Um dos muitos poemas
da série “Descobrimento”, insertos na coletânea “Plural de Nuvens”, de 1984, este
soneto de Teles, com inusual topografia, alberga a ideia de que o idioma é algo
maleável, adaptável aos numerosos contextos e culturas em que se inserto,
interagindo com diferentes realidades sem se deformar por completo, o que, em
última instância, atesta as suas propriedades “elásticas”, como flexibilidade e
resistência.
Sob tal mirada,
exposta ao que há de mais contingente na história, a língua se enriquece e se
molda aos novos falares de cada época, sem perder a sua autenticidade, sua
resiliente identidade, haja vista que dificilmente reciclável ou substituível,
apesar dos efeitos de desgaste provocados pelo tempo sobre determinados
vocábulos ou formas estruturantes do discurso.
Sem nunca retornar ao
seu estado original depois de retesado, segue então o idioma como a vida, a incorporar
de modo irreversível as transformações pelas quais passa – os efeitos de
eventuais coloquialismos, de reiteradas inflexões lúdicas ou mesmo os
revérberos dos humores daqueles que a empregam no quotidiano –, passando a
espelhar a beleza intrínseca de seu distintivo processo evolutivo.
J.A.R. – H.C.
Gilberto Mendonça
Teles
(1931-2024)
Língua
Esta língua é como um
elástico
que espicharam pelo
mundo.
No início era tensa,
de tão clássica.
Com o tempo, se foi
amaciando,
foi-se tornando
romântica,
incorporando os
termos nativos
e amolecendo nas
folhas de bananeira
as expressões mais
sisudas.
Um elástico que já
não se pode
mais trocar, de tão
gasto;
nem se arrebenta
mais, de tão forte.
Um elástico assim
como é a vida
que nunca volta ao
ponto de partida.
Em: “Plural de
Nuvens” (1984)
Conexão lúdica com o
abstrato
(Juan Carlos Navarro:
artista mexicano)
Referência:
TELES, Gilberto
Mendonça. Língua. In: __________. Melhores poemas de Gilberto Mendonça Teles.
Seleção de Luiz Busatto. 4. ed. revista, ampliada e atualizada. São Paulo, SP:
Global, 2007. p. 203. (Coleção “Melhores Poemas”)
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