Alpes Literários

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UM PASSEIO PELOS ALPES LITERÁRIOS

terça-feira, 28 de abril de 2026

Aurobindo Akroyd Ghosh - O Chamamento de Prata

Bastante característico da visão evolutiva e suprarracional do iogue e poeta indiano, o poema abaixo explora a tensão fundamental entre a realidade material percebida pelos sentidos – assente na insuficiência da “escória acumulada” pela humanidade em séculos de existência –, e uma outra realidade divina, transcendente e ainda no porvir.

 

O poeta preconiza a renúncia aos apegos e aos valores puramente terrenais, para que se possa galgar o nível de mente vocacionada ao conhecimento “daquelas harmonias ainda não imaginadas”, e daí seguir em progressão espiritual conjunta com os pares. Nesse plano, não se trata, por óbvio, de predicar-se uma forma de escapar ao mundo, mas sim de transformá-lo radicalmente – e à própria consciência humana.

 

Ter-se-ia, então, um futuro onde a Terra passaria deste lugar de dificuldades, sofrimentos e aparente fealdade, a um outro de sublime beleza, estremado por fenômenos muito mais portentosos do que o do lodo que dá vida à rosa, a revelarem os milagres da divindade plenamente realizada.

 

J.A.R. – H.C.

 

Aurobindo Akroyd Ghosh

(1872-1950)

 

The Silver Call

 

There is a godhead of unrealised things

To which Time’s splendid gains are hoarded dross;

A cry seems near, a rustle of silver wings

Calling to heavenly joy by earthly loss.

 

All eye has seen and all the ear has heard

Is a pale illusion by some greater voice

And mightier vision; no sweet sound or word,

No passion of hues that make the heart rejoice

 

Can equal those diviner ecstasies.

A Mind beyond our mind has sole the ken

Of those yet unimagined harmonies,

The fate and privilege of unborn men.

 

As rain-thrashed mire the marvel of the rose,

Earth waits that distant marvel to disclose.

 

From: “Sonnets” (1930-1950)

 

O alvorecer da iluminação

(John Pitre: pintor norte-americano)

 

O Chamamento de Prata

 

Divinas coisas há não realizadas

Em sublimes ganhos de tempo acumulado;

Um grito parece próximo, um bater de asas prateado

Chamando alegrias celestes pela terra arruinadas.

 

Todos os olhos viram e todo o ouvido escutou

É uma pálida ilusão por alguma voz elevada

Nenhum som ou doce palavra e visão tão empossada,

Nem paixão de cores no coração se alegrou.

 

Podem estes divinos êxtases igualar.

Uma Mente além da nossa com o único saber

Dessas harmonias ainda por ver,

O destino e privilégio dos que estão por se formar.

 

Enquanto a chuva se esbate na esplêndida rosa,

A terra espera aquela longínqua maravilha para revelar.

 

Em: “Sonetos” (1930-1950)

 

Referências:

 

Em Inglês

 

AUROBINDO, Sri. The silver call. In: __________. Collected poems. 1. ed., 1st impr. Pondicherry, IN: Sri Aurobindo Ashram Press, 1994. p. 135.

 

Em Português

 

GHOSH, Aurobindo Akroyd. O chamamento de prata. Tradução de José Carlos Calazans. In: BUESCU, Helena Carvalhão; VALENTE, Simão (Coords.). Literatura-mundo comparada: perspectivas em português. Parte III - Pelo Tejo vai-se pelo mundo (vol. 6). 1. ed. Lisboa, PT: Edições tinta-da-china, mai. 2020. p. 78.

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