Alpes Literários

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UM PASSEIO PELOS ALPES LITERÁRIOS

terça-feira, 14 de abril de 2026

Vitorino Nemésio - A minha voz

A voz, para além de ser um mero som que se emite ao interagirmos com o mundo, é o reflexo da existência mesma, o resultado de um processo contínuo de criação, de confrontação com a escuridão interna e de conversão da dor – quase um alimento para neutralizar o vazio que nos vai na alma – em sustento vital, tornando-nos verdadeiramente humanos e dotados de uma nova e autêntica identidade.

 

Ao acolher tanto as luzes quanto as sombras que coexistem dentro de nós, expomos, por igual, a dualidade do eu que cria e do duplo que emerge desse ato, imbricados num fluxo imparável – entre sereno e turbulento –, no qual tristeza e dor, palavras e silêncio, fundem-se para renovar a essência do ser, aproximando-nos quotidianamente dos arcanos inefáveis da poesia.

 

J.A.R. – H.C.

 

Vitorino Nemésio

(1901-1978)

 

A minha voz

 

Vamos a ver se te levanto

Com estas palavras escuras

Que são a luz do meu canto.

Vamos a ver se pode ser.

Na minha lama azeda e quente

Crias a tua forma

E compões o teu vulto no meu amor,

Por isso creio que és gente.

Toma lá pão, sinal humano,

Conhecimento e dor.

 

Bem, já existes,

Embora sem a graça de um nome;

Eu, que te sinto em mim, já não hei-de chamar-te.

Quando acabares o pão, pede mais,

Pois te darei a tua parte:

Já resolvi ficarmos tristes

Para matar a fome,

Que os tristes a tudo são fatais.

 

Aí está: triste. Se era a palavra, aí está.

Tens frio, e um nome é manta pela cabeça:

Talvez abrigue a cabeça de quem vá

Sozinho, à noite, pelos caminhos ladrados

De uma aldeia estelar, sem fim, que em mim começa.

Seu nome, como um Outro, serve de companhia:

Só os viandantes são enganados

Sobre a verdade de quem lá ia.

 

Vamos a ver se eu te crio,

A ti que me encheste de ser

E enches o escuro de confiança

Adiante dos meus passos,

Como os choupos levam o rio.

 

Sai um pouco de mim para eu te ver,

Cuida a tua aparência.

Abre na escuridão um rodado qualquer

E veste-te de lume ou de essência

Ou do teu cabelo, se és mulher.

 

Quando te cito, canta,

Longe, uma voz diversa.

Uma voz aguda como um grito e o espinho que o fez dar.

Ninguém lhe conhece garganta:

É uma simples coisa imersa

Em mim, na noite e no mar.

 

Outras vezes não te cito: tu me citas,

A tua angústia trava o meu mínimo gesto,

Tremo diante do teu látego,

Cheio de palavras aflitas

E do suor do meu protesto.

Então do meu transe se adianta

O teu vulto coberto do meu vulto,

E é sempre assim que o meu duplo canta.

 

O farrapo de mim, a que se agarraram uns limos,

Lá no seu tanque pútrido mexe,

Lá vive e cria suas bichezas.

Assim nos vimos,

Minha voz:

Assim o cabo do látego remexe

Bichos, limos, vozes, tristezas.

E tudo isto dentro de nós.

 

Em: “O Bicho Harmonioso” (1930)

 

Formas de plantas

(Margaret Watts Hughes: artista galesa)

 

Referência:

 

NEMÉSIO, Vitorino. A minha voz. In: HELDER, Herberto. Edoi Lelia Doura: antologia das vozes comunicantes da poesia moderna portuguesa. Lisboa, PT: Assírio & Alvim, 1985. p. 157-158.

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