidade e reflexões mais ponderadas vão a par com as contribuições que se
podem oferecer, em gratidão, por termos tido a oportunidade de testemunhar e de
contribuir para o espetáculo da vida, até o último clarão.
J.A.R. – H.C.
Henry W. Longfellow
(1807-1882)
Morituri Salutamus:
Poem for the Fiftieth
Anniversary of the
Class of 1825
in Bowdoin College
Tempora labuntur,
tacitisque senescimus annis,
Et fugiunt freno non
remorante dies.
Ovid, Fastorum, Lib. VI.
(Final Excerpt)
But why, you ask me, should this tale be told
To men grown old, or who are growing old?
It is too late! Ah, nothing is too late
Till the tired heart shall cease to palpitate.
Cato learned Greek at eighty; Sophocles
Wrote his grand Oedipus, and Simonides
Bore off the prize of verse from his compeers,
When each had numbered more than fourscore years,
And Theophrastus, at fourscore and ten,
Had but begun his “Characters of Men”.
Chaucer, at Woodstock with the nightingales,
At sixty wrote the Canterbury Tales;
Goethe at Weimar, toiling to the last,
Completed Faust when eighty years were past.
These are indeed exceptions; but they show
How far the gulf-stream of our youth may flow
Into the arctic regions of our lives,
Where little else than life itself survives.
As the barometer
foretells the storm
While still the skies
are clear, the weather warm
So something in us,
as old age draws near,
Betrays the pressure
of the atmosphere.
The nimble mercury,
ere we are aware,
Descends the elastic
ladder of the air;
The telltale blood in
artery and vein
Sinks from its higher
levels in the brain;
Whatever poet, orator,
or sage
May say of it, old
age is still old age.
It is the waning, not
the crescent moon;
The dusk of evening,
not the blaze of noon;
It is not strength,
but weakness; not desire,
But its surcease; not
the fierce heat of fire,
The burning and
consuming element,
But that of ashes and
of embers spent,
In which some living
sparks we still discern,
Enough to warm, but
not enough to burn.
What then? Shall we
sit idly down and say
The night hath come;
it is no longer day?
The night hath not
yet come; we are not quite
Cut off from labor by
the failing light;
Something remains for
us to do or dare;
Even the oldest tree
some fruit may bear;
Not Oedipus Coloneus,
or Greek Ode,
Or tales of pilgrims
that one morning rode
Out of the gateway of
the Tabard Inn,
But other something,
would we but begin;
For age is
opportunity no less
Than youth itself,
though in another dress,
And as the evening
twilight fades away
The sky is filled
with stars, invisible by day.
A mesa redonda de Frederico
II, em Sanssouci
(Adolph von Menzel:
pintor alemão)
Morituri Salutamus (1): Poema para o
quinquagésimo
aniversário da turma
de 1825
no Bowdoin College
Tempora labuntur,
tacitisque senescimus annis,
Et fugiunt freno non
remorante dies.
Ovid, Fastorum, Lib. VI. (2)
(Excerto Final)
Mas por que,
perguntam-me, contar esta história
A homens já velhos ou
que estão a envelhecer?
É demasiado tarde!
Ah, nada é demasiado tarde
Até que o coração
cansado deixe de palpitar.
Catão aprendeu grego
aos oitenta; Sófocles
Escreveu seu
grandioso Édipo, e Simônides
Ganhou o prêmio de
poesia de seus pares,
Quando cada um já
tinha passado dos oitenta,
E Teofrasto, uma
década além dos oitenta,
Mal havia começado
seus “Caracteres Morais”.
Chaucer, em Woodstock
entre os rouxinóis,
Aos sessenta,
escreveu os Contos da Cantuária;
Goethe em Weimar, trabalhando
até o fim,
Completou Fausto já
transcorridos os oitenta.
Estas são, de fato,
exceções; mas que revelam
Até que ponto a
corrente do golfo da juventude
Pode fluir para as
regiões árticas de nossas vidas,
Onde pouco mais que a
própria vida sobrevive.
Como o barômetro, ao
pressagiar tempestade
Sob um céu ainda límpido
a tórrida temperatura,
Algo em nós, à medida
que nos alcança a velhice,
Fortuitamente denuncia
a pressão da atmosfera.
O lépido mercúrio,
antes que nos apercebamos,
Resvala para baixo na
escada elástica do ar;
O sangue que se faz
notar nas artérias e veias
Desce dos seus níveis
mais elevados no cérebro;
Digam o que digam o
poeta, o orador ou o sábio
Sobre a velhice, ela,
em seu fardo, inda é velhice.
Não é a lua
crescente, senão a lua minguante;
É o arrebol vespertino,
não o fulgor do zênite;
Não é o vigor, mas a
languidez; não o desejo,
Mas o seu cessar; não
o calor abrasador do fogo,
O elemento que a tudo
incinera e consome,
Senão o que está nas
cinzas e nas brasas gastas,
Nas quais ainda
discernimos algumas faíscas vivas,
Suficientes para
aquecer, mas não para queimar.
E então? Vamos
ociosamente nos sentar e dizer
Que a noite chegou;
que já não é mais dia?
A noite ainda não
chegou; não estamos de todo
Afastados do trabalho
pela luz que se esvai;
Ainda nos resta algo
a empreender ou ousar;
Até a árvore mais
velha pode dar algum fruto;
Não o “Édipo em
Colono” ou a “Ode Grega”, (3)
Nem os contos de
peregrinos que, certa manhã,
Saíram a cavalo pelo
portão da Pousada Tabardo, (4)
Mas outra coisa, se
ao menos começássemos;
Pois a idade é uma
oportunidade, não menos
Que a própria
juventude, embora noutra veste.
E à medida que o arrebol
vespertino se esvanece
O céu se enche de
estrelas, invisíveis à luz do dia.
Notas:
(1). Morituri
Salutamus: “Os que vão morrer, vos saúdam”; trata-se de um dito que era
proferido por gladiadores e condenados antes dos combates na arena romana,
dirigindo-se ao imperador ou à plateia.
(2) “O tempo passa e
envelhecemos silenciosamente com os anos; os dias voam sem que haja freio que
os detenha”. Ovídio, Os Fastos, Livro VI.
(3). “Édipo em
Colono”, uma das peças da trilogia tebana, a exemplo de “Édipo-Rei” –
mencionada pelo poeta –, ambas de autoria do dramaturgo grego Sófocles; quanto
à “Ode Grega”, presumo tratar-se da “Ode a uma Urna Grega”, do inglês John Keats.
(4). Os versos dizem
respeito a uma passagem dos “Contos da Cantuária”, do inglês Geoffrey Chaucer:
o Tabardo era uma hospedaria ou estalagem no distrito de Southwark, em Londres,
famosa por acomodar pessoas que faziam a peregrinação ao santuário construído
na capela central da Catedral da Cantuária.
Referência:
LONGFELLOW, Henry W. Morituri Salutamus (Final Excerpt). In: __________. The complete poetical works of Henry Wadsworth Longfellow. Cambridge Edition by Horace E. Scudder. Boston (MA); New York (NY): Houghton, Mifflin & Co., 1893. p. 313-314.
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