O falante aqui se
expressa de um modo confessional por meio de uma torrente de afirmações que
oscilam entre o sublime e o vulgar, entre o “alfa e o ômega”, tornando
explícita ao leitor a sua identidade fragmentada, na qual a essência se
desborda pelas margens do sentido convencional dos rótulos ou das etiquetas definidos
em sociedade, bem assim dos dogmas da fé estabelecida e dos preceitos para se
alcançar a redenção.
Perceba-se, sob tal perspectiva,
que a voz do poeta, ao mesmo tempo irônica e comovente, desafia os parâmetros
normativos, apresentando-nos um testemunho vital do seu fervilhante cadinho
interior, numa mistura sem concessões de fé, dúvida, anseios e resignação.
Ao se apropriar da
figura bíblica de Lázaro, o sujeito lírico se apresenta como alguém que renasce
constantemente, refletindo a sua humana condição, ambígua e contraditória diante
das imposições externas, a par com uma demanda por reconhecer a sua
incapacidade para amar, a desilusão com a potestade divina ou o sentimento
perene de haver se desencaminhado na vida.
J.A.R. – H.C.
Miguel Torga
(1907-1995)
O Lázaro
O Lázaro sou eu, não
foi o Outro,
O das migalhas e das
chagas podres.
O Lázaro sou eu, aqui
sentado
À mesa do Vice-Rei
A mastigar com nojo
estes faisões...
Sou eu, vestido de
holanda,
A pregar a nudez que
sempre usei
Nas grandes ocasiões.
Sou eu, nado e criado
para amar,
E que não sei amar.
Sou eu, que disse não
e me perdi.
Que vi Deus e nunca
acreditei.
Que vi a estrada impedida
E passei...
Sou eu, que não sou
feliz no Céu nem no Inferno,
Porque no Céu há paz
e no Inferno há guerra,
E a minha Paz é outra
e a minha Guerra é outra...
Sou eu, tão Grande e
Pequeno
Que nem sirvo para
grão
Da parábola da
mostarda!
Sou eu, que há vinte
e sete anos
Vivo sem Anjo da
Guarda!
Sou eu, que ou tudo
ou nada, ou Vida ou Morte,
E acerto sempre na
Morte!
Que espeto sempre o
punhal
Onde não quero
ferir...
Que sou assim, às
cegas e às golfadas,
Como as dores
abençoadas
De parir!
Sou eu, que me disse
adeus
E fiquei à minha
espera...
E que naquela manhã
de ano bissexto
– Que podia ter sol e
teve chuva –
Recebi nestes meus
braços
O esqueleto
verdadeiro
Da saudade amargurada
De quem não tem
ausentes nem distâncias!
Sou eu, o louco sem asas,
Que se lança aos
abismos a cantar
A Canção do
Inocente...
E que do fundo desse
sonho novo
Atira a praga
Que o traga
Àquela redentora
incompreensão
Do seu povo...
Sou eu, o Alfa e o Ômega
E os sentidos
singulares
Que o Anjo-Satanás me
prometeu...
Sou este Nobre-Vilão
descalço e de gravata,
Sou este jornal sem
data
Que traz a infausta
notícia
Que ninguém leu...
Sou eu – e mostro-me
todo
Quem puder, arranque
os olhos
E venha cheio de Fé
Ver o Lázaro real
Que não vem nos
Evangelhos,
Mas é!...
Em: “O outro livro de
Job” (1936)
A ressurreição de Lázaro
(ao modo de Rembrandt)
(Vincent van Gogh:
pintor holandês)
Referência:
TORGA, Miguel. O Lázaro. In: __________. Antologia poética. 2. ed. aumentada. Coimbra, PT: Editora Gráfica de Coimbra, 1985. p. 48-50.
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