Alpes Literários

Alpes Literários

Subtítulo

UM PASSEIO PELOS ALPES LITERÁRIOS

quinta-feira, 23 de abril de 2026

Emily Dickinson - Examinar, reverente, uma caixa de ébano

Dickinson aqui nos exorta a apreendermos a relação dialética entre memória e olvido, entre a sacralização das lembranças – metaforizada na relação íntima e quase ritualística que mantemos com os vestígios do passado, acondicionados em uma “caixa de ébano” –, e a necessidade prática de seguirmos em frente, não apegados obsessivamente a tais recordações, porquanto mais urgentes são os cuidados presentes.

 

Em nossa caixa de lembranças – autêntico cofre onde se desenrolam os processos essenciais de nossa psique, as narrativas fundamentais de nossa identidade – costumamos depositar muito do que fomos, para que siga preservado ao desgaste diário: cada objeto – pó, cartas, flores, adornos e outras miudezas – é uma ponte rumo ao rico arsenal de pregressas emoções, e o ato de trazê-lo à vista funciona como um rito de passagem que nos reconcilia momentaneamente com a transitoriedade do viver.

 

J.A.R. – H.C.

 

Emily Dickinson

(1830-1886)

 

In Ebon Box, when years have flown

 

In Ebon Box, when years have flown

To reverently peer –

Wiping away the velvet dust

Summers have sprinkled there!

 

To hold a letter to the light –

Grown Tawny now, with time –

To con the faded syllables

That quickened us like Wine!

 

Perhaps a Flower's shrivelled cheek

Among its stores to find –

Plucked far away, some morning –

By gallant – mouldering hand!

 

A curl, perhaps, from foreheads

Our constancy forgot –

Perhaps, an antique trinket –

In vanished fashions set!

 

And then to lay them quiet back –

And go about its care –

As if the little Ebon Box

Were none of our affair!

 

Psiquê abrindo a caixa dourada

(John William Waterhouse: pintor inglês)

 

Examinar, reverente, uma caixa de ébano

 

Examinar, reverente, uma caixa de ébano

Depois de passados os anos;

Remover o aveludado pó

Ali deixado pelos verões.

 

Trazer, sob a luz, uma carta

Pelo tempo esmaecida,

Perscrutar a letra pálida

Que nos aqueceu, feito vinho.

 

Entre os guardados talvez se encontrem

A corola fanada de uma flor,

Colhida por mão nobre e fértil

Certa manhã, muito longe,

 

Ou caracóis de frontes,

Por nossa constância olvidadas;

Talvez um antiquado adorno

Em perdidas vestes usado.

 

Depois, tornar a guardar essas coisas

E voltar aos afazeres,

Como se a pequena caixa de ébano

Não nos dissesse respeito.

 

Referência:

 

DICKINSON, Emily. In ebon box, when years have flown / Examinar, reverente, uma caixa de ébano. Tradução de Ivo Bender. In: __________. Poemas escolhidos. Seleção, tradução e introdução de Ivo Bender. Edição bilíngue: inglês x português. 1. ed. L&PM Pocket, 1. reimp. Porto Alegre, RS: L&PM, jun. 2011. Em inglês: p. 82 e 84; em português: p. 83 e 85. (Coleção “L&PM Pocket”; v. 436)

Nenhum comentário:

Postar um comentário