O autor mexicano formula
o seu juízo acerca da relação entre a disciplina e a inspiração no processo
criativo, sublinhando que o verdadeiro desafio do poeta consiste em transformar
a rotina em um ato artístico, com o que faz terra arrasada da idealização
romântica do gênio atormentado em favor de uma prática sustentável e realista, assente
numa estratégia libertadora por meio da qual se consegue engendrar uma obra honesta
e de conteúdo de valor induvidoso.
Argüelles recorre à
ironia e a um tom meio confessional para defender a ideia de que a escrita pode
– digo melhor, deve – subordinar-se a uma rigorosa organização, em pleno
concerto com os tons do humor e da autocrítica: isso é o que leva o poeta a
tornar-se diligente e metódico, capacitando-o, ademais, a filtrar e a reter
somente a parte essencial do seu caudal criativo.
Ao longo dessa
genuína declaração de intenções, centrada na lógica construtivista do poema, Argüelles
cita, em proveito de seus argumentos, a obra icônica de Pablo Neruda – “Vinte
Poemas de Amor e uma Canção Desesperada”, de 1924 –, decerto para, de forma
brincalhona, aludir à possibilidade de se recorrer mesmo ao desconsolo para se
criar uma obra com mínimas quantidades de material.
Outro ponto a observar
– neste caso, não atinente a eventual escólio ao poema ora postado – é o fato
de que a tradução ao português apresenta quantitativos diferentes no número de
poemas redigidos durante semanas e anos, em relação ao texto em espanhol, obtido
por consulta ao endereço da grande rede apresentado, mais abaixo, no campo de “Referências”:
consigne-se que este último é mais consistente, em termos matemáticos, quanto
ao número de semanas existentes em cada ano, vale dizer, 365/7 = 52.
J.A.R. – H.C.
Juan Domingo
Argüelles
(n. 1958)
Bibliografía
Para Marco Antonio
Campos
Si, religiosamente,
escribo un poema cada semana,
dentro de un año
tendré 52;
al cabo de dos años,
104;
dentro de tres, 156.
Si aplico la
autocrítica vigilante
(no tanta, por
supuesto: soy loco, no suicida),
quizá pueda quedarme
con la centena
para, después de
revisarla severamente,
tener entre las manos
33.
Treinta y tres poemas
pueden hacer un libro
si les ponemos
blancas y un epígrafe,
los dividimos en tres
o cuatro partes
(por ejemplo, Uno,
Dos, Tres, o Norte, Sur, Este y Oeste)
y los dotamos de una
tipografía grande
(14 puntos de Bodoni)
que los haga dar
vuelta a la siguiente página.
Después de todo no
está tan mal.
Visto objetivamente,
33 poemas no está nada mal.
Hay quien publica
libros de 20 poemas
(y una canción
desesperada),
y muchos hay
(muchísimos gandules)
que hacen un libro
desesperado con 20 poemas
y ni el consuelo nos
dan de la canción.
Lo he decidido:
escribiré un poema cada semana.
No tengo nada que
perder.
Cada semana, muchos
escriben un libro;
muchos, incluso, lo
publican,
aunque ni sus
parientes lo vayan a leer.
O poeta
(Howard Taft Lorenz: pintor
norte-americano)
Bibliografia
Para Marco Antonio
Campos
Sim, religiosamente,
escrevo um poema a cada semana,
dentro de um ano
terei 48 poemas;
ao cabo de dois anos,
96;
dentro de três, 144.
Se aplico a
autocrítica vigilante
(não tanta,
certamente: sou louco, não suicida),
talvez possa ficar
com a centena
para, depois de
revisá-la severamente,
ter entre as mãos a
metade.
Cinquenta poemas já
dão um livro
se lhe acrescentamos
as páginas brancas,
os dividimos em três
ou quatro partes
(por exemplo, Um,
Dois, Três, ou Norte, Sul, Leste e Oeste)
e os dotamos de uma
tipografia grande
(14 pontos de Bodoni)
que os faça dar volta
até a página seguinte.
Depois de tudo não
está tão mal.
Visto objetivamente,
meia centena não está nada mal.
Há quem publica
livros com 20 poemas
(c uma canção
desesperada),
e muitos há
(muitíssimos molengas)
que fazem um livro
desesperado com 20 poemas
e nem o consolo nos
dão da canção.
Já o decidi:
escreverei um poema a cada semana.
Não tenho nada a
perder.
A cada semana, muitos
escrevem um livro;
muitos, inclusive, o
publicam,
ainda que nem mesmo
seus parentes o irão ler.
Referências:
Em Espanhol
ARGÜELLES, Juan
Domingo. Bibliografía. Disponível neste endereço. Acesso em: 27 mar.
2026.
Em Português
ARGÜELLES, Juan
Domingo. Bibliografia. Tradução de Floriano Martins. In: LANGAGNE, Eduardo
(Organização e Estudo Introdutório). Dentro do poema: poetas mexicanos
nascidos entre 1950 e 1959. Tradução de Floriano Martins. Coedição com a
Secretaria de Cultura do Estado do Ceará - Secult. Fortaleza, CE: Edições UFC,
2009. p. 176-177. (Coleção Nossa Cultura, n. 1; Série Bolivariana, n. 3)
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