Como se fosse um
manifesto sobre a criação, no qual os atos da espécie se transformam numa série
de comandos carregados de metáforas e de simbolismos, cada linha deste poema
convida o leitor a romper com as convenções e a deixar a imaginação moldar a
realidade, numa sucessão liberatória de elementos contingentes e efêmeros por
meio dos quais a beleza comumente se manifesta.
A teor da ideia heraclitiana
do primado da permanência da mudança, tem-se uma visão de mundo calcada na
maleabilidade e na suscetibilidade à reinvenção, quer os sobreditos elementos sejam
orgânicos quer socialmente construídos, ou seja, quer naturais quer culturais –
e agora já não mais como mera imitação da realidade, pois que reinterpretados e
reconstruídos, passando a dispor de força bastante para pautar a identidade
coletiva, as aspirações e o futuro de toda gente.
J.A.R. – H.C.
Aníbal Machado
(1894-1964)
Iniciativas
Faça o que lhe digo.
Solte primeiro uma borboleta.
Se não amanhecer
depressa, solte outras de cores
diferentes.
De vez em quando,
faça partir um barco. Veja aonde
vai. Se for difícil,
suprima o mar e lance uma planície.
Mande um esboço de
rochedo, o resto de uma floresta.
Jogue as iniciais do
lenço. Faça descer algumas ilhas.
Mande a fotografia do
lugar, com as curvas capitais
e as cópias dos
seios.
Atire um planisfério.
Um zodíaco. Uma fachada de igreja.
E os livros
fundamentais.
Sirva-se do vento, se
achar difícil.
Eles estão perdidos.
Mas nem tudo o que fizeram
está perdido.
Separe o que possa
ser aproveitado e mande. Sobretudo,
as formas em que o
sonho de alguns se cristalizou.
Remeta a relação dos
encontros, se possível. E o horário
dos ventos.
Mande uma manhã de
sol, na íntegra.
Faça subir a caixa de
música com o barulho dos canaviais
e o apito da
locomotiva.
Veja se consegue o
mapa dos caminhos.
Mande o resumo dos
melhores momentos.
As amostras de outra
raça.
Com urgência, o
projeto de uma nova cidade.
A partida do navio
alado
(Vladimir Kush:
artista russo)
Referência:
MACHADO, Aníbal. Iniciativas. In: __________. Cadernos de João. Rio de Janeiro, RJ: Nova Fronteira, 2002. p. 177.
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