Alpes Literários

Alpes Literários

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UM PASSEIO PELOS ALPES LITERÁRIOS

segunda-feira, 5 de novembro de 2018

Carlos Barral - Extravio de Horas

Horas desencaminhadas que fazem dissipar o verbo na acronia, vale dizer, sem se definir um enredo que demarque o tempo de forma mais nítida no romance que vem à tona: nitidamente o poeta projeta invectivas em direção a certos padrões de obras literárias que pouco se detêm em orientar o leitor no curso do tempo, deixando-o à deriva como um náufrago em alto mar.

As imagens empregadas pelo poeta permitem entrever a escuridão em que se emerge, sem chances de lá sair – como se, num labirinto, deixássemos de contar com um fio de Ariadne –, quando o autor destroça a carruagem do sol, fazendo desaparecer a nitidez do estilo, a clareza de ideias e a linha temporal necessária para amalgamar a trama das histórias novelescas.

J.A.R. – H.C.

Carlos Barral
(1928-1989)

Extravío de Horas

Haber perdido el tiempo, seriamente,
haciendo vagas cosas rituales
majaderas, nerviosas como muecas
que miman en la historia o desvanecen
el verbo en la acronía.

Como siglos
de cristal instantáneo, ricas horas
lentísimas, quemadas mientras hunda
el sol triste sus barbas luminosas
en el quieto almanaque de las sombras
o tumben sus caballos
los despojos del carro, el bronce ardiente
del eje y de la lanza ya sin ruedas
y ese viento de púrpura. Y quedemos
azogados y absortos
bajo el vuelo obscurísimo del tiempo.

Apolo raptando Cirene
(Frederick A. Bridgman: pintor norte-americano)

Extravio de Horas

Ter desperdiçado tempo, seriamente,
fazendo vagas coisas rituais
tolas, nervosas como caretas
que comprometem a história ou desvanecem
o verbo na acronia.

Como séculos
de cristal instantâneo, ricas horas
lentíssimas, queimadas enquanto o sol
triste afunda suas barbas luminosas
no quieto almanaque das sombras
ou seus cavalos tombem
os despojos da carruagem, o bronze ardente
do eixo e da lança já sem rodas
e esse vento de púrpura. E fiquemos
agitados e absortos
sob o voo obscuríssimo do tempo.

Referência:

BARRAL, Carlos. Extravío de horas. In: CASANOVA, José Francisco Ruiz (Selección y introducción). Antología cátedra de poesía de las letras hispánicas. 11. ed. Madrid, ES: Ediciones Cátedra (Grupo Anaya S.A.), 2014. p. 1045.
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domingo, 4 de novembro de 2018

Jakob van Hoddis - Fim do mundo

Hoddis descreve as suas escatológicas previsões sobre o desfecho deste mundo: de comum com a maioria dos vaticínios, apenas as cenas envolvendo tempestades e enchentes que rompem barragens, embora nada se compare às insólitas imagens do Apocalipse bíblico!

Medos irracionais pela perspectiva de que cometas ou planetas possam colidir contra a terra – a exemplo das cenas finais do filme “Melancolia” (2011), de Lars von Trier –, são muito mais “aceitáveis” como fatalidades catastróficas para a humanidade. Mas o poeta resolve lançar ironias sobre aqueles que preveem o pior: todas as pessoas serão assoladas por coriza! O que dizer?!...

J.A.R. – H.C.

Jakob van Hoddis
(1887-1942)

Weltende

Dem Bürger fliegt vom spitzen Kopf der Hut,
In allen Lüften hallt es wie Geschrei,
Dachdecker stürzen ab und gehn entzwei
Und an den Küsten – liest man – steigt die Flut.

Der Sturm ist da, die wilden Meere hupfen
An Land, um dicke Dämme zu zerdrücken.
Die meisten Menschen haben einen Schnupfen.
Die Eisenbahnen fallen von den Brücken.

(1911)

No fim do mundo
(Pawel Kosior: pintor escocês)

Fim do mundo

O chapéu voa da cabeça do cidadão,
Em todos os ares retumba-se gritaria.
Caem os telhadores e se despedaçam
E nas costas – lê-se – sobe a maré.

A tempestade chegou, saltam à terra
Mares selvagens que esmagam largos diques.
A maioria das pessoas tem coriza.
Os trens precipitam-se das pontes.

(1911)

Referência:

HODDIS, Jakob von. Weltende / Fim do mundo. Tradução de Claudia Cavalcanti. In: BECHER, Johannes R. et al. Poesia expressionista alemã: uma antologia. Organização e tradução de Claudia Cavalcanti. Edição bilíngue ilustrada. São Paulo, SP: Estação Liberdade, 2000. Em alemão: p. 118; em português: p. 119.
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sábado, 3 de novembro de 2018

Carlos Drummond de Andrade: Igual - Desigual

Embora o poeta já desconfiasse há algum tempo, apenas no momento em que redigiu este poema foi que concluiu que tudo quanto existe no mundo se repete com desenvoltura enfadonha, inclusive – enfatize-se – as formas fixas costumeiramente empregadas para fazer poemas: sonetos, gazéis, virelais, sextinas e rondós.

Mas a par dessa planura repetitiva, Drummond vê diferenças substanciais entre os homens, bichos ou coisas – neste caso, suponho que enquanto vivas, seres sencientes a ostentarem o seu estado natural: “todo ser humano é um estranho ímpar”. Mas perceba-se a diferença, quando o poeta afirma algo sobre as mulheres: “Todas as mulheres ‘que andam na moda’ são iguais” (acentos meus). De outra parte, conheço mulheres que, para contrabalançar, reiteram aos quatro ventos, também com indistinção: “Todos os homens ‘em matéria de sexo’ são iguais”!...

J.A.R. – H.C.

Carlos Drummond de Andrade
(1902-1987)

Igual - Desigual

Eu desconfiava:
todas as histórias em quadrinho são iguais.
Todos os filmes norte-americanos são iguais.
Todos os filmes de todos os países são iguais.
Todos os best-sellers são iguais.
Todos os campeonatos nacionais e internacionais
de futebol são iguais.
Todas as mulheres que andam na moda
são iguais.
Todos os partidos políticos
são iguais.
Todas as experiências de sexo
são iguais.
Todos os sonetos, gazéis, virelais, sextinas e rondós são
iguais
e todos, todos
os poemas em verso livre são enfadonhamente iguais.
Todas as guerras do mundo são iguais.
Todas as fomes são iguais.
Todos os amores, iguais, iguais, iguais.
Iguais todos os rompimentos.
A morte é igualíssima.
Todas as criações da natureza são iguais.
Todas as ações, cruéis, piedosas ou indiferentes, são
iguais.
Contudo, o homem não é igual a nenhum outro
homem,
bicho ou coisa.
Ninguém é igual a ninguém.
Todo ser humano é um estranho
ímpar.

Teseu e Ariadne
(Yevgenia Nayberg: artista ucraniana)

Referência:

ANDRADE, Carlos Drummond de. Igual - Desigual. In: __________. Literatura comentada. 2. ed. São Paulo, SP: Nova Cultural, 1988. p. 144-145.
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sexta-feira, 2 de novembro de 2018

Francisco Brines - Métodos de conhecimento

Brines descreve, em cenas marcantes, o método de conhecimento da poética (ou melhor, de ‘sua’ poética), uma espécie de libação capaz de levar às últimas consequências a experiência de expor ao mundo o que de mais fundo há no ser humano, em incursão que, primando pelo descortino, muito se aproxima do limiar da morte.

O poema, claro, faz ressurgir imagens que se assemelham às do poema de Byron – “Lines Inscribed Upon a Cup Formed from a Skull” (“Uma taça feita de um crânio humano”) –, embora com muito mais drasticidade, dadas as emoções que afloram à mente do espanhol, agora já reconfiguradas pelo pungente exercício intelectivo.

J.A.R. – H.C.

Francisco Brines
(n. 1932)

Métodos de conocimiento

En el cansancio de la noche,
penetrando la más oscura música,
he recobrado tras mis ojos ciegos
el frágil testimonio de una escena remota.

Olía el mar, y el alba era ladrona
de los cielos; tornaba fantasmales
las luces de la casa.
Los comensales eran jóvenes, y ahítos
y sin sed, en el naufragio del banquete,
buscaban la ebriedad
y el pintado cortejo de alegría. El vino
desbordaba las copas, sonrosaba
la acalorada piel, enrojecía el suelo.
En generoso amor sus pechos desataron
a la furiosa luz, la carne, la palabra,
y no les importaba después no recordar.
Algún puñal fallido buscaba un corazón.

Yo alcé también mi copa, la más leve,
hasta los bordes llena de cenizas:
huesos conjuntos de halcón y ballestero,
y allí bebí, sin sed, dos experiencias muertas.
Mi corazón se serenó, y un inocente niño
me cubrió la cabeza con gorro de demente.

Fijé mis ojos lúcidos
en quien supo escoger con tino más certero:
aquel que en un rincón, dando a todo la espalda,
llevó a sus frescos labios
una taza de barro con veneno.
Y brindando a la nada
se apresuró en las sombras.

O Retorno de Orestes
(Anton von Maron: pintor austríaco)

Métodos de conhecimento

No cansaço da noite,
penetrando a mais sombria música,
recuperei por trás de meus olhos cegos
o frágil testemunho de uma cena remota.

O mar recendia, e a aurora era a ladra
dos céus; tornava fantasmais
as luzes da casa.
Jovens eram os comensais, e saciados
e sem sede; no naufrágio do banquete,
buscavam a ebriedade
e o cortejo variegado da alegria. O vinho
transbordava as taças, corava
a acalorada pele, avermelhava o solo.
Em generoso amor, eles desataram os peitos,
a carne, a palavra à furiosa luz,
e não lhes importava não recordar depois.
Algum punhal sem êxito um coração buscava.

Levantei também minha taça, a mais leve,
cheia de cinzas até as bordas:
ossos conjuntos de falcão e de arqueiro,
e ali bebi, sem sede, duas experiências mortas.
Meu coração serenou, e um inocente menino
cobriu-me a cabeça com gorro de demente.

Fixei meus olhos lúcidos
em quem soube escolher com tino mais certeiro:
aquele que, num canto, dando as costas para tudo,
levou a seus frescos lábios
uma chávena de barro com veneno.
E sem nada brindar
se precipitou nas sombras.

Referência:

BRINES, Francisco. Métodos de conocimiento. In: __________. Antología poética. Selección y prólogo de José Olivio Jiménez. Madrid, ES: Alianza Editorial, 1986. p. 116-117. (“Sección: Literatura”; “El Libro de Bolsillo”; LB 1190)
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quinta-feira, 1 de novembro de 2018

François Coppée - Novembro


Apesar disso, compara-se a uma toutinegra sob a chuva, a revelar tristeza em seus belos olhos: não sem motivo, Coppée escolhe a toutinegra como objeto de metáfora, em razão de tratar-se de uma ave essencialmente sedentária, com raras incursões de maior vastidão – assim como se reportam os versos da derradeira estrofe do poema.

J.A.R. – H.C.

François Coppée
(1842-1908)

Novembre

Captif de l’hiver dans ma chambre
Et las de tant d’espoirs menteurs,
Je vois dans un ciel de novembre,
Partir les derniers migrateurs.

Ils souffrent bien sous cette pluie;
Mais, au pays ensoleillé,
Je songe qu’un rayon essuie
Et réchauffe l’oiseau mouillé.

Mon âme est comme une fauvette
Triste sous un ciel pluvieux;
Le soleil dont sa joie est faite
Est le regard de deux beaux yeux;

Mais loin d’eux elle est exilée;
Et, plus que ces oiseaux, martyr,
Je ne puis prendre ma volée
Et n’ai pas le droit de partir.

Migração dos Pássaros no Outono
(Ginette Callaway: pintora francesa)

Novembro

Vejo, presa do inverno, em minha câmara,
Para terras distantes,
Pelos céus de novembro irem os pássaros,
– Últimos imigrantes.

Vão, das chuvas cortando as grossas bátegas
Vão..., noutros céus azuis,
Há de enxugar-lhes a plumagem úmida
Outro sol, outra luz.

Sou como a toutinegra fria e trêmula
Sob um clima pluvioso,
E um sol apenas rutilando alegra-me:
– Seu olhar amoroso!

Pior que as aves, sou no exílio vítima
De mais duro penar,
Pois não tenho direito como os pássaros
De voar... de voar...

(19 de maio de 1881)

Referência:

COPPÉE, François. Novembre / Novembro. Tradução de Raimundo Correia e Valentim Magalhães. In: ‎‎__________. Poesias completas de Raimundo Correia. Vol. ‎‎II. Organização, ‎prefácio e notas de Múcio Leão. São Paulo, SP: Companhia Editora Nacional, ‎‎1948. Em francês: p. 454-455; em português: p. 380.
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