O poeta australiano
vislumbra na queda “fina e delicada” de uma chuva o espelho do que há de mais
profundo e misterioso na condição humana, sobre a qual a linguagem jamais
consegue atinar com perfeição, restando-nos o mundo natural para nos difundir significados
que nos escapam à compreensão, enquanto pendemos entre a inércia e o movimento,
enredados no dilema de ficar ou de seguir viagem.
Sobre a fragilidade de
vida já muito se disse, sobre o inefável e o irreversível que há na ilusão da
existência, cenário ao qual Boyle sobrepõe outros tantos matizes, alusivos quer
à vulnerabilidade existencial que, vez por outra, nos atinge a todos – o sujeito
poético aí incluso –, quer à ineludível presença do desconhecido – opondo-se às
nossas vãs necessidades de racionalização e de controle –, quer até mesmo ao
tema bíblico da “vanitas vanitatum”.
J.A.R. – H.C.
Peter Boyle
(n. 1951)
A delicate thin rain
surrounds the house where I write
perched on the edge of nothingness.
If everything was a dream,
a sad lost life founded on vanity,
the rain tells me nothing.
As if sitting mesmerised
in a car ride to an airport of the dead
I recite the names
of everyone I’m leaving.
The rain wipes out the earth
and I know that nothing can come back.
I could be travelling,
I could be staying still.
The rain goes on
monotonous, beyond all translation,
a pure eloquence
the other side of human speech.
Chuva de outono
durante a noite
(Leonid Afremov:
pintor israelense)
Chuva à Meia-noite
Uma fina e delicada
chuva
envolve a casa onde
escrevo
assente à beira do
nada.
Se tudo não passa de
um sonho,
uma vida triste e vã
fundada em vaidades,
nada se me revela por
meio da chuva.
Como se eu hipnotizado,
estando ao volante
de um caro, rumasse
ao aeroporto dos mortos
pronunciando os nomes
de todos aqueles de
quem me despeço.
A chuva remove a
terra
e bem sei de que nada
volta atrás.
Poderia estar em
viagem,
poderia permanecer
quieto.
A chuva prossegue –
monótona, para além
de toda tradução,
uma pura eloquência
no outro lado da
linguagem humana.
Referência:
BOYLE, Peter. Rain at midnight. In: __________. Museum of space. 1st ed. Saint Lucia, AU: University Queensland Press, 2004. p. 34.
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