Alpes Literários

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UM PASSEIO PELOS ALPES LITERÁRIOS

domingo, 12 de julho de 2026

Eugenio Montale - Ao amanhecer

Empregando certa ironia num tom coloquial, o Nobel italiano expressa a sua visão desencantada sobre a vaidade da pretensão de imortalidade por parte de poetas e escritores, contrastando-a com a certeza instintiva da vida presente e a indiferença absoluta do mundo, nestas linhas representadas pela simplicidade existencial de um papa-figos – espécie de ave migratória, a servir de metáfora para a transitoriedade de todas as coisas –, e pelo ceticismo e dúvidas sistemáticas do filósofo – cujas luzes intelectivas não lhe dão, de modo algum, a segurança acerca das aludidas aspirações de glória perdurável.

 

Sob tal linha de raciocínio antiantropocêntrica, o título atribuído pelo poeta ao poema (“All’alba” / “Ao amanhecer”) ganha contornos mais desembaraçados: ou bem se refere a uma revelação fria e desapiedada sobre a condição humana e a sua insignificância na escala cósmica, ou bem sugere que a consciência dessa indiferença universal equivale a um despertar sobre a verdadeira realidade em que todos estamos imersos, por mais molesta que seja.

 

J.A.R. – H.C.

 

Eugenio Montale

(1896-1981)

 

All’alba

 

Lo scrittore suppone (e del poeta

non si parli nemmeno)

che morto lui le sue opere

lo rendano immortale.

L’ipotesi non è peregrina,

ve la do per quel che vale.

Nulla di simile penso nel beccafico

che consuma il suo breakfast giù nell’orto.

Egli è certo di vivere; il filosofo

che vive a pianterreno

ha invece più di un dubbio. Il mondo può

fare a meno di tutto, anche di sé.

 

In: “Altri versi” (1981)

 

Um papa-figos se alimentando

(Imagem sem créditos)

 

Ao amanhecer

 

O escritor supõe (e do poeta

nem sequer falemos)

que depois de morto suas obras

o tornem imortal.

A hipótese não é peregrina,

dou-a a vós pelo que vale.

Nada de similar penso acerca do papa-figos

a degustar o seu breakfast ali no pomar. (*)

Ele está certo de viver; o filósofo

que vive no rés do chão,

ao contrário, tem mais de uma dúvida. O mundo pode

prescindir de tudo, até de si mesmo.

 

Em: “Outros versos” (1981)

 

Nota:

 

(*). Breakfeast: palavra em inglês que significa “café da manhã”, “pequeno almoço” ou “desjejum”.

 

Referência:

 

MONTALE, Eugenio. All’alba. In: __________. Tutte le poesie. A cura di Giorgio Zampa. I ed. Milano, IT: Arnoldo Mondadori Editore, ott.1990. p. 688. (“Grandi Classici Oscar Mondadori”)

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