Alpes Literários

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UM PASSEIO PELOS ALPES LITERÁRIOS

domingo, 5 de abril de 2026

Juan Domingo Argüelles - Bibliografia

O autor mexicano formula o seu juízo acerca da relação entre a disciplina e a inspiração no processo criativo, sublinhando que o verdadeiro desafio do poeta consiste em transformar a rotina em um ato artístico, com o que faz terra arrasada da idealização romântica do gênio atormentado em favor de uma prática sustentável e realista, assente numa estratégia libertadora por meio da qual se consegue engendrar uma obra honesta e de conteúdo de valor induvidoso.

 

Argüelles recorre à ironia e a um tom meio confessional para defender a ideia de que a escrita pode – digo melhor, deve – subordinar-se a uma rigorosa organização, em pleno concerto com os tons do humor e da autocrítica: isso é o que leva o poeta a tornar-se diligente e metódico, capacitando-o, ademais, a filtrar e a reter somente a parte essencial do seu caudal criativo.

 

Ao longo dessa genuína declaração de intenções, centrada na lógica construtivista do poema, Argüelles cita, em proveito de seus argumentos, a obra icônica de Pablo Neruda – “Vinte Poemas de Amor e uma Canção Desesperada”, de 1924 –, decerto para, de forma brincalhona, aludir à possibilidade de se recorrer mesmo ao desconsolo para se criar uma obra com mínimas quantidades de material.

 

Outro ponto a observar – neste caso, não atinente a eventual escólio ao poema ora postado – é o fato de que a tradução ao português apresenta quantitativos diferentes no número de poemas redigidos durante semanas e anos, em relação ao texto em espanhol, obtido por consulta ao endereço da grande rede apresentado, mais abaixo, no campo de “Referências”: consigne-se que este último é mais consistente, em termos matemáticos, quanto ao número de semanas existentes em cada ano, vale dizer, 365/7 = 52.

 

J.A.R. – H.C.

 

Juan Domingo Argüelles

(n. 1958)

 

Bibliografía

 

Para Marco Antonio Campos

 

Si, religiosamente, escribo un poema cada semana,

dentro de un año tendré 52;

al cabo de dos años, 104;

dentro de tres, 156.

Si aplico la autocrítica vigilante

(no tanta, por supuesto: soy loco, no suicida),

quizá pueda quedarme con la centena

para, después de revisarla severamente,

tener entre las manos 33.

 

Treinta y tres poemas pueden hacer un libro

si les ponemos blancas y un epígrafe,

los dividimos en tres o cuatro partes

(por ejemplo, Uno, Dos, Tres, o Norte, Sur, Este y Oeste)

y los dotamos de una tipografía grande

(14 puntos de Bodoni)

que los haga dar vuelta a la siguiente página.

 

Después de todo no está tan mal.

Visto objetivamente, 33 poemas no está nada mal.

Hay quien publica libros de 20 poemas

(y una canción desesperada),

y muchos hay (muchísimos gandules)

que hacen un libro desesperado con 20 poemas

y ni el consuelo nos dan de la canción.

 

Lo he decidido: escribiré un poema cada semana.

No tengo nada que perder.

Cada semana, muchos escriben un libro;

muchos, incluso, lo publican,

aunque ni sus parientes lo vayan a leer.

 

O poeta

(Howard Taft Lorenz: pintor norte-americano)

 

Bibliografia

 

Para Marco Antonio Campos

 

Sim, religiosamente, escrevo um poema a cada semana,

dentro de um ano terei 48 poemas;

ao cabo de dois anos, 96;

dentro de três, 144.

Se aplico a autocrítica vigilante

(não tanta, certamente: sou louco, não suicida),

talvez possa ficar com a centena

para, depois de revisá-la severamente,

ter entre as mãos a metade.

 

Cinquenta poemas já dão um livro

se lhe acrescentamos as páginas brancas,

os dividimos em três ou quatro partes

(por exemplo, Um, Dois, Três, ou Norte, Sul, Leste e Oeste)

e os dotamos de uma tipografia grande

(14 pontos de Bodoni)

que os faça dar volta até a página seguinte.

 

Depois de tudo não está tão mal.

Visto objetivamente, meia centena não está nada mal.

Há quem publica livros com 20 poemas

(c uma canção desesperada),

e muitos há (muitíssimos molengas)

que fazem um livro desesperado com 20 poemas

e nem o consolo nos dão da canção.

 

Já o decidi: escreverei um poema a cada semana.

Não tenho nada a perder.

A cada semana, muitos escrevem um livro;

muitos, inclusive, o publicam,

ainda que nem mesmo seus parentes o irão ler.

 

Referências:

 

Em Espanhol

 

ARGÜELLES, Juan Domingo. Bibliografía. Disponível neste endereço. Acesso em: 27 mar. 2026.

 

Em Português

 

ARGÜELLES, Juan Domingo. Bibliografia. Tradução de Floriano Martins. In: LANGAGNE, Eduardo (Organização e Estudo Introdutório). Dentro do poema: poetas mexicanos nascidos entre 1950 e 1959. Tradução de Floriano Martins. Coedição com a Secretaria de Cultura do Estado do Ceará - Secult. Fortaleza, CE: Edições UFC, 2009. p. 176-177. (Coleção Nossa Cultura, n. 1; Série Bolivariana, n. 3)

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