Dickinson aqui nos
exorta a apreendermos a relação dialética entre memória e olvido, entre a
sacralização das lembranças – metaforizada na relação íntima e quase ritualística
que mantemos com os vestígios do passado, acondicionados em uma “caixa de ébano”
–, e a necessidade prática de seguirmos em frente, não apegados obsessivamente
a tais recordações, porquanto mais urgentes são os cuidados presentes.
Em nossa caixa de lembranças
– autêntico cofre onde se desenrolam os processos essenciais de nossa
psique, as narrativas fundamentais de nossa identidade – costumamos depositar muito do que fomos, para que siga preservado
ao desgaste diário: cada objeto – pó, cartas, flores, adornos e outras miudezas
– é uma ponte rumo ao rico arsenal de pregressas emoções, e o ato de trazê-lo à
vista funciona como um rito de passagem que nos reconcilia momentaneamente com a
transitoriedade do viver.
J.A.R. – H.C.
Emily Dickinson
(1830-1886)
In Ebon Box, when
years have flown
In Ebon Box, when
years have flown
To reverently peer –
Wiping away the
velvet dust
Summers have
sprinkled there!
To hold a letter to
the light –
Grown Tawny now, with
time –
To con the faded
syllables
That quickened us
like Wine!
Perhaps a Flower's
shrivelled cheek
Among its stores to
find –
Plucked far away,
some morning –
By gallant –
mouldering hand!
A curl, perhaps, from
foreheads
Our constancy forgot
–
Perhaps, an antique
trinket –
In vanished fashions
set!
And then to lay them
quiet back –
And go about its care
–
As if the little Ebon
Box
Were none of our
affair!
Psiquê abrindo a
caixa dourada
(John William
Waterhouse: pintor inglês)
Examinar, reverente,
uma caixa de ébano
Examinar, reverente,
uma caixa de ébano
Depois de passados os
anos;
Remover o aveludado
pó
Ali deixado pelos
verões.
Trazer, sob a luz,
uma carta
Pelo tempo esmaecida,
Perscrutar a letra
pálida
Que nos aqueceu,
feito vinho.
Entre os guardados
talvez se encontrem
A corola fanada de
uma flor,
Colhida por mão nobre
e fértil
Certa manhã, muito
longe,
Ou caracóis de
frontes,
Por nossa constância
olvidadas;
Talvez um antiquado
adorno
Em perdidas vestes
usado.
Depois, tornar a
guardar essas coisas
E voltar aos
afazeres,
Como se a pequena
caixa de ébano
Não nos dissesse
respeito.
Referência:
DICKINSON, Emily. In ebon
box, when years have flown / Examinar, reverente, uma caixa de ébano. Tradução
de Ivo Bender. In: __________. Poemas escolhidos. Seleção, tradução e
introdução de Ivo Bender. Edição bilíngue: inglês x português. 1. ed. L&PM
Pocket, 1. reimp. Porto Alegre, RS: L&PM, jun. 2011. Em inglês: p. 82 e 84;
em português: p. 83 e 85. (Coleção “L&PM Pocket”; v. 436)
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