Lorde emprega imagens
contundentes e algo devastadoras nestes versos, tudo para aquilatar o modo como
as experiências traumáticas se internalizam e configuram a identidade de alguém,
impondo expectativas e barreiras que, “como flechas”, ferem a sua percepção
pessoal e a visão de mundo que passará a orientá-la ao longo da existência.
Percebe-se na
elocução da falante, a herança de um sofrimento que se converteu numa complexa
construção pessoal e social, desde o nascimento forçado – não exatamente um ato
de geração amoroso –, passando por um aparato de proteção e pertencimento
inadequado – entenda-se bem, limitante e cheio de interditos –, até chegar nos
esconsos onde proliferam as mudas da opressão social e de gênero.
Desponta nos versos,
ademais, uma denúncia à imposição de modelos e lendas plasmados nos mitos de
uma sociedade dominada por cânones porventura eurocêntricos (refiro-me à menção
aos contos de fadas, povoados de magas brancas), os quais pouco ou nada têm a
ver com a experiência vital das mulheres negras, tanto mais que, amiúde, infensos
ao acolhimento do que quer que se manifeste por efeito da diversidade.
J.A.R. – H.C.
Audre Lorde
(1934-1992)
Story Books on a Kitchen
Table
Out of her womb of
pain my mother spat me
into her ill-fitting
harness of despair
into her deceits
where anger
reconceived me
piercing my eyes like
arrows
pointed by her
nightmare
of who I was not
becoming.
Going away
she left me in her
place
iron maidens to
protect me
and for my food
the wrinkled milk of
legend
where I wandered through
lonely rooms of afternoon
wrapped in nightmare
from the Orange and Red
and Yellow
Purple and Blue and Green
Fairy Books
where White witches
ruled
over the kitchen
table
and never wept
or offered gold
nor any kind
enchantment
for the vanished mother
of a black girl.
In: “Coal” (1976)
Natureza-morta com
livros, frutas e óculos
sobre a mesa diante
de uma janela
(Dmitri Annenkov:
pintor russo)
Livros de Contos
sobre uma Mesa de Cozinha
Do seu ventre de dor
minha mãe cuspiu-me
em seu sufocante arnês
de desespero
em seus enganos
onde a raiva me
reconcebeu
trespassando meus
olhos como flechas
afiadas pelo seu
pesadelo
de quem eu não estava
a me tornar.
Ausentando-se
ela deixou-me em seu
lugar
donzelas de ferro
para me protegerem
e como meu alimento
o leite crispado da
lenda
por onde eu vagueava
em solitários cômodos
durante a tarde
envolta em pesadelos
de Laranja de
Vermelho e de Amarelo
de Púrpura de Azul e
de Verde
Livros de fadas
sobre a mesa da
cozinha
nos quais reinavam as
bruxas brancas
que nunca vertiam
lágrimas
tampouco ofereciam
ouro
ou qualquer tipo de magia
pela mãe desaparecida
de uma menina negra.
Em: “Carvão” (1976)
Referência:
LORDE, Audre. Story
books on a kitchen table. In: __________. The collected poems of Audre Lorde.
1st ed., 1st reimp. New Yor, NY: W. W. Norton, 2000. p. 179.
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