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UM PASSEIO PELOS ALPES LITERÁRIOS

terça-feira, 21 de abril de 2026

Vladimir Nabokov - O Poema

O escritor russo nos apresenta uma reflexão metapoética, não tanto a falar de paisagens ou de sentimentos concretos, mas da essência mesma do ato poético, isto é, do que diferencia a verdadeira criação daquilo que é mero efeito ornamental de forma ou de fundo, mas que, por prescindir de atributos de maior relevo, não logra inflamar a chispa interior – somente despertada sob a tensão de emoções autênticas.

 

O poema, a seu ver, há de resultar povoado por elementos linguísticos e imagéticos advindos de uma inspiração indômita e misteriosa, somente fomentada quando o poeta está disposto a se perder na incerteza e deixar que as palavras se movam instintivamente com autonomia, ao encalço de multifacetados sentidos e padrões.

 

J.A.R. – H.C.

 

Vladimir Nabokov

(1899-1977)

 

The Poem

 

Not the sunset poem you make when

you think aloud,

with its linden tree in India ink

and the telegraph wires across its pink cloud;

 

not the mirror in you and her delicate bare

shoulder still glimmering there;

not the lyrical click of a pocket rhyme –

the tiny music that tells the time;

 

and not the pennies and weights on those

evening papers piled up in the rain;

not the cacodemons of carnal pain;

not the things you can say so much better

in plain prose –

 

but the poem that hurtles from heights unknown

– when you wait for the splash of the stone

deep below, and grope for your pen,

and then comes the shiver, and then –

 

in the tangle of sounds, the leopards of words,

the leaflike insects, the eye-spotted birds

fuse and form a silent, intense,

mimetic pattern of perfect sense.

 

Jovem à mesa em seu ofício

(Christian van Donck: pintor holandês)

 

O Poema

 

Não o poema do ocaso que se compõe pensando

em voz alta,

com sua tília esboçada em tinta-da-china

e nuvens rosáceas atravessadas por cabos telegráficos;

 

não o espelho que em ti habita e os nus e delicados

ombros da amada que ainda ali cintilam;

não o lírico tilintar de uma rima de bolso –

a breve melodia a marcar o compasso do tempo;

 

e não os trocados e os pesos em cima daqueles

jornais vespertinos empilhados sob a chuva;

também não os cacodemônios da dor carnal,

tampouco as coisas que se podem dizer muito melhor

em prosa simples –

 

mas o poema que se precipita de inauditas alturas

– e se fica à espera pelo salpico da pedra nas águas

lá no fundo, e se tateia à procura da caneta,

quando então sobrevém um frêmito, e sem delonga –

 

num emaranhado de sons, os insetos foliformes,

os pássaros ocelados e os leopardos das palavras,

se fundem para formar um padrão silencioso,

intenso e mimético de perfeito sentido.

 

Referência:

 

NABOKOV, Vladimir. The poem. In: __________. Selected poems. Edited by Thomas Karshan; new translations by Dmitri Nabokov. 1st ed. New York, NY: Alfred A. Knopf, 2012. p. 160.

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