Alpes Literários

Alpes Literários

Subtítulo

UM PASSEIO PELOS ALPES LITERÁRIOS

sexta-feira, 17 de abril de 2026

Miguel Torga - O Lázaro

O falante aqui se expressa de um modo confessional por meio de uma torrente de afirmações que oscilam entre o sublime e o vulgar, entre o “alfa e o ômega”, tornando explícita ao leitor a sua identidade fragmentada, na qual a essência se desborda pelas margens do sentido convencional dos rótulos ou das etiquetas definidos em sociedade, bem assim dos dogmas da fé estabelecida e dos preceitos para se alcançar a redenção.

 

Perceba-se, sob tal perspectiva, que a voz do poeta, ao mesmo tempo irônica e comovente, desafia os parâmetros normativos, apresentando-nos um testemunho vital do seu fervilhante cadinho interior, numa mistura sem concessões de fé, dúvida, anseios e resignação.

 

Ao se apropriar da figura bíblica de Lázaro, o sujeito lírico se apresenta como alguém que renasce constantemente, refletindo a sua humana condição, ambígua e contraditória diante das imposições externas, a par com uma demanda por reconhecer a sua incapacidade para amar, a desilusão com a potestade divina ou o sentimento perene de haver se desencaminhado na vida.

 

J.A.R. – H.C.

 

Miguel Torga

(1907-1995)

 

O Lázaro

 

O Lázaro sou eu, não foi o Outro,

O das migalhas e das chagas podres.

O Lázaro sou eu, aqui sentado

À mesa do Vice-Rei

A mastigar com nojo estes faisões...

Sou eu, vestido de holanda,

A pregar a nudez que sempre usei

Nas grandes ocasiões.

 

Sou eu, nado e criado para amar,

E que não sei amar.

Sou eu, que disse não e me perdi.

Que vi Deus e nunca acreditei.

Que vi a estrada impedida

E passei...

 

Sou eu, que não sou feliz no Céu nem no Inferno,

Porque no Céu há paz e no Inferno há guerra,

E a minha Paz é outra e a minha Guerra é outra...

Sou eu, tão Grande e Pequeno

Que nem sirvo para grão

Da parábola da mostarda!

Sou eu, que há vinte e sete anos

Vivo sem Anjo da Guarda!

 

Sou eu, que ou tudo ou nada, ou Vida ou Morte,

E acerto sempre na Morte!

Que espeto sempre o punhal

Onde não quero ferir...

Que sou assim, às cegas e às golfadas,

Como as dores abençoadas

De parir!

 

Sou eu, que me disse adeus

E fiquei à minha espera...

E que naquela manhã de ano bissexto

– Que podia ter sol e teve chuva –

Recebi nestes meus braços

O esqueleto verdadeiro

Da saudade amargurada

De quem não tem ausentes nem distâncias!

 

Sou eu, o louco sem asas,

Que se lança aos abismos a cantar

A Canção do Inocente...

E que do fundo desse sonho novo

Atira a praga

Que o traga

Àquela redentora incompreensão

Do seu povo...

 

Sou eu, o Alfa e o Ômega

E os sentidos singulares

Que o Anjo-Satanás me prometeu...

Sou este Nobre-Vilão descalço e de gravata,

Sou este jornal sem data

Que traz a infausta notícia

Que ninguém leu...

 

Sou eu – e mostro-me todo

Quem puder, arranque os olhos

E venha cheio de Fé

Ver o Lázaro real

Que não vem nos Evangelhos,

Mas é!...

 

Em: “O outro livro de Job” (1936)

 

A ressurreição de Lázaro

(ao modo de Rembrandt)

(Vincent van Gogh: pintor holandês)

 

Referência:

 

TORGA, Miguel. O Lázaro. In: __________. Antologia poética. 2. ed. aumentada. Coimbra, PT: Editora Gráfica de Coimbra, 1985. p. 48-50.

Nenhum comentário:

Postar um comentário