O escritor russo nos
apresenta uma reflexão metapoética, não tanto a falar de paisagens ou de
sentimentos concretos, mas da essência mesma do ato poético, isto é, do que diferencia
a verdadeira criação daquilo que é mero efeito ornamental de forma ou de fundo,
mas que, por prescindir de atributos de maior relevo, não logra inflamar a
chispa interior – somente despertada sob a tensão de emoções autênticas.
O poema, a seu ver, há
de resultar povoado por elementos linguísticos e imagéticos advindos de uma inspiração
indômita e misteriosa, somente fomentada quando o poeta está disposto a se
perder na incerteza e deixar que as palavras se movam instintivamente com
autonomia, ao encalço de multifacetados sentidos e padrões.
J.A.R. – H.C.
Vladimir Nabokov
(1899-1977)
The Poem
Not the sunset poem you make when
you think aloud,
with its linden tree in India ink
and the telegraph wires across its pink cloud;
not the mirror in you and her delicate bare
shoulder still glimmering there;
not the lyrical click of a pocket rhyme –
the tiny music that tells the time;
and not the pennies and weights on those
evening papers piled up in the rain;
not the cacodemons of carnal pain;
not the things you can say so much better
in plain prose –
but the poem that hurtles from heights unknown
– when you wait for the splash of the stone
deep below, and grope for your pen,
and then comes the shiver, and then –
in the tangle of sounds, the leopards of words,
the leaflike insects, the eye-spotted birds
fuse and form a silent, intense,
mimetic pattern of perfect sense.
Jovem à mesa em seu
ofício
(Christian van Donck:
pintor holandês)
O Poema
Não o poema do ocaso
que se compõe pensando
em voz alta,
com sua tília esboçada
em tinta-da-china
e nuvens rosáceas
atravessadas por cabos telegráficos;
não o espelho que em
ti habita e os nus e delicados
ombros da amada que ainda
ali cintilam;
não o lírico tilintar
de uma rima de bolso –
a breve melodia a marcar
o compasso do tempo;
e não os trocados e
os pesos em cima daqueles
jornais vespertinos
empilhados sob a chuva;
também não os
cacodemônios da dor carnal,
tampouco as coisas
que se podem dizer muito melhor
em prosa simples –
mas o poema que se
precipita de inauditas alturas
– e se fica à espera
pelo salpico da pedra nas águas
lá no fundo, e se
tateia à procura da caneta,
quando então sobrevém
um frêmito, e sem delonga –
num emaranhado de
sons, os insetos foliformes,
os pássaros ocelados
e os leopardos das palavras,
se fundem para formar
um padrão silencioso,
intenso e mimético de
perfeito sentido.
Referência:
NABOKOV, Vladimir.
The poem. In: __________. Selected poems. Edited by Thomas Karshan; new
translations by Dmitri Nabokov. 1st ed. New York, NY: Alfred A. Knopf, 2012. p.
160.
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