Alpes Literários

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UM PASSEIO PELOS ALPES LITERÁRIOS

sábado, 25 de abril de 2026

Gonçalo M. Tavares - O Escritor

O poeta convida o leitor a questionar o que define a figura do escritor, se o seu ofício ou o resultado de um desencanto vital – a saber, a partida de sua mulher – que lhe tira a motivação de cuidar da aparência, até mesmo porque a atenção aos requisitos das expectativas sociais, digo melhor, às exigências de aprovação externa, torna-se agora de somenos importância ante a resignação e a transformação que se processa por meio da relação do escritor com a solidão.

 

Com efeito, a moda e as convenções pré-estabelecidas não mais se impõem como parâmetros a serem prestigiados por quem, destarte, se dedica a ser autêntico em seu modo de ser e, por extensão, na índole com que vazada a sua escrita – eficaz salvatério para levá-lo à redenção pelas vias da ousadia, da originalidade e da criatividade, predispondo-o a reinventar sua própria existência.

 

J.A.R. – H.C.

 

Gonçalo M. Tavares

(n. 1970)

 

O Escritor

 

É um escritor ou então a mulher partiu com outro,

e o corpo não recuperou a vontade

de se preocupar com a roupa.

Espontâneo, vê-se; tudo o que traz vestido

apareceu-lhe à frente como numa colisão.

No entanto é discreto.

Tem a idade em que já não se desejam os olhares

dos outros.

Branco, o cabelo transmite paz e

uma pequena desistência.

Tem cachimbo, óculos,

na mesa revistas francesas sobre a alma

e os laboratórios que a estudam;

pega numa folha e começa a escrever.

Tem ar sóbrio, o corpo não dança,

vê-se que há muito venceu o medo de não ser

igual aos outros.

Escreve; passa a mão sobre a orelha.

É um escritor, em definitivo.

A luta não é com a solidão, vê-se que sabe usá-la,

percebe a sua natureza.

 

O escritor

(Rex M. Oppenheimer: artista norte-americano)

 

Referência:

 

TAVARES, Gonçalo M. O escritor. In: __________. 1: poemas. Rio de Janeiro, RJ: Bertrand Brasil, 2005. p. 18.

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