Há uma explícita
intertextualidade neste poema de Cassas, uma vez que alude ao poema “De Beata
Virgine Dei Matre Maria” (“Da Virgem Santa Maria Mãe de Deus”), do Padre José Anchieta
(1534-1597), cujos 4.172 versos foram inicialmente redigidos em latim nas
areias da Praia de Iperoig, no litoral paulista, e, posteriormente, editados em
papel.
A menção a Anchieta não
consiste em mero e fátuo adorno, senão em âncora discursiva por meio da qual se
tecem contrastes entre a solidez, a transcendência e os méritos beatos de tal figura
histórica, e a fragilidade do presente ato devoto do poeta: enquanto Anchieta mostra-se
digno de ser exaltado – e até mesmo canonizado (*) –, em especial por haver-se
dedicado ao “milagre maior: o da Poesia”, o autor revela-se consciente de sua
própria vulnerabilidade, admitindo que, diferentemente do padre jesuíta, encontra-se
à mercê da natureza e do incessante fluir do tempo.
J.A.R. – H.C.
Luís Augusto Cassas
(n. 1953)
Remember Anchieta
Passeando descalço –
pulmões inflados –
por essas praias
solitárias do litoral
em companhia de gente
muito importante:
o sol, as ondas,
dunas, brisa, coqueiros e gaivotas,
(a mais de 3.000 km
da Praia de Iperoig;
a 418 anos da 1ª
edição do poema
Da Virgem Santa Maria
Mãe de Deus)
às vezes detenho-me
na alva areia,
e com o indicador
escrevo teu nome: Maria.
Como quem procura as tuas
mãos.
O mar – exército de
lavadeiras – vem e apaga.
Escrevo de novo:
Maria.
As ondas vêm,
carregam a palavra,
arremessam-na contra
os arrecifes:
teu nome vira sal e
espuma.
4.172 vezes escrevo:
Maria
4,172 vezes o mar vem
e leva a areia.
Ó Editores do tempo!
Pelas barbas de Gutemberg!
Ó Anchieta! Apóstolo
da Palavra!
Merecias ser
canonizado – Santo, Santo, Santo –
por realizares o teu
milagre maior: o da Poesia.
Enquanto eu – sem a
proteção
de Deus e da História,
mercê do mar, da
chuva e maus ventos,
não deixarei
vestígio:
pedra arremessada
alimento de peixes
ou fósforo apagado
na memória.
Anchieta – Poema à
Virgem Maria
(Benedito Calixto:
pintor brasileiro)
Nota:
(*). O que, de fato, veio a acontecer em 3 de
abril de 2014, com a assinatura do decreto de sua canonização pelo Papa
Francisco (1936-2025) – ele também pertencente à Companhia de Jesus –,
tornando-se então Anchieta o terceiro santo brasileiro, em companhia de Madre
Paulina (1865-1942) e de Frei Galvão (1739-1822).
Referência:
CASSAS, Luís Augusto.
Remember Anchieta. In: BRAGA, Rubem (Comp.). A poesia é necessária.
Organização de André Seffrin. 1. ed. São Paulo, SP: Global, 2015. p. 171-172.
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