Bastante
característico da visão evolutiva e suprarracional do iogue e poeta indiano, o
poema abaixo explora a tensão fundamental entre a realidade material percebida
pelos sentidos – assente na insuficiência da “escória acumulada” pela humanidade
em séculos de existência –, e uma outra realidade divina, transcendente e ainda
no porvir.
O poeta preconiza a renúncia
aos apegos e aos valores puramente terrenais, para que se possa galgar o nível de
mente vocacionada ao conhecimento “daquelas harmonias ainda não imaginadas”, e
daí seguir em progressão espiritual conjunta com os pares. Nesse plano, não se
trata, por óbvio, de predicar-se uma forma de escapar ao mundo, mas sim de transformá-lo
radicalmente – e à própria consciência humana.
Ter-se-ia, então, um
futuro onde a Terra passaria deste lugar de dificuldades, sofrimentos e
aparente fealdade, a um outro de sublime beleza, estremado por fenômenos muito
mais portentosos do que o do lodo que dá vida à rosa, a revelarem os milagres da
divindade plenamente realizada.
J.A.R. – H.C.
Aurobindo Akroyd
Ghosh
(1872-1950)
The Silver Call
There is a godhead of
unrealised things
To which Time’s splendid
gains are hoarded dross;
A cry seems near, a
rustle of silver wings
Calling to heavenly
joy by earthly loss.
All eye has seen and
all the ear has heard
Is a pale illusion by
some greater voice
And mightier vision;
no sweet sound or word,
No passion of hues
that make the heart rejoice
Can equal those
diviner ecstasies.
A Mind beyond our
mind has sole the ken
Of those yet
unimagined harmonies,
The fate and
privilege of unborn men.
As rain-thrashed mire
the marvel of the rose,
Earth waits that distant
marvel to disclose.
From: “Sonnets”
(1930-1950)
O alvorecer da
iluminação
(John Pitre: pintor
norte-americano)
O Chamamento de Prata
Divinas coisas há não
realizadas
Em sublimes ganhos de
tempo acumulado;
Um grito parece
próximo, um bater de asas prateado
Chamando alegrias
celestes pela terra arruinadas.
Todos os olhos viram
e todo o ouvido escutou
É uma pálida ilusão
por alguma voz elevada
Nenhum som ou doce
palavra e visão tão empossada,
Nem paixão de cores
no coração se alegrou.
Podem estes divinos
êxtases igualar.
Uma Mente além da
nossa com o único saber
Dessas harmonias
ainda por ver,
O destino e
privilégio dos que estão por se formar.
Enquanto a chuva se
esbate na esplêndida rosa,
A terra espera aquela
longínqua maravilha para revelar.
Em: “Sonetos”
(1930-1950)
Referências:
Em Inglês
AUROBINDO, Sri. The silver
call. In: __________. Collected poems. 1. ed., 1st impr. Pondicherry,
IN: Sri Aurobindo Ashram Press, 1994. p. 135.
Em Português
GHOSH, Aurobindo
Akroyd. O chamamento de prata. Tradução de José Carlos Calazans. In:
BUESCU, Helena Carvalhão; VALENTE, Simão (Coords.). Literatura-mundo
comparada: perspectivas em português. Parte III - Pelo Tejo vai-se pelo
mundo (vol. 6). 1. ed. Lisboa, PT: Edições tinta-da-china, mai. 2020. p. 78.
❁


Nenhum comentário:
Postar um comentário