Este poema de
Melville, inspirado em obra do artista flamengo David Teniers, o Jovem (1610-1690)
– uma écfrase, portanto, a transpor algo do universo pictórico para o âmbito
literário –, pode ser lido como uma sátira à mediania e à letargia humana, notoriamente
engendradas por um pensamento que, mesmo quando permeado de maiores ambições, não
tem força para superar o peso da inapetência por transcender os limites de um
modo de vida opressivamente rotineiro.
Os três sextetos, à
maneira da própria pintura na qual se estriba, têm muito de caricaturais, mas
longe de se restringirem aos formalismos da estilização, são também, a meu ver,
propositivos, visto que expressam reflexões do autor nas searas do social e do filosófico,
incitando-nos a que saiamos do conformismo – tão característico das massas –, para
elevarmos o espírito num esforço resoluto da vontade.
J.A.R. – H.C.
Herman Melville
(1819-1891)
The Bench of Boors (*)
In bed I muse on
Tenier’s boors,
Embrowned and beery
losels all:
A wakeful brain
Elaborates pain:
Within low doors the
slugs of boors
Laze and yawn and
doze again.
In dreams they doze,
the drowsy boors.
Their hazy hovel warm
and small:
Thought’s ampler
bound
But chill is found:
Within low doors the
basking boors
Snugly hug the
ember-mound.
Sleepless, I see the
slumberous boors
Their blurred eyes
blink, their eyelids fall:
Thought’s eager sight
Aches – overbright!
Within low doors the
boozy boors
Cat-naps take in pipe-bowl light.
Campônios bebendo
(David Teniers, o
Jovem: pintor flamengo)
O Banco dos Camponeses
Na cama medito nos
camponeses de Tenier,
A penumbra e a
embriaguez tudo dilui:
Uma mente desperta
Concebe a dor:
Em casas humildes os
indolentes camponeses
Preguiçam e bocejam e
de novo dormitam.
Em sonhos dormitam,
os sonolentos camponeses.
Seus ébrios casebres,
quentes e pequenos:
O pensamento deve
voar
Mas o frio tolhe-o.
Em casas humildes os
imóveis camponeses
Aconchegam-se em
torno das braseiras.
Sem sono, vejo os
sonolentos camponeses,
Seus olhos enevoados
pestanejam, suas pestanas fecham-se:
A nítida visão do
pensamento
Dói – tão intensa é a
sua luz!
Em casas humildes os
ébrios camponeses
Dormitam envoltos na
névoa dos cachimbos.
Nota do Tradutor:
(*). Ekphrasis
de um quadro do pintor flamengo muito admirado por Melville, David Teniers.
(MELVILLE, 2009, p. 98)
Referência:
MELVILLE, Herman. The bench of boors / O banco dos camponeses. Tradução de Mário Avelar. In: __________. Poemas. Selecção, tradução e introdução de Mário Avelar. Edição bilíngue. Lisboa, PT: Assírio & Alvim, 2009. Em inglês: p. 76; em português: p. 77. (“Documenta Poética”; v. 128)
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