Neste excerto da longa
narrativa redigida por Blake com o título “John Milton, um Poema”, tem-se a
defesa da imaginação – em especial, a visionária – como uma forma do próprio
poder da criação divina ou mesmo como chave para se perceber a verdade eterna,
libertando o espírito das amarras da razão, do materialismo e da moralidade
convencional.
O poeta advoga, a
sério, a regeneração espiritual mediante o abandono de tudo o que é mecânico,
racional e limitante, digo melhor, de todo o legado do empirismo e da ciência
racional – apregoado por eminentes referências do pensamento moderno, como
Bacon, Locke e Newton –, o qual, segundo ele, teria imposto “trajos andrajosos”
a Albion (a personificação da Inglaterra ou, por extensão, a totalidade da
humanidade caída e fragmentada), despojando a
verdadeira poesia de suas revelações inspiradoras, de sua beleza e das emoções
que costuma suscitar.
É a exaltação radical
de todo o potencial criativo do homem, deixando-o de sujeitar à acumulação de
memórias, a formalismos e a sistemas de pensamento rígido que muitas vezes resultam
na adoção de padrões pré-estabelecidos na criação artística e na mera imitação da
natureza, tudo como forma de dar espaço ao livre influxo da essência do que de
mais profético há nas faculdades da mente humana.
J.A.R. – H.C.
William Blake
(1757-1827)
(Retratado por Thomas
Phillips)
Milton
(Excerpt)
The Negation is the
Spectre, the Reasoning Power in Man.
This is a false Body,
an Incrustation over my Immortal
Spirit, a Selfhood
which must be put off & annihilated alway.
To cleanse the Face
of my Spirit by self-examination,
To bathe in the
waters of Life; to wash off the Not Human
I come in
Self-annihilation & the grandeur of Inspiration,
To cast off Rational
Demonstration by Faith in the Saviour;
To cast off the
rotten rags of Memory by Inspiration;
To cast off Bacon,
Locke & Newton from Albion’s covering;
To take off his
filthy garments & clothe him with Imagination;
To cast aside from
Poetry all that is not Inspiration,
That it no longer
shall dare to mock with the aspersion of Madness
Cast on the Inspired,
by the tame high finisher of paltry Blots
Indefinite, or paltry
Rhymes, or paltry Harmonies;
Who creeps into State
Government like a caterpillar to destroy;
To cast off the idiot
Questioner, who is always questioning
But never capable of
answering, who sits with a sly grin
Silent plotting when
to question, like a thief in a cave;
Who publishes Doubt &
calls it Knowledge; whose Science is Despair,
Whose pretence to
knowledge is Envy, whose whole Science is
To destroy the wisdom
of ages to gratify ravenous Envy,
That rages round him
like a Wolf day & night without rest.
He smiles with
condescension; he talks of Benevolence & Virtue;
And those who act
with Benevolence & Virtue, they murder time on time.
These are the
destroyers of Jerusalem, these are the murderers
Of Jesus, who deny
the Faith & mock at Eternal Life;
Who pretend to Poetry,
that they may destroy Imagination
By imitation of
Nature’s Images drawn from Remembrance.
These are the Sexual
Garments, the Abomination of Desolation
Hiding the Human
Lineaments, as with an Ark & Curtains
Which Jesus rent &
now shall wholly purge away with Fire,
Till Generation is
swallow’d up in Regeneration.
Renascimento de um
Homem
(Pavel Filonov:
pintor russo)
Milton
(Excerto)
A Negação é o
Espectro, o Poder Raciocinador no Homem.
Este é um Corpo falso,
uma Incrustação sobre o meu Espírito
Imortal, um Ego que
deve ser despido & aniquilado para sempre.
Limpar o Rosto do meu
Espírito em Exame de Consciência,
Para me banhar nas
Águas da Vida e lavar o Não Humano
Venho em
Autoaniquilação & em grandeza de Inspiração,
Livrar-me da
Demonstração Racional pela Fé no Salvador;
Livrar-me dos trapos
corrompidos da Memória pela Inspiração;
Expulsar Bacon, Locke
& Newton do manto de Albion;
Despir-lhe os trajos
andrajosos & vesti-lo de Imaginação;
Expulsar da Poesia
tudo o que não for Inspiração;
Para que não mais se
atreva a zombar com o epíteto de Loucura
Lançado sobre os
Inspirados pelo insípido acabador de Borrões desprezíveis,
Indefinidas ou
desprezíveis Rimas, ou desprezíveis Harmonias;
Quem rasteja para o
Governo do Estado como a lagarta para destruir;
Para livrar-me do
Perguntador idiota que está sempre a perguntar,
Mas nunca é capaz de
dar uma resposta, que se senta com sorriso fingido
Congeminando a
pergunta em silêncio, como um ladrão na gruta;
Que publica Dúvidas &
chama-lhes Conhecimento; cuja Ciência é o Desespero,
Cuja pretensão ao
conhecimento é a Inveja, cuja inteira Ciência é
Destruir o saber de
muitas eras para gratificar a Inveja voraz,
Que grassa à sua
volta como um Lobo, dia & noite, sem descanso.
Ele sorri com
condescendência; fala de Benevolência & Virtude;
E os que agem com
Benevolência & Virtude são assassinados vezes sem conta.
Estes são os
destruidores de Jerusalém, estes são os assassinos
De Jesus, que negam a
Fé & zombam da Vida Eterna;
Que se valem da
Poesia, para destruírem a Imaginação
Por imitação de
Imagens da Natureza desenhadas a partir da Lembrança.
Estas são as Vestes
Sexuais, a Abominação da Desolação
Que esconde as
Feições Humanas, como com uma Arca & Cortinas
Que Jesus rasgou, &
agora há-de purificar inteiramente com Fogo,
Até a Geração se ver
engolida pela Regeneração.
Referência:
BLAKE, William.
Milton (Excerpt) / Milton (Excerto). Tradução de Manuel Portela. In:
__________. Milton. Tradução, introdução e notas de Manuel Portela.
Edição bilíngue: inglês x português. 1. ed. São Paulo, SP: Nova Alexandria,
2014. Em inglês: p. 216 e 218; em português: p. 217 e 219.
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