Alpes Literários

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UM PASSEIO PELOS ALPES LITERÁRIOS

quarta-feira, 1 de abril de 2026

Sophia de Mello Breyner Andresen - Cidade

A poetisa portuguesa nos apresenta um contraste entre a vida na urbe – caracterizada como limitante e opressiva, com seus ruídos contínuos e azáfamas – e a vastidão irresistível da natureza – a manifestar liberdade em seu estado pleno –, para com isso nos fazer ver o quanto estamos presos à rigidez e à artificialidade dos sítios da grande cidade, que nos submetem a um involuntário cativeiro emocional e existencial.

 

Andresen expande os sentidos do leitor por meio de imagens alusivas ao “mar e suas praias nuas”, às “montanhas sem nome e planícies mais vastas que o mais vasto desejo”, enfatizando os traços de um mundo cheio de possibilidades, belezas e expectativas – muito distintamente, claro está, do que nos propõe a dinâmica implacável e ardilosa dos distritos citadinos.

 

J.A.R. – H.C.

 

Sophia de M. B. Andresen

(1919-2004)

 

Cidade

 

Cidade, rumor e vaivém sem paz das ruas,

Ó vida suja, hostil, inutilmente gasta,

Saber que existe o mar e as praias nuas,

Montanhas sem nome e planícies mais vastas

Que o mais vasto desejo,

E eu estou em ti fechada e apenas vejo

Os muros e as paredes, e não vejo

Nem o crescer do mar, nem o mudar das luas.

 

Saber que tomas em ti a minha vida

E que arrastas pela sombra das paredes

A minha alma que fora prometida

Às ondas brancas e às florestas verdes.

 

Em: “Poesia” (1944)

 

Café Pastel de Belém

(Elena Petrova Gancheva: artista búlgara)

 

Referência:

 

ANDRESEN, Sophia de Mello Breyner. Cidade. In: __________. Obra poética. Prefácio de Maria Andresen Sousa Tavares. 1. ed. Rio de Janeiro, RJ: Tinta-da-china Brasil, 2018. p. 78. (Coleção “Grandes Escritores Portugueses”)

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