Alpes Literários

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UM PASSEIO PELOS ALPES LITERÁRIOS

sexta-feira, 10 de abril de 2026

Herman Melville - O Banco dos Camponeses

Este poema de Melville, inspirado em obra do artista flamengo David Teniers, o Jovem (1610-1690) – uma écfrase, portanto, a transpor algo do universo pictórico para o âmbito literário –, pode ser lido como uma sátira à mediania e à letargia humana, notoriamente engendradas por um pensamento que, mesmo quando permeado de maiores ambições, não tem força para superar o peso da inapetência por transcender os limites de um modo de vida opressivamente rotineiro.

 

Os três sextetos, à maneira da própria pintura na qual se estriba, têm muito de caricaturais, mas longe de se restringirem aos formalismos da estilização, são também, a meu ver, propositivos, visto que expressam reflexões do autor nas searas do social e do filosófico, incitando-nos a que saiamos do conformismo – tão característico das massas –, para elevarmos o espírito num esforço resoluto da vontade.

 

J.A.R. – H.C.

 

Herman Melville

(1819-1891)


The Bench of Boors (*)

 

In bed I muse on Tenier’s boors,

Embrowned and beery losels all:

A wakeful brain

Elaborates pain:

Within low doors the slugs of boors

Laze and yawn and doze again.

 

In dreams they doze, the drowsy boors.

Their hazy hovel warm and small:

Thought’s ampler bound

But chill is found:

Within low doors the basking boors

Snugly hug the ember-mound.

 

Sleepless, I see the slumberous boors

Their blurred eyes blink, their eyelids fall:

Thought’s eager sight

Aches – overbright!

Within low doors the boozy boors

Cat-naps take in pipe-bowl light.

 

Campônios bebendo

(David Teniers, o Jovem: pintor flamengo)

 

O Banco dos Camponeses

 

Na cama medito nos camponeses de Tenier,

A penumbra e a embriaguez tudo dilui:

Uma mente desperta

Concebe a dor:

Em casas humildes os indolentes camponeses

Preguiçam e bocejam e de novo dormitam.

 

Em sonhos dormitam, os sonolentos camponeses.

Seus ébrios casebres, quentes e pequenos:

O pensamento deve voar

Mas o frio tolhe-o.

Em casas humildes os imóveis camponeses

Aconchegam-se em torno das braseiras.

 

Sem sono, vejo os sonolentos camponeses,

Seus olhos enevoados pestanejam, suas pestanas fecham-se:

A nítida visão do pensamento

Dói – tão intensa é a sua luz!

Em casas humildes os ébrios camponeses

Dormitam envoltos na névoa dos cachimbos.


Nota do Tradutor:

 

(*). Ekphrasis de um quadro do pintor flamengo muito admirado por Melville, David Teniers. (MELVILLE, 2009, p. 98)

 

Referência:

 

MELVILLE, Herman. The bench of boors / O banco dos camponeses. Tradução de Mário Avelar. In: __________. Poemas. Selecção, tradução e introdução de Mário Avelar. Edição bilíngue. Lisboa, PT: Assírio & Alvim, 2009. Em inglês: p. 76; em português: p. 77. (“Documenta Poética”; v. 128)

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