Alpes Literários

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UM PASSEIO PELOS ALPES LITERÁRIOS

sexta-feira, 24 de abril de 2026

Peter Boyle - Chuva à Meia-noite

O poeta australiano vislumbra na queda “fina e delicada” de uma chuva o espelho do que há de mais profundo e misterioso na condição humana, sobre a qual a linguagem jamais consegue atinar com perfeição, restando-nos o mundo natural para nos difundir significados que nos escapam à compreensão, enquanto pendemos entre a inércia e o movimento, enredados no dilema de ficar ou de seguir viagem.

 

Sobre a fragilidade de vida já muito se disse, sobre o inefável e o irreversível que há na ilusão da existência, cenário ao qual Boyle sobrepõe outros tantos matizes, alusivos quer à vulnerabilidade existencial que, vez por outra, nos atinge a todos – o sujeito poético aí incluso –, quer à ineludível presença do desconhecido – opondo-se às nossas vãs necessidades de racionalização e de controle –, quer até mesmo ao tema bíblico da “vanitas vanitatum”.

 

J.A.R. – H.C.

 

Peter Boyle

(n. 1951)

 

Rain at Midnight

 

A delicate thin rain

surrounds the house where I write

perched on the edge of nothingness.

If everything was a dream,

a sad lost life founded on vanity,

the rain tells me nothing.

As if sitting mesmerised

in a car ride to an airport of the dead

I recite the names

of everyone I’m leaving.

The rain wipes out the earth

and I know that nothing can come back.

I could be travelling,

I could be staying still.

The rain goes on

monotonous, beyond all translation,

a pure eloquence

the other side of human speech.

 

Chuva de outono durante a noite

(Leonid Afremov: pintor israelense)

 

Chuva à Meia-noite

 

Uma fina e delicada chuva

envolve a casa onde escrevo

assente à beira do nada.

Se tudo não passa de um sonho,

uma vida triste e vã fundada em vaidades,

nada se me revela por meio da chuva.

Como se eu hipnotizado, estando ao volante

de um caro, rumasse ao aeroporto dos mortos

pronunciando os nomes

de todos aqueles de quem me despeço.

A chuva remove a terra

e bem sei de que nada volta atrás.

Poderia estar em viagem,

poderia permanecer quieto.

A chuva prossegue –

monótona, para além de toda tradução,

uma pura eloquência

no outro lado da linguagem humana.

 

Referência:

 

BOYLE, Peter. Rain at midnight. In: __________. Museum of space. 1st ed. Saint Lucia, AU: University Queensland Press, 2004. p. 34.

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