Alpes Literários

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UM PASSEIO PELOS ALPES LITERÁRIOS

segunda-feira, 6 de abril de 2026

Luís Augusto Cassas - Remember Anchieta

Há uma explícita intertextualidade neste poema de Cassas, uma vez que alude ao poema “De Beata Virgine Dei Matre Maria” (“Da Virgem Santa Maria Mãe de Deus”), do Padre José Anchieta (1534-1597), cujos 4.172 versos foram inicialmente redigidos em latim nas areias da Praia de Iperoig, no litoral paulista, e, posteriormente, editados em papel.

 

A menção a Anchieta não consiste em mero e fátuo adorno, senão em âncora discursiva por meio da qual se tecem contrastes entre a solidez, a transcendência e os méritos beatos de tal figura histórica, e a fragilidade do presente ato devoto do poeta: enquanto Anchieta mostra-se digno de ser exaltado – e até mesmo canonizado (*) –, em especial por haver-se dedicado ao “milagre maior: o da Poesia”, o autor revela-se consciente de sua própria vulnerabilidade, admitindo que, diferentemente do padre jesuíta, encontra-se à mercê da natureza e do incessante fluir do tempo.

 

J.A.R. – H.C.

 

Luís Augusto Cassas

(n. 1953)

 

Remember Anchieta


Passeando descalço – pulmões inflados –

por essas praias solitárias do litoral

em companhia de gente muito importante:

o sol, as ondas, dunas, brisa, coqueiros e gaivotas,

(a mais de 3.000 km da Praia de Iperoig;

a 418 anos da 1ª edição do poema

Da Virgem Santa Maria Mãe de Deus)

às vezes detenho-me na alva areia,

e com o indicador escrevo teu nome: Maria.

Como quem procura as tuas mãos.

O mar – exército de lavadeiras – vem e apaga.

Escrevo de novo: Maria.

As ondas vêm, carregam a palavra,

arremessam-na contra os arrecifes:

teu nome vira sal e espuma.

4.172 vezes escrevo: Maria

4,172 vezes o mar vem e leva a areia.

Ó Editores do tempo! Pelas barbas de Gutemberg!

Ó Anchieta! Apóstolo da Palavra!

Merecias ser canonizado – Santo, Santo, Santo –

por realizares o teu milagre maior: o da Poesia.

Enquanto eu – sem a proteção

de Deus e da História,

mercê do mar, da chuva e maus ventos,

não deixarei vestígio:

pedra arremessada

alimento de peixes

ou fósforo apagado

na memória.

 

Anchieta – Poema à Virgem Maria

(Benedito Calixto: pintor brasileiro)

 

Nota:

 

(*). O que, de fato, veio a acontecer em 3 de abril de 2014, com a assinatura do decreto de sua canonização pelo Papa Francisco (1936-2025) – ele também pertencente à Companhia de Jesus –, tornando-se então Anchieta o terceiro santo brasileiro, em companhia de Madre Paulina (1865-1942) e de Frei Galvão (1739-1822).

 

Referência:

 

CASSAS, Luís Augusto. Remember Anchieta. In: BRAGA, Rubem (Comp.). A poesia é necessária. Organização de André Seffrin. 1. ed. São Paulo, SP: Global, 2015. p. 171-172.

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