Williams não se
esquiva ao mister de tocar a face do horror que sentimos diante do sofrimento
alheio – animal ou humano –, tampouco a desnudar a sombra da crueldade que
habita em cada um de nós: ao explorar a complexa relação entre dor, memória e
impotência, o poeta, numa tentativa de “corrigir todos os males”, busca afirmar
o poder da arte – digo melhor, da poesia – para levar a humanidade a suplantar a
sua própria natureza animal.
A voz lírica admira a
forma como René Char (1907-1988) – um poeta da resistência francesa –, tendo
testemunhado os horrores da guerra, escolheu escrever sobre a beleza da
natureza – rios, narcisos, tulipas –, decerto à procura de um salvatério diante
da crueldade do mundo, da nossa própria brutalidade, para desse modo difundir a
beleza não como uma forma de escape ou de fuga à realidade, mas como uma
afirmação da vida contra a destruição e a morte.
J.A.R. – H.C.
William Carlos
Williams
(1883-1963)
To a Dog Injured in
the Street
It is myself,
not the poor beast
lying there
yelping with pain
that brings me to
myself with a start –
as at the explosion
of a bomb, a bomb
that has laid
all the world waste.
I can do nothing
but sing about it
and so I am assuaged
from my pain.
A drowsy numbness
drowns my sense
as if of hemlock
I had drunk. I think
of the poetry
of René Char
and all he must have
seen
and suffered
that has brought him
to speak only of
sedgy rivers,
of daffodils and
tulips
whose roots they
water,
even to the
free-flowing river
that laves the
rootlets
of those
sweet-scented flowers
that people the
milky
way.
I remember Norma
our English setter of
my childhood
her silky ears
and expressive eyes.
She had a litter
of pups one night
in our pantry and I
kicked
one of them
thinking, in my
alarm,
that they
were biting her
breasts
to destroy her.
I remember also
a dead rabbit
lying harmlessly
on the outspread palm
of a hunter’s hand.
As I stood by
watching
he took a hunting
knife
and with a laugh
thrust it
up into the animal’s
private parts.
I almost fainted.
Why should I think of
that now?
The cries of a dying
dog
are to be blotted out
as best I can.
René Char
you are a poet who
believes
in the power of
beauty
to right all wrongs.
I believe it also.
With invention and
courage
we shall surpass
the pitiful dumb
beasts,
let all men believe
it,
as you have taught me
also
to believe it.
In: “The Desert
Music” (1954)
Cão Ferido
(Frans Snyders:
pintor belga)
A um Cão Ferido na
Rua
Sou eu mesmo
não o pobre animal
ali estirado
a uivar de dor
que me devolve a mim
mesmo com um sobressalto –
como na explosão
de uma bomba, uma
bomba
que devastasse todo o
mundo.
Nada posso fazer
senão consignar em
versos o incidente
para assim mitigar
a minha dor.
Um torpor letárgico
afoga os meus sentidos
como se eu tivesse
bebido cicuta. Penso
na poesia
de René Char
e em tudo o que ele
deve ter visto
e sofrido
que o levou
a falar apenas de
rios cheios de
juncos,
de narcisos e de tulipas
cujas raízes são por
eles regadas,
até mesmo do rio que
corre livremente
e banha as radículas
daquelas flores de
doce perfume
que povoam
a Via
Láctea.
Lembro-me de Norma
a nossa setter
inglesa da minha infância
com as suas orelhas
sedosas
e olhos expressivos.
Certa noite ela deu à
luz
uma ninhada de
cãozinhos
em nossa despensa e
eu desferi um pontapé
num deles
pensando, alarmado,
que estavam
a morder-lhe os seios
para a destroçar.
Lembro-me também
de um coelho morto
que jazia inofensivo
na palma estendida
da mão de um caçador.
Enquanto eu ali
estava
a observar
ele pegou a sua faca
de caça
e a gargalhar
espetou-a
nas partes íntimas do
animal.
Quase desmaiei.
Por que me irromperiam
tais memórias agora?
Os uivos de um cão
moribundo
devem ser abafados
como melhor me for possível.
René Char,
és um poeta que
acredita
no poder da beleza
para corrigir todos
os males.
Nisso eu também
acredito.
Com engenho e coragem
haveremos de superar
os pobres e limitados
animais:
que todos os homens assim
o acreditem,
como também me
ensinaste
a acreditar.
Em: “A Música do
Deserto” (1954)
Referência:
WILLIAMS, William Carlos. To a dog injured in the street. In: __________. The collected poems of William Carlos Williams. Volume I: 1909-1939. Edited by A. Walton Litz and Christopher MacGowan. 9th print. New York, NY: New Directions, 1991. p. 255-256.
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