Alpes Literários

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UM PASSEIO PELOS ALPES LITERÁRIOS

quarta-feira, 8 de abril de 2026

Frank Bidart - Injunção

O poeta se serve dos edifícios como metáforas das estruturas culturais e sociais que sustentam o nosso mundo, e aponta como – ao nomear, categorizar e definir – a linguagem acaba por se tornar uma espécie de arma a que comumente se recorre nessa constante batalha, haja vista que, mesmo sendo um instrumento de inclusão, pode ela muito bem ser empregada para dividir, hierarquizar e excluir.

 

Bidart faz eco à antiga noção de que a linguagem não é neutra, pois, se por um lado, nos serve para impor ordem sobre o caos do mundo, por outro, também possibilita colonizar a subjetividade alheia: nomear algo é tentar dominá-lo, controlá-lo. Assim, cada instituição — templo, escola, mercado, banco — tenta abolir ou suprimir as outras, porque todas elas carregam visões de mundo diferentes entre si, cada qual com suas cargas ideológicas, funções, valores e objetivos bem demarcados, amiúde incompatíveis.

 

A intitulada “injunção” se torna mais explícita nos versos finais do poema, ao longo dos quais as palavras tecem um chamamento à desconstrução radical, uma invocação para que se transcendam as categorias impostas pela linguagem e pela história. Com efeito, a imagem de se “fixar” algo “fora do tempo” poderia simbolizar o afã por libertar-se dessas lutas semânticas, pondo fim a um ciclo interminável de conflitos resultantes dos aparatos de dominação, simbólicos ou reais.

 

J.A.R. – H.C.

 

Frank Bidart

(n. 1939)

 

Injunction

 

As if the names we use to name the uses of buildings

x-ray our souls, war without end:

 

Palace. Prison. Temple. School.

Market. Theatre. Brothel. Bank.

 

War without end. Because to name is to possess

the dreams of strangers, the temple

 

is offended by, demands the abolition of brothel, now theatre, now

school, the school despises temple, palace, market, bank; the bank by

 

refusing to name depositors welcomes all, though in rage prisoners each

night gnaw to dust another stone piling under the palace.

 

War without end. Therefore time past time:

 

Rip through the fabric. Nail it. Not

to the wall. Rip through

 

the wall. Outside

 

time. Nail it.

 

In: “Star Dust” (2005)

 

O Homem Quadrado

(Karel Appel: artista holandês)

 

Injunção

 

Como se os nomes que atribuímos às funções dos diversos prédios

nos radiografassem a alma, dando ensejo a uma guerra sem fim:

 

Palácio. Prisão. Templo. Escola.

Mercado. Teatro. Bordel. Banco.

 

Uma guerra sem fim. Porque nomear é passar a dispor

dos sonhos de estranhos, o templo

 

se ofende e exige a extinção do bordel – em seguida, do teatro, e por fim,

da escola; a escola, por sua vez, despreza o templo, o palácio, o mercado

e o banco; enquanto o banco,

 

recusando-se a identificar seus depositantes, acolhe a todos, embora

prisioneiros em fúria,

a cada noite, reduzam a pó mais uma pedra dos alicerces do palácio.

 

Uma guerra sem fim. Com isso, o tempo transcende o próprio tempo:

 

Rasgue a trama. Fixe-a. Não

 

sobre o muro. Derrube

 

o muro. Fixe-a

 

para além do tempo.

 

Em: “Poeira Estelar” (2005)

 

Referência:

 

BIDART, Frank. Injunction. In: PINSK, Robert (Guest Editor); LEHMAN, David (Series Editor). The best of the best american poetry: 25th anniversary edition. 1st Scribner Poetry edition. New York, NY: Scribner Poetry, apr. 2013. p. 29.

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