A voz lírica emite,
num grito desesperado, os seus mais ardentes intentos de se conectar com Deus –
talvez, com o Amor Absoluto ou mesmo a Verdade –, mediante esta que é, nada
obstante, uma confrontação honesta e crua com as dificuldades da fé, em um mundo
onde a presença divina parece-lhe nada tangível, longe de ser colmatada pelo
conhecimento racional ou pela arte.
No coração do poema
jaz a ideia de que a verdadeira conexão não se encontra na abstração ou na
evidência, mas no “ato de sangrar”, de entregar-se por completo à busca, pouco
importando o resultado: a solidão resulta ser o preço da consciência, quer esta
aponte para a existência de um ser superior, quer para a sua ausência.
J.A.R. – H.C.
Hilda Hilst
(1930-2004)
Estou sozinha se
penso que tu existes
Estou sozinha se
penso que tu existes.
Não tenho dados de
ti, nem tenho tua vizinhança.
E igualmente sozinha
se tu não existes.
De que me adiantam
Poemas ou narrativas
buscando
Aquilo, que se não é,
não existe
Ou se existe, então
se esconde
Em sumidouros e
cimos, nomenclaturas
Naquelas não
evidências
Da matemática pura? É
preciso conhecer
Com precisão para
amar? Não te conheço.
Só sei que desmereço
se não sangro.
Só sei que fico
afastada
De uns fios de
conhecimento, se não tento.
Estou sozinha, meu
Deus, se te penso.
Em: “Poemas malditos, gozosos e devotos”, XII (1984)
Pense em Deus
(Hugues Merle: pintor
francês)
Referência:
HILST, Hilda. XII: Estou
sozinha se penso que tu existes. In: __________. Da poesia. 1. ed. São
Paulo, SP: Companhia das Letras, 2017. p. 417.
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