Alpes Literários

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UM PASSEIO PELOS ALPES LITERÁRIOS

terça-feira, 7 de abril de 2026

William Blake - Milton (Excerto)

Neste excerto da longa narrativa redigida por Blake com o título “John Milton, um Poema”, tem-se a defesa da imaginação – em especial, a visionária – como uma forma do próprio poder da criação divina ou mesmo como chave para se perceber a verdade eterna, libertando o espírito das amarras da razão, do materialismo e da moralidade convencional.

 

O poeta advoga, a sério, a regeneração espiritual mediante o abandono de tudo o que é mecânico, racional e limitante, digo melhor, de todo o legado do empirismo e da ciência racional – apregoado por eminentes referências do pensamento moderno, como Bacon, Locke e Newton –, o qual, segundo ele, teria imposto “trajos andrajosos” a Albion (a personificação da Inglaterra ou, por extensão, a totalidade da humanidade caída e fragmentada), despojando a verdadeira poesia de suas revelações inspiradoras, de sua beleza e das emoções que costuma suscitar.

 

É a exaltação radical de todo o potencial criativo do homem, deixando-o de sujeitar à acumulação de memórias, a formalismos e a sistemas de pensamento rígido que muitas vezes resultam na adoção de padrões pré-estabelecidos na criação artística e na mera imitação da natureza, tudo como forma de dar espaço ao livre influxo da essência do que de mais profético há nas faculdades da mente humana.

 

J.A.R. – H.C.

 

William Blake

(1757-1827)

(Retratado por Thomas Phillips)

 

Milton

(Excerpt)

 

The Negation is the Spectre, the Reasoning Power in Man.

This is a false Body, an Incrustation over my Immortal

Spirit, a Selfhood which must be put off & annihilated alway.

To cleanse the Face of my Spirit by self-examination,

To bathe in the waters of Life; to wash off the Not Human

I come in Self-annihilation & the grandeur of Inspiration,

To cast off Rational Demonstration by Faith in the Saviour;

To cast off the rotten rags of Memory by Inspiration;

To cast off Bacon, Locke & Newton from Albion’s covering;

To take off his filthy garments & clothe him with Imagination;

To cast aside from Poetry all that is not Inspiration,

That it no longer shall dare to mock with the aspersion of Madness

Cast on the Inspired, by the tame high finisher of paltry Blots

Indefinite, or paltry Rhymes, or paltry Harmonies;

Who creeps into State Government like a caterpillar to destroy;

To cast off the idiot Questioner, who is always questioning

But never capable of answering, who sits with a sly grin

Silent plotting when to question, like a thief in a cave;

Who publishes Doubt & calls it Knowledge; whose Science is Despair,

Whose pretence to knowledge is Envy, whose whole Science is

To destroy the wisdom of ages to gratify ravenous Envy,

That rages round him like a Wolf day & night without rest.

He smiles with condescension; he talks of Benevolence & Virtue;

And those who act with Benevolence & Virtue, they murder time on time.

These are the destroyers of Jerusalem, these are the murderers

Of Jesus, who deny the Faith & mock at Eternal Life;

Who pretend to Poetry, that they may destroy Imagination

By imitation of Nature’s Images drawn from Remembrance.

These are the Sexual Garments, the Abomination of Desolation

Hiding the Human Lineaments, as with an Ark & Curtains

Which Jesus rent & now shall wholly purge away with Fire,

Till Generation is swallow’d up in Regeneration.

 

Renascimento de um Homem

(Pavel Filonov: pintor russo)

 

Milton

(Excerto)

 

A Negação é o Espectro, o Poder Raciocinador no Homem.

Este é um Corpo falso, uma Incrustação sobre o meu Espírito

Imortal, um Ego que deve ser despido & aniquilado para sempre.

Limpar o Rosto do meu Espírito em Exame de Consciência,

Para me banhar nas Águas da Vida e lavar o Não Humano

Venho em Autoaniquilação & em grandeza de Inspiração,

Livrar-me da Demonstração Racional pela Fé no Salvador;

Livrar-me dos trapos corrompidos da Memória pela Inspiração;

Expulsar Bacon, Locke & Newton do manto de Albion;

Despir-lhe os trajos andrajosos & vesti-lo de Imaginação;

Expulsar da Poesia tudo o que não for Inspiração;

Para que não mais se atreva a zombar com o epíteto de Loucura

Lançado sobre os Inspirados pelo insípido acabador de Borrões desprezíveis,

Indefinidas ou desprezíveis Rimas, ou desprezíveis Harmonias;

Quem rasteja para o Governo do Estado como a lagarta para destruir;

Para livrar-me do Perguntador idiota que está sempre a perguntar,

Mas nunca é capaz de dar uma resposta, que se senta com sorriso fingido

Congeminando a pergunta em silêncio, como um ladrão na gruta;

Que publica Dúvidas & chama-lhes Conhecimento; cuja Ciência é o Desespero,

Cuja pretensão ao conhecimento é a Inveja, cuja inteira Ciência é

Destruir o saber de muitas eras para gratificar a Inveja voraz,

Que grassa à sua volta como um Lobo, dia & noite, sem descanso.

Ele sorri com condescendência; fala de Benevolência & Virtude;

E os que agem com Benevolência & Virtude são assassinados vezes sem conta.

Estes são os destruidores de Jerusalém, estes são os assassinos

De Jesus, que negam a Fé & zombam da Vida Eterna;

Que se valem da Poesia, para destruírem a Imaginação

Por imitação de Imagens da Natureza desenhadas a partir da Lembrança.

Estas são as Vestes Sexuais, a Abominação da Desolação

Que esconde as Feições Humanas, como com uma Arca & Cortinas

Que Jesus rasgou, & agora há-de purificar inteiramente com Fogo,

Até a Geração se ver engolida pela Regeneração.

 

Referência:

 

BLAKE, William. Milton (Excerpt) / Milton (Excerto). Tradução de Manuel Portela. In: __________. Milton. Tradução, introdução e notas de Manuel Portela. Edição bilíngue: inglês x português. 1. ed. São Paulo, SP: Nova Alexandria, 2014. Em inglês: p. 216 e 218; em português: p. 217 e 219.

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