Leoni lança um repto à ideia de que a felicidade se pareça a um estado
estático ou a uma meta alcançável, ao contemplá-la como uma ilusão efêmera, um
jogo de luzes e sombras no qual a própria busca se torna inimiga de sua consecução,
fazendo-nos esquecidos de gozar a vida de um modo simples, sem incidir no
paradoxo de querermos controlar o incontrolável, pois que, com alguma
frequência, ela decorre de um golpe de sorte, subordinando-se mais à fortuna do
que à laboriosidade humana.
A felicidade é mesmo assim: quanto mais tentamos capturá-la ou defini-la,
mas se nos escapa, mais se expande na dança de sua projeção, distanciando-se e
distorcendo-se, para permanecer sempre fora de nosso alcance. Daí porque o
poeta nos propõe, como alternativa, uma existência tão próxima quanto possível
do natural e do espontâneo, para que, desse modo, possamos experimentar um estado
de bem-estar pleno, na ausência de uma intencionalidade opressiva por perseguir
a felicidade – quando então poderemos envenenar nossos sentimentos,
vulnerabilizando-os sob o peso de excessivas ruminações.
J.A.R. – H.C.
Raul de Leoni
(1895-1926)
Felicidade
I
Sombra do nosso Sonho
ousado e vão!
De infinitas imagens
irradias
E, na dança da tua
projeção,
Quanto mais cresces,
mais te distancias...
A Alma te vê à luz da
posição
Em que fica entre as
cousas e entre os dias:
És sombra e,
refletindo-te, varias,
Como todas as
sombras, pelo chão...
O Homem não te
atingiu na vida instável
Porque te embaraçou
na filigrana
De um ideal metafísico
e divino;
E te busca na selva
impraticável,
Ó Bela Adormecida da
alma humana!
Trevo de quatro
folhas do Destino!...
II
Basta saberes que és
feliz, e então
Já o serás na verdade
muito menos:
Na árvore amarga da
Meditação,
A sombra é triste e
os frutos têm venenos.
Se és feliz e o não
sabes, tens na mão
O maior bem entre os
mais bens terrenos
E chegaste à suprema
aspiração,
Que deslumbra os
filósofos serenos.
Felicidade... Sombra
que só vejo,
Longe do Pensamento e
do Desejo,
Surdinando harmonias
e sorrindo,
Nessa tranquilidade
distraída,
Que as almas simples
sentem pela Vida,
Sem mesmo perceber
que estão sentindo...
A Árvore da
Felicidade
(Leon Devenice: artista
norte-americano)
Referência:
LEONI, Raul.
Felicidade I e II. In: __________. Luz mediterrânea e outros poemas.
Introdução, organização e fixação de texto por Sérgio Alcides. 1. ed. São
Paulo, SP: Martins Fontes, 2001. p. 24-25. (Coleção “Poetas do Brasil”)
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