Forjada nestes breves
versos, Celan apresenta-nos uma enigmática tapeçaria na qual a linguagem, como
se fosse uma ponte sobre o abismo, torna-se veículo de memórias, de perdas e de
transformações, por intermédio das quais intenta-se reintegrar as ruínas de um
mundo fragmentário, assim dizendo, os sentidos que permitam vislumbrar, deveras,
alguma sorte de redenção simbólica.
Pedra, círculo e palavra,
enquanto insígnias, respectivamente, do resistente à mudança, da totalidade e
de sua recorrência e do princípio mediador da existência, conformam um ritual
no qual matéria, forma e significado entrelaçam-se numa tentativa de capturar a
essência mesma da realidade, empreendimento esse que, com alguma frequência,
resulta incompleto, haja vista que, nos recessos da linguagem, sempre nos escapa
algo que se desmembrou nas circunvoluções da história e da dor, deixando para
trás um rastro de conotações não apreendidas.
J.A.R. – H.C.
Ich hörte sagen
Ich hörte sagen, es
sei
im Wasser ein Stein
und ein Kreis
und über dem Wasser
ein Wort,
das den Kreis um den
Stein legt.
Ich sah meine Pappel
hinabgehn zum Wasser,
ich sah, wie ihr Arm
hinuntergriff in die Tiefe,
ich sah ihre Wurzeln
gen Himmel um Nacht flehn.
Ich eilt ihr nicht
nach,
ich las nur vom Boden
auf jene Krume,
die deines Auges
Gestalt hat und Adel,
ich nahm dir die Kette
der Sprüche vom Hals
und säumte mit ihr
den Tisch, wo die Krume nun lag.
Und sah meine Pappel
nicht mehr.
Aus: “Von schwelle zu
schwelle” (1955)
Lago e árvores mortas
(Thomas Cole: pintor
anglo-americano)
Ouvi dizer
Ouvi dizer que há
na água uma pedra e
um círculo
e sobre a água uma
palavra
que estende o círculo
em torno da pedra.
Vi meu choupo descer
para a água,
vi como o seu braço
agarrou as profundezas,
vi suas raízes
implorarem a noite aos céus.
Não o segui,
somente colhi do chão
aquela migalha
que tem a forma de
teu olho e a nobreza,
tirei de teu pescoço
o colar de sentenças
e com ele adornei a
mesa, onde já estava a migalha.
Não voltei a ver meu
choupo.
Em: “De limiar a
limiar” (1955)
Referência:
CELAN, Paul. Ich
hörte sagen / Ouvi dizer. Tradução de Claudia Cavalcanti. In: __________. Cristal.
Seleção e tradução de Claudia Cavalcanti. Edição bilíngue: alemão x português.
1. ed., 2. reimp. São Paulo, SP: Iluminuras, 2011. Em alemão: p. 46; em
português: p. 47.
❁


Nenhum comentário:
Postar um comentário