As ideias deste poema
associam-se diretamente às obras do norte-americano Morris Louis Bernstein (1912-1962),
um dos primeiros expoentes do movimento “Color Field Painting”, reputado pelas
técnicas ousadas de veladuras fluidas de tinta, aplicadas de tal modo que os
derramamentos dos pigmentos se convertiam no elemento definidor da forma de
suas telas.
Sob tal perspectiva,
os versos dialogam com a tendência em apreço, na medida em que outorgam
destaque à ação por meio da repetição da expressão “é o movimento que” (promove
a gênese da forma, incitando-a, moldando-a, delongando-a, estando sempre ao seu
alcance), como que para enfatizar que nada é estático na criação, uma vez que
esta pressupõe, fundamentalmente, mutação constante a se processar mediante antagonismos
de forças invisíveis e quase caóticas – ora de composição, ora de decomposição –,
dando ensejo a outras tantas formas.
J.A.R. – H.C.
Richard Howard
(1929-2022)
Like Most Revelations
(after Morris Louis)
It is the movement that incites the form,
discovered as a downward rapture – yes,
it is the movement that delights the form,
sustained by its own velocity. And yet
it is the movement that delays the form
while darkness slows and encumbers; in fact
it is the movement that betrays the form,
baffled in such toils of ease, until
it is the movement that deceives the form,
beguiling our attention – we supposed
it is the movement that achieves the form.
Were we mistaken? What does it matter if
it is the movement that negates the form?
Even though we give (give up) ourselves
to this mortal process of continuing,
it is the movement that creates the form.
Sarabanda
(Morris Louis: pintor
norte-americano)
Como a Maioria das
Revelações
(inspirado em Morris
Louis)
É o movimento que
incita a forma,
a revelar-se num
arroubo descendente – sim,
é o movimento que
leva a forma à fruição,
sustentada em sua
própria velocidade. E, contudo,
é o movimento que
retarda a forma,
enquanto a escuridão
o abranda e estorva;
de fato, é o
movimento que atraiçoa a forma,
enredando-a em tais
tramas de facilidade,
a ponto de
convertê-la em algo enganoso,
capaz de nos
ludibriar o olhar – quando julgávamos
que fosse apenas o
movimento a alcançá-la.
Incorríamos em erro? Qual
a relevância em ser
o movimento um
constituinte negador da forma?
Ainda que nos
entreguemos (ou nos rendamos)
a esse processo
mortal de continuidade,
seja como for, do
movimento é que nasce a forma.
Referência:
HOWARD, Richard. Like
most revelations. In: PINSKI, Robert; LEHMAN, David (Eds.). The best of the
best american poetry. 25th anniversary edition. 1st Scribner edition. New
York, NY: Scribner Poetry, apr. 2013. p. 119.
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