Alpes Literários

Alpes Literários

Subtítulo

UM PASSEIO PELOS ALPES LITERÁRIOS

quarta-feira, 15 de abril de 2026

K. Satchidanandan - Como chegar ao templo do Tao

Nestes versos do poeta indiano replicam-se as ideias que se orientam a levar o leitor até as lindes do inefável, para transcender as humanas limitações e entrar em sintonia com a essência do Tao. Para tanto, o autor nos convida a soltar as amarras – decerto um chamado a que nos desapeguemos de todas as formas e expectativas rígidas – e a adotar uma atitude de leveza perante a vida, como uma folha levada pela brisa.

 

Com efeito, não há pressa na natureza e, nela, o efêmero se desvanece sem resistência, padrões esses que refletem os estados de fluidez e de adaptabilidade, cujos predicados o poeta busca sedimentar no comportamento do ser humano.

 

Outros aspectos abordados no poema são a exaltação do silêncio – uma linguagem que transmite sabedoria sem recorrer à verbosidade superficial –; a prescindibilidade do afã de a tudo controlar, para que possamos atenuar os imperativos do ego e das paixões que nos perturbam; a necessidade de redescobrirmos uma verdade primordial, para além de todas as estruturas e crenças pré-estabelecidas; e por último, mas não menos importante, o primado taoísta da ação sem esforço, da aparente inação para se levar a efeito tão somente aquilo que concorra para uma existência mais plena e em harmonia com a natureza. 

J.A.R. – H.C.

 

K. Satchidanandan

(n. 1946)

 

How to Go to the Tao Temple

 

Don’t lock the door.

Go lightly like the leaf in the breeze

along the dawn’s valley.

If you are too fair

cover yourself with ash.

If too clever, go half-asleep.

That which is fast

will tire fast:

be slow, slow as stillness.

 

Be formless like water.

Lie low, don’t even try to go up.

Don’t go round the deity:

Nothingness has no directions,

no front, nor back.

Don’t call It by name, 

Its name has no name.

No offerings: empty pots

are easier to carry than full ones.

No prayers too: desires

have no place here.

 

Speak silently, if speak you must:

like the rock speaking to trees

and leaves to flowers.

Silence is the sweetest of voices

and Nothingness has

the fairest of colours.

 

Let none see you coming

and none, going.

Cross the threshold shrunken

like one crossing a river in winter.

You have only a second here

like melting snow.

 

No pride: you are not even formed.

No anger: not even dust is

at your command

No sorrow: it doesn’t alter anything.

Renounce greatness:

there’s no other way to be great.

Don’t ever use your hands:

they are contemplating

not love, but violence.

 

Let the fish lie in its water

and the fruit on its bough.

The soft one shall survive the hard,

like the tongue that survives the teeth.

Only the one who does nothing

can do everything.

 

Go, the unmade idol

awaits you.

 

Monge em contemplação

na frente de um templo

(Imagem sem créditos)

 

Como chegar ao templo do Tao

 

Não tranque a porta.

Caminhe leve como a folha na brisa

ao longo do vale do amanhecer.

Se você é muito bom,

cubra-se com cinzas.

Se é muito esperto, vá sonolento.

O que for mais rápido

Cansará mais rápido:

seja lento, lento como a permanência.

 

Seja sem forma como a água.

Deite embaixo, não tente sequer levantar.

Não dê voltas na deidade;

O nada não tem direções,

Nem frente, nem ré.

Não chame pelo nome,

seu nome não tem nome.

Nenhuma oferta: potes vazios

são mais fáceis de carregar do que os cheios.

Nenhuma prece tampouco: desejos

não têm lugar aqui.

 

Fale silenciosamente, se precisar falar:

como a pedra fala às árvores

e as folhas às flores.

O silêncio é a mais doce das vozes

e o Nada tem

a cor mais bela de todas.

 

Não deixe ninguém ver você chegar,

nem ninguém ver você sair.

Cruze o enrugado limítrofe

como se cruza um rio no inverno.

Você tem um momento aqui

como derrete a neve.

 

Nenhum orgulho: você sequer se formou.

Nenhuma ira: nem mesmo a poeira

está sob o seu comando.

Nenhum remorso: ele não altera nada.

Renuncie à grandeza;

não existe outra forma de ser grande.

Nem mesmo use suas mãos:

elas estão contemplando

não o amor, mas violência.

 

Deixe o peixe ficar na água

e a fruta, no seu galho.

O macio sobreviverá ao duro,

como a língua sobrevive aos dentes.

Só aquele que não faz nada

pode fazer tudo.

 

Vá, o ídolo não criado

lhe espera.

 

Referências:

 

Em Inglês

 

SATCHIDANANDAN, K. How to go to the Tao temple. In: __________. How to go to the Tao temple / 如何去道觀. A bilingual edition: English x Chinese. Hong Kong, CN: The Chinese University of Hong Kong Press, 2019. p. 28-30.

 

Em Português

 

SATCHIDANANDAN, K. Como chegar ao templo do Tao. Tradução de Ana Paula Arendt. Cadernos de Literatura em Tradução, São Paulo (SP), FFLCH/USP, n. 19, Especial Índia: 100 grandes poemas da Índia, p. 56-57, jan. 2018.

Nenhum comentário:

Postar um comentário