Alpes Literários

Alpes Literários

Subtítulo

UM PASSEIO PELOS ALPES LITERÁRIOS

sábado, 11 de abril de 2026

Octavio Paz - Como quem ouve chover

O poeta traça uma ponte bem-composta entre o mundo exterior – representado pela chuva, a neblina e as paisagens noturnas – e o mundo interior, povoado por sentimentos e memórias: na repetição do verso “ouve-me como quem ouve chover” tem-se um mantra a postular certa entrega perceptual ao sutil e ao efêmero que há no som da chuva, que se capta quase sem querer, mas que nos envolve de imediato.

 

O que Paz nos propõe é que aumentemos o nível de nossa receptividade, ao que nos alcança por meio dos sentidos, para além da compreensão consciente. Para tanto, submete os versos a um fluxo corrente no poema, carregando-os de imagens sinestésicas, mescladas entre o tangível e o imaterial, entre o estático e o dinâmico, com o claro objetivo de arrastar o leitor para o cerne mesmo desta evanescente paragem – “um vago jardim à deriva”, que é tudo o que temos enquanto por aqui estivermos.

 

J.A.R. – H.C.

 

Octavio Paz

(1914-1998)

 

Como quien oye llover

 

Óyeme como quien oye llover,

ni atenta ni distraída,

pasos leves, llovizna,

agua que es aire, aire que es tiempo,

el día no acaba de irse,

la noche no llega todavía,

figuraciones de la niebla

al doblar la esquina,

figuraciones del tiempo

en el recodo de esta pausa,

óyeme como quien oye llover,

sin oírme, oyendo lo que digo

con los ojos abiertos hacia adentro,

dormida con los cinco sentidos despiertos,

llueve, pasos leves, rumor de sílabas,

aire y agua, palabras que no pesan:

lo que fuimos y somos,

los días y los años, este instante,

tiempo sin peso, pesadumbre enorme,

óyeme como quien oye llover,

relumbra el asfalto húmedo,

el vaho se levanta y camina,

la noche se abre y me mira,

eres tú y tu talle de vaho,

tú y tu cara de noche,

tú y tu pelo, lento relámpago,

cruzas la calle y entras en mi frente,

pasos de agua sobre mis párpados,

óyeme como quien oye llover,

el asfalto relumbra, tú cruzas la calle,

es la niebla errante en la noche,

es la noche dormida en tu cama,

es el oleaje de tu respiración,

tus dedos de agua mojan mi frente,

tus dedos de llama queman mis ojos,

tus dedos de aire abren los párpados del tiempo,

manar de apariciones y resurrecciones,

óyeme como quien oye llover,

pasan los años, regresan los instantes,

¿oyes tus pasos en el cuarto vecino?

no aquí ni allá: los oyes

en otro tiempo que es ahora mismo,

oye los pasos del tiempo

inventor de lugares sin peso ni sitio,

oye la lluvia correr por la terraza,

la noche ya es más noche en la arboleda,

en los follajes ha anidado el rayo,

vago jardín a la deriva

– entra, tu sombra cubre esta página.

 

En: “Árbol adentro” (1987)

 

Casal caminhando na chuva

(Dioteema Ganguly: artista indiana)

 

Como quem ouve chover

 

Ouve-me como quem ouve chover,

nem atenta sem distraída,

passos leves, chuvisco,

água que é ar, ar que é tempo,

o dia teima em não passar,

a noite ainda não chegou,

figurações da neblina

ao contornar a esquina,

figurações do tempo

na curva desta pausa,

ouve-me como quem ouve chover,

sem me ouvir, ouvindo o que digo

com os olhos abertos para dentro,

adormecida com os cinco sentidos despertos,

chove, passos leves, rumor de sílabas,

ar e água, palavras que não pesam:

o que fomos e o que somos,

os dias e os anos, este momento,

tempo sem peso, pesar enorme,

ouve-me como quem ouve chover,

o asfalto molhado brilha,

o vapor sobe e se difunde,

a noite se abre e me olha,

és tu e a tua vaporosa silhueta,

és tu e o teu rosto de noite,

tu e os teus cabelos, moroso relâmpago,

atravessas a rua e entras em minha fronte,

passos d’água sobre minhas pálpebras,

ouve-me como quem ouve chover,

o asfalto brilha, tu atravessas a rua,

é a névoa errante na noite,

é a noite adormecida em tua cama,

é o ondular de tua respiração,

teus dedos d’água molham minha fronte,

teus dedos de chama queimam meus olhos,

teus dedos de ar abrem as pálpebras do tempo,

manar de aparições e de ressurreições,

ouve-me como quem ouve chover,

passam os anos, regressam os momentos,

ouves os teus passos no quarto ao lado?

nem aqui nem ali: ouves-nos

num outro tempo que é exatamente agora,

ouve os passos do tempo,

inventor de lugares sem peso nem local,

ouve a chuva correr pelo terraço,

a noite já é mais noite no bosque,

o relâmpago aninhou-se na folhagem,

vago jardim à deriva

– entra, tua sombra cobre esta página.

 

Em: “Árvore por dentro” (1987)

 

Referência:

 

PAZ, Octavio. Como quien oye llover. In: MIRANDA, Rocío (Ed.). 24 poetas latinoamericanos. 1. ed. México, D.F.: CIDCLI, 1997. p. 164-165. (Coedición “Latinoamericana”)

Nenhum comentário:

Postar um comentário