Nestes versos do
poeta indiano replicam-se as ideias que se orientam a levar o leitor até as lindes
do inefável, para transcender as humanas limitações e entrar em sintonia com a
essência do Tao. Para tanto, o autor nos convida a soltar as amarras – decerto
um chamado a que nos desapeguemos de todas as formas e expectativas rígidas – e
a adotar uma atitude de leveza perante a vida, como uma folha levada pela brisa.
Com efeito, não há
pressa na natureza e, nela, o efêmero se desvanece sem resistência, padrões
esses que refletem os estados de fluidez e de adaptabilidade, cujos predicados o
poeta busca sedimentar no comportamento do ser humano.
Outros aspectos abordados no poema são a exaltação do silêncio – uma linguagem que transmite sabedoria sem recorrer à verbosidade superficial –; a prescindibilidade do afã de a tudo controlar, para que possamos atenuar os imperativos do ego e das paixões que nos perturbam; a necessidade de redescobrirmos uma verdade primordial, para além de todas as estruturas e crenças pré-estabelecidas; e por último, mas não menos importante, o primado taoísta da ação sem esforço, da aparente inação para se levar a efeito tão somente aquilo que concorra para uma existência mais plena e em harmonia com a natureza.
J.A.R. – H.C.
K. Satchidanandan
(n. 1946)
How to Go to the Tao
Temple
Don’t lock the door.
Go lightly like the
leaf in the breeze
along the dawn’s
valley.
If you are too fair
cover yourself with
ash.
If too clever, go
half-asleep.
That which is fast
will tire fast:
be slow, slow as
stillness.
Be formless like
water.
Lie low, don’t even
try to go up.
Don’t go round the
deity:
Nothingness has no directions,
no front, nor back.
Don’t call It by
name,
Its name has no name.
No offerings: empty
pots
are easier to carry
than full ones.
No prayers too:
desires
have no place here.
Speak silently, if
speak you must:
like the rock
speaking to trees
and leaves to
flowers.
Silence is the
sweetest of voices
and Nothingness has
the fairest of
colours.
Let none see you
coming
and none, going.
Cross the threshold
shrunken
like one crossing a
river in winter.
You have only a
second here
like melting snow.
No pride: you are not
even formed.
No anger: not even
dust is
at your command
No sorrow: it doesn’t
alter anything.
Renounce greatness:
there’s no other way
to be great.
Don’t ever use your
hands:
they are
contemplating
not love, but
violence.
Let the fish lie in
its water
and the fruit on its
bough.
The soft one shall
survive the hard,
like the tongue that
survives the teeth.
Only the one who does
nothing
can do everything.
Go, the unmade idol
awaits you.
Monge em contemplação
na frente de um templo
(Imagem sem créditos)
Como chegar ao templo
do Tao
Não tranque a porta.
Caminhe leve como a
folha na brisa
ao longo do vale do
amanhecer.
Se você é muito bom,
cubra-se com cinzas.
Se é muito esperto,
vá sonolento.
O que for mais rápido
Cansará mais rápido:
seja lento, lento
como a permanência.
Seja sem forma como a
água.
Deite embaixo, não
tente sequer levantar.
Não dê voltas na
deidade;
O nada não tem
direções,
Nem frente, nem ré.
Não chame pelo nome,
seu nome não tem
nome.
Nenhuma oferta: potes
vazios
são mais fáceis de
carregar do que os cheios.
Nenhuma prece
tampouco: desejos
não têm lugar aqui.
Fale silenciosamente,
se precisar falar:
como a pedra fala às
árvores
e as folhas às
flores.
O silêncio é a mais
doce das vozes
e o Nada tem
a cor mais bela de
todas.
Não deixe ninguém ver
você chegar,
nem ninguém ver você
sair.
Cruze o enrugado
limítrofe
como se cruza um rio
no inverno.
Você tem um momento
aqui
como derrete a neve.
Nenhum orgulho: você
sequer se formou.
Nenhuma ira: nem
mesmo a poeira
está sob o seu
comando.
Nenhum remorso: ele
não altera nada.
Renuncie à grandeza;
não existe outra
forma de ser grande.
Nem mesmo use suas
mãos:
elas estão
contemplando
não o amor, mas
violência.
Deixe o peixe ficar
na água
e a fruta, no seu
galho.
O macio sobreviverá
ao duro,
como a língua
sobrevive aos dentes.
Só aquele que não faz
nada
pode fazer tudo.
Vá, o ídolo não
criado
lhe espera.
Referências:
Em Inglês
SATCHIDANANDAN, K. How
to go to the Tao temple. In: __________. How to go to the Tao temple / 如何去道觀. A
bilingual edition: English x Chinese. Hong Kong, CN: The Chinese University
of Hong Kong Press, 2019. p. 28-30.
Em Português
SATCHIDANANDAN, K. Como chegar ao templo do Tao. Tradução de Ana Paula Arendt. Cadernos de Literatura em Tradução, São Paulo (SP), FFLCH/USP, n. 19, Especial Índia: 100 grandes poemas da Índia, p. 56-57, jan. 2018.
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