Alpes Literários

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UM PASSEIO PELOS ALPES LITERÁRIOS

segunda-feira, 20 de abril de 2026

Eduardo Galeano - Paradoxos

Galeano, escritor e jornalista uruguaio, mostra-nos como pessoas e eventos desafiam, com alguma frequência, as expectativas e as definições convencionais que se lhes atribuem, configurando paradoxos que não são apenas curiosidades históricas, mas que dizem muito em relação às contradições inerentes à política, à religião, ao comportamento humano e, até mesmo, à arte e cultura popular.

 

Num tom irônico e crítico, o autor parece zombar dos que acreditam poder compreender ou controlar o fluxo das circunstâncias, tanto mais que questões como identidade, ideologia e a crônica dos fatos estão longe de ser lineares ou lógicas, pois que continuamente sob a percussão do tilintar complexo da realidade, sempre a nos exigir olhos lúcidos para discernir, com clareza, os meios-tons existentes entre os polos de todos os enfoques que se pretendem binários.

 

J.A.R. – H.C.

 

Eduardo Galeano

(1940-2015)

 

Paradoxos

 

Se a contradição for o pulmão da história, o paradoxo deverá ser, penso eu, o espelho que a história usa para debochar de nós.

Nem o próprio filho de Deus salvou-se do paradoxo. Ele escolheu, para nascer, um deserto subtropical onde jamais nevou, mas a neve se converteu num símbolo universal do Natal desde que a Europa decidiu europeizar Jesus. E para mais inri, o nascimento de Jesus é, hoje em dia, o negócio que mais dinheiro dá aos mercadores que Jesus tinha expulsado do templo.

Napoleão Bonaparte, o mais francês dos franceses, não era francês. Não era russo Josef Stálin, o mais russo dos russos; e o mais alemão dos alemães, Adolf Hitler, tinha nascido na Áustria. Margherita Sarfatti, a mulher mais amada pelo antissemita Mussolini, era judia. José Carlos Mariátegui, o mais marxista dos marxistas latino-americanos, acreditava fervorosamente em Deus. O Che Guevara tinha sido declarado completamente incapaz para a vida militar pelo exército argentino.

Das mãos de um escultor chamado Aleijadinho, que era o mais feio dos brasileiros, nasceram as mais altas formosuras do Brasil. Os negros norte-americanos, os mais oprimidos, criaram o jazz, que é a mais livre das músicas. No fundo de um cárcere foi concebido o Dom Quixote, o mais andante dos cavaleiros. E cúmulo dos paradoxos, Dom Quixote nunca disse sua frase mais célebre. Nunca disse: Ladram, Sancho, sinal que cavalgamos.

“Acho que você está meio nervosa”, diz o histérico. “Te odeio”, diz a apaixonada. “Não haverá desvalorização”, diz, na véspera da desvalorização, o ministro da Economia. “Os militares respeitam a Constituição”, diz, na véspera do golpe de Estado, o ministro da Defesa.

Em sua guerra contra a revolução sandinista, o governo dos Estados Unidos coincidia, paradoxalmente, com o Partido Comunista da Nicarágua. E paradoxais foram, enfim, as barricadas sandinistas durante a ditadura de Somoza: as barricadas, que fechavam as ruas, abriam o caminho.

 

Sr. Paradoxo

(Loui Jover: artista servo-australiano)

 

Referência:

 

GALEANO, Eduardo. Paradoxos. Tradução de Eric Nepomuceno. In: __________. O livro dos abraços. Tradução de Eric Nepomuceno. 1. ed. L&PM Pocket, 1. reimp. Porto Alegre, RS: L&PM, jan. 2023. p. 126-127. (Coleção “L&PM Pocket”; v. 465)

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