O poeta traça uma ponte
bem-composta entre o mundo exterior – representado pela chuva, a neblina e as
paisagens noturnas – e o mundo interior, povoado por sentimentos e memórias: na
repetição do verso “ouve-me como quem ouve chover” tem-se um mantra a postular certa
entrega perceptual ao sutil e ao efêmero que há no som da chuva, que se capta
quase sem querer, mas que nos envolve de imediato.
O que Paz nos propõe
é que aumentemos o nível de nossa receptividade, ao que nos alcança por meio
dos sentidos, para além da compreensão consciente. Para tanto, submete os versos
a um fluxo corrente no poema, carregando-os de imagens sinestésicas, mescladas
entre o tangível e o imaterial, entre o estático e o dinâmico, com o claro objetivo
de arrastar o leitor para o cerne mesmo desta evanescente paragem – “um vago
jardim à deriva”, que é tudo o que temos enquanto por aqui estivermos.
J.A.R. – H.C.
Octavio Paz
(1914-1998)
Óyeme como quien oye llover,
ni atenta ni distraída,
pasos leves, llovizna,
agua que es aire, aire que es tiempo,
el día no acaba de irse,
la noche no llega todavía,
figuraciones de la niebla
al doblar la esquina,
figuraciones del tiempo
en el recodo de esta pausa,
óyeme como quien oye llover,
sin oírme, oyendo lo que digo
con los ojos abiertos hacia adentro,
dormida con los cinco sentidos despiertos,
llueve, pasos leves, rumor de sílabas,
aire y agua, palabras que no pesan:
lo que fuimos y somos,
los días y los años, este instante,
tiempo sin peso, pesadumbre enorme,
óyeme como quien oye llover,
relumbra el asfalto húmedo,
el vaho se levanta y camina,
la noche se abre y me mira,
eres tú y tu talle de vaho,
tú y tu cara de noche,
tú y tu pelo, lento relámpago,
cruzas la calle y entras en mi frente,
pasos de agua sobre mis párpados,
óyeme como quien oye llover,
el asfalto relumbra, tú cruzas la calle,
es la niebla errante en la noche,
es la noche dormida en tu cama,
es el oleaje de tu respiración,
tus dedos de agua mojan mi frente,
tus dedos de llama queman mis ojos,
tus dedos de aire abren los párpados del tiempo,
manar de apariciones y resurrecciones,
óyeme como quien oye llover,
pasan los años, regresan los instantes,
¿oyes tus pasos en el cuarto vecino?
no aquí ni allá: los oyes
en otro tiempo que es ahora mismo,
oye los pasos del tiempo
inventor de lugares sin peso ni sitio,
oye la lluvia correr por la terraza,
la noche ya es más noche en la arboleda,
en los follajes ha anidado el rayo,
vago jardín a la deriva
– entra, tu sombra cubre esta página.
En: “Árbol adentro”
(1987)
Casal caminhando na
chuva
(Dioteema Ganguly:
artista indiana)
Como quem ouve chover
Ouve-me como quem ouve
chover,
nem atenta sem
distraída,
passos leves,
chuvisco,
água que é ar, ar que
é tempo,
o dia teima em não
passar,
a noite ainda não
chegou,
figurações da neblina
ao contornar a
esquina,
figurações do tempo
na curva desta pausa,
ouve-me como quem
ouve chover,
sem me ouvir, ouvindo
o que digo
com os olhos abertos
para dentro,
adormecida com os
cinco sentidos despertos,
chove, passos leves,
rumor de sílabas,
ar e água, palavras
que não pesam:
o que fomos e o que somos,
os dias e os anos,
este momento,
tempo sem peso, pesar
enorme,
ouve-me como quem
ouve chover,
o asfalto molhado brilha,
o vapor sobe e se
difunde,
a noite se abre e me
olha,
és tu e a tua
vaporosa silhueta,
és tu e o teu rosto
de noite,
tu e os teus cabelos,
moroso relâmpago,
atravessas a rua e
entras em minha fronte,
passos d’água sobre minhas
pálpebras,
ouve-me como quem
ouve chover,
o asfalto brilha, tu
atravessas a rua,
é a névoa errante na
noite,
é a noite adormecida
em tua cama,
é o ondular de tua
respiração,
teus dedos d’água molham
minha fronte,
teus dedos de chama
queimam meus olhos,
teus dedos de ar
abrem as pálpebras do tempo,
manar de aparições e
de ressurreições,
ouve-me como quem
ouve chover,
passam os anos,
regressam os momentos,
ouves os teus passos
no quarto ao lado?
nem aqui nem ali: ouves-nos
num outro tempo que é
exatamente agora,
ouve os passos do
tempo,
inventor de lugares
sem peso nem local,
ouve a chuva correr
pelo terraço,
a noite já é mais
noite no bosque,
o relâmpago
aninhou-se na folhagem,
vago jardim à deriva
– entra, tua sombra
cobre esta página.
Em: “Árvore por
dentro” (1987)
Referência:
PAZ, Octavio. Como quien oye llover. In: MIRANDA, Rocío (Ed.). 24 poetas latinoamericanos. 1. ed. México, D.F.: CIDCLI, 1997. p. 164-165. (Coedición “Latinoamericana”)
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