Alpes Literários

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UM PASSEIO PELOS ALPES LITERÁRIOS

sábado, 18 de abril de 2026

Paul Celan - Ouvi dizer

Forjada nestes breves versos, Celan apresenta-nos uma enigmática tapeçaria na qual a linguagem, como se fosse uma ponte sobre o abismo, torna-se veículo de memórias, de perdas e de transformações, por intermédio das quais intenta-se reintegrar as ruínas de um mundo fragmentário, assim dizendo, os sentidos que permitam vislumbrar, deveras, alguma sorte de redenção simbólica.

 

Pedra, círculo e palavra, enquanto insígnias, respectivamente, do resistente à mudança, da totalidade e de sua recorrência e do princípio mediador da existência, conformam um ritual no qual matéria, forma e significado entrelaçam-se numa tentativa de capturar a essência mesma da realidade, empreendimento esse que, com alguma frequência, resulta incompleto, haja vista que, nos recessos da linguagem, sempre nos escapa algo que se desmembrou nas circunvoluções da história e da dor, deixando para trás um rastro de conotações não apreendidas.

 

J.A.R. – H.C.

 

Paul Celan
(1920-1970)

 

Ich hörte sagen

 

Ich hörte sagen, es sei

im Wasser ein Stein und ein Kreis

und über dem Wasser ein Wort,

das den Kreis um den Stein legt.

 

Ich sah meine Pappel hinabgehn zum Wasser,

ich sah, wie ihr Arm hinuntergriff in die Tiefe,

ich sah ihre Wurzeln gen Himmel um Nacht flehn.

 

Ich eilt ihr nicht nach,

ich las nur vom Boden auf jene Krume,

die deines Auges Gestalt hat und Adel,

ich nahm dir die Kette der Sprüche vom Hals

und säumte mit ihr den Tisch, wo die Krume nun lag.

 

Und sah meine Pappel nicht mehr.

 

Aus: “Von schwelle zu schwelle” (1955)

 

Lago e árvores mortas

(Thomas Cole: pintor anglo-americano)

 

Ouvi dizer

 

Ouvi dizer que há

na água uma pedra e um círculo

e sobre a água uma palavra

que estende o círculo em torno da pedra.

 

Vi meu choupo descer para a água,

vi como o seu braço agarrou as profundezas,

vi suas raízes implorarem a noite aos céus.

 

Não o segui,

somente colhi do chão aquela migalha

que tem a forma de teu olho e a nobreza,

tirei de teu pescoço o colar de sentenças

e com ele adornei a mesa, onde já estava a migalha.

 

Não voltei a ver meu choupo.

 

Em: “De limiar a limiar” (1955)

 

Referência:

 

CELAN, Paul. Ich hörte sagen / Ouvi dizer. Tradução de Claudia Cavalcanti. In: __________. Cristal. Seleção e tradução de Claudia Cavalcanti. Edição bilíngue: alemão x português. 1. ed., 2. reimp. São Paulo, SP: Iluminuras, 2011. Em alemão: p. 46; em português: p. 47.

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